O coronavírus consegue contagiar a renda fixa?

O impacto sobre o mercado de ações é amplamente acompanhado e divulgado, mas não podemos esquecer que a renda fixa também é afetada nestes momentos.

access_time 20/03/2020 - 20:21
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O cenário que vem se desenhando nas últimas semanas, com a pandemia do coronavírus, tem deixado muitos investidores com inúmeras dúvidas.

Com isso, vemos que a renda fixa também oscila e tem riscos. As expectativas para taxas de juros e inflação variam, com impactos sobre os preços dos títulos. E empresas também são impactadas, porém em diferentes graus a depender do setor em que atuam.

Apesar de tudo (e mais ainda do que antes), a renda fixa continua sendo recomendada para todos os perfis de investidor, mas o cenário exige maior cautela e busca por informações sobre os emissores.

Breve panorama

Com o passar dos dias, os sinais negativos que vêm se apresentando nas últimas semanas não parecem ter pressa de se dissipar.

As notícias da disseminação do coronavírus continuam aparecendo e deixam muita incerteza a respeito de quando poderemos ver o fim desta pandemia.

Sem falar das perdas provocadas a pessoas do mundo todo, as perdas econômico-financeiras já são comparáveis às maiores crises globais e ainda não se sabe até onde podem chegar.

Como toda crise, esta também irá passar em algum momento, mas até lá precisamos entender o que está acontecendo e o que podemos esperar.

O impacto sobre o mercado de ações é amplamente acompanhado e divulgado, mas não podemos esquecer que a renda fixa também é afetada nestes momentos.

Como fica a renda fixa?

Como resposta ao coronavírus, muitos setores estão reduzindo ou paralisando suas operações. A redução das atividades leva à perda de receitas e, consequentemente, à diminuição da geração de caixa das empresas.

Não podemos nos esquecer que, para financiar seus investimentos e expandir capacidade, empresas podem recorrer à contração de dívidas, seja diretamente com bancos ou através do mercado de capitais com as debêntures, os CRIs e CRAs.

Em momentos como o atual, os credores da economia passam a ser avessos a risco. Com isso, a disponibilidade de crédito, assim como a disposição para renegociar dívidas em caso de necessidade podem cair.

Por este motivo, é essencial estar atento à saúde financeira das empresas emissoras de dívidas e entender se há e qual o risco para o sistema de crédito.

A renda fixa também tem risco

Ao contrário do que muitos podem pensar, a renda fixa, apesar do nome, também tem risco. E isso tem ficado evidente nas últimas semanas em decorrência da crise que se aprofunda.

Não há motivos para pânico, mas é importante entender quais são esses riscos e o que esperar.

Risco de mercado

O risco de mercado é o risco de ocorrência de perdas resultantes da flutuação nos índices de preço, câmbio e taxas de juros. Com a alta volatilidade dos mercados recentemente, indicadores têm flutuado e isso está se refletindo nos preços dos títulos.

Em especial, as curvas NTN-B (título do Tesouro Nacional indexado à inflação) e DI (equivalente às taxas pré-fixadas) vêm abrindo e se inclinando de forma substancial.

Isso significa que as expectativas futuras para inflação e juros estão subindo, principalmente no longo prazo, precificando incertezas em relação às políticas monetárias que estão sendo anunciadas, maior risco-país e outros receios em relação aos impactos do coronavírus na economia.

Além disso, com os temores em relação ao futuro, a liquidez no mercado secundário (através do qual é possível comprar e vender ativos entre investidores) caiu expressivamente, tornando mais difícil a definição das taxas justas a serem praticadas.

No curto-prazo, o efeito menos acentuado reflete a expectativa dos agentes econômicos de que o Banco Central brasileiro realize mais cortes na Selic do que o esperado anteriormente.

Abaixo é possível acompanhar o comportamento de forte abertura tanto das taxas prefixadas (ou DI futuro) quanto das NTN-Bs desde o final de fevereiro.

Esses movimentos nas curvas têm efeito oposto sobre os preços dos títulos, devido à marcação de mercado. Isso significa que em momentos de elevação das expectativas futuras de juros ou outros efeitos sobre as taxas, os preços dos títulos caem.

Os títulos do Tesouro Direto, por exemplo, refletem essa marcação diariamente, o que pode gerar preocupação. No entanto, esse efeito só é colocado em prática em caso de venda dos títulos antes do vencimento. Ou seja, se o investidor levar o ativo até a data de vencimento, receberá exatamente a rentabilidade definida no momento da compra.

Confira o que aconteceu no Tesouro Direto na última semana.

Para as próximas semanas, é esperado que a volatilidade continue, uma vez que ainda há pouca visibilidade acerca da magnitude dos efeitos da pandemia e quais as medidas que serão anunciadas pelas principais autoridades monetárias globais e governos.

Inclusive, pode haver paralisações na negociação de títulos públicos em momentos de alta volatilidade, semelhantes às que ocorrem na bolsa, para proteger o investidor.

Risco de crédito

Esse risco está atrelado à possibilidade de perdas resultantes da incapacidade de uma empresa cumprir com suas dívidas ou a algum outro evento que venha a deteriorar o crédito da empresa durante o prazo de duração do papel.

Como estamos passando por uma crise de enorme magnitude e origem sem precedentes, o que dificulta o diagnóstico para frente, é essencial que acompanhemos de perto empresas e setores para avaliar os potenciais impactos.

No caso de ações, fica claro o tamanho da preocupação, com seguidos circuit breakers, Ibovespa caindo fortemente após atingir máximas históricas poucos meses antes. Mas as incertezas passam também a atingir a economia real.

Como mencionado anteriormente, no último ano um grande número de empresas aproveitou a queda de juros e o maior apetite a risco de credores para refinanciar suas dívidas.

Ou seja, tomaram novas dívidas mais longas e mais baratas para honrar com outras mais caras e vencendo em prazo mais curto, melhorando suas estruturas de capital.

Apesar de, em geral, e mesmo sem saber o que aconteceria, empresas já tenham preparado seus balanços para momentos mais difíceis, é importante olhar os casos mais de perto.

Afinal, já vemos redução e até paralisação de atividade em alguns setores, o que se traduz em queda de receitas e, inevitavelmente, geração de caixa, fundamental para pagamento de dívidas.

Ratings

Um primeiro passo para entender como estava a situação financeira das empresas antes da crise é observar os ratings. Em geral, ações de ratings levam algum tempo para refletirem os acontecimentos e um dos motivos para isso é que a empresa precisa ser profundamente analisada antes de qualquer mudança.

Tomando como exemplo os ratings em escala nacional (ou seja, escala que coloca todas as empresas brasileiras na mesma régua) da S&P Global Ratings no dia 18 de março:

É possível observar que a grande maioria das empresas era avaliada com a melhor nota possível, AAA, e com perspectiva estável, indicando que não havia expectativa de novas revisões (rebaixamentos ou elevações) nos próximos 12 meses.

No entanto, no dia 16 de março já houve a primeira ação como resposta à crise do coronavírus. A empresa de turismo CVC foi colocada em CreditWatch com implicações negativas. Isso significa que seu rating pode ser rebaixado nos próximos 90 dias.

No dia seguinte, 17 de março, a agência tomou a mesma decisão para as empresas aéreas Gol e Azul e no dia 19, para a Natura.

Não é exagero esperar que novas ações semelhantes sejam tomadas nas próximas semanas, principalmente nos setores mais afetados pela crise.

Alavancagem e refinanciamento

A alavancagem, métrica que indica o tamanho da dívida em relação à geração de caixa de uma companhia, é normalmente medida por dívida líquida/EBITDA ou dívida líquida/patrimônio líquido e a liquidez imediata é medida pelo caixa + equivalentes de caixa/passivo circulante (de modo geral, mede se os recursos disponíveis imediatamente seriam suficientes para cobrir os vencimentos de dívida).

Em um cenário “normal”, assumimos que empresas conseguirão refinanciar suas dívidas com os bancos e/ou acessar mercado de capitais.

No entanto, em um cenário mais estressado, é possível que essas negociações sejam mais complexas e que as empresas encontrem desafios que normalmente não estariam presentes. Por este motivo, a análise feita parece ser mais conservadora.

O objetivo não é alarmar, uma vez que em geral as empresas estão bem preparadas para a crise e podem mitigar impactos, mas sim apontar quais são os riscos presentes para que possamos acompanhar mais de perto e evitar surpresas.

Em relatório elaborado por nossos analistas de ações e publicado em 17/03, as empresas abertas cobertas passaram por análise de sua alavancagem e liquidez imediata.

Apresentamos abaixo a análise de outras empresas não contempladas no relatório citado cima, mas que entendemos ser relevantes para credores.

A autora agradece a contribuição e análises de Edson Hashimoto, Isabela Jannuzzi, Lucas Genoso, Mirian Abe e Vitor Corona.

O que fazer agora?

Dado o cenário que se desenha, uma das principais dúvidas é sobre o que fazer.

Em primeiro lugar, as alocações recomendadas pelos nossos especialistas mudou, rebalanceando as carteiras para adequá-las ao cenário atual.

A carteira conservadora não sofreu alterações, uma vez que já era composta 100% por renda fixa. Já as carteiras moderada e agressiva tiveram elevação do percentual recomendado de renda fixa.

Tenha sempre em mente o seu perfil de investidor antes de tomar qualquer decisão de investimento.

Em relatório publicado no dia 11/03, exploramos a importância da renda fixa em uma carteira diversificada, principalmente em momentos como este.

Reserva de emergência

Esse é o primeiro investimento a ser feito por qualquer investidor. Resumidamente, a ideia da reserva é ser utilizada em caso de imprevistos e, por isso, deve estar aplicada em ativo líquido e seguro. A rentabilidade, para esse propósito, não é o foco.

O ativo que mais se enquadra para esse objetivo é o Tesouro Selic, que pode ser resgatado a qualquer momento e é muito seguro, por não sofrer com oscilações do mercado e ser emitido pelo Governo Federal.

Quem já tem

  • Apenas resgate se de fato houver necessidade.

Quem não tem

  • Comece agora.
  • A reserva pode ser feita aos poucos, por isso não precisa esperar ter todo o montante.

Tesouro Direto

Com a abertura da curva DI que mencionamos no começo deste artigo, os preços dos títulos do Tesouro Direto indexados ao IPCA ou prefixados desvalorizaram, principalmente os ativos de vencimento mais longo, que têm maior sensibilidade a oscilações nas taxas.

Quem já tem

  • Não é o momento ideal para realizar resgates.
  • Com o efeito dos juros, os preços caíram e essa desvalorização só é colocada em prática em caso de resgate.
  • O ideal é manter o ativo até seu vencimento, para garantir o retorno contratado no momento da compra.

Quem não tem

  • Pode ser boa oportunidade para compra.
  • Preços estão desvalorizados, com rentabilidades maiores, em um ativo muito seguro.
  • Títulos mais longos estão mais descontados, podendo ser bom momento para quem busca aumentar o prazo de sua carteira.

Emissões bancárias

As emissões bancárias (CDBs, LCIs, LCAs, LCs) são boa opção de ativo seguro, por contar com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para investimentos de até R$ 250 mil.

Ou seja, apesar de haver atualmente maior incerteza em relação ao setor bancário, embora sem preocupação no momento, esses ativos oferecem segurança ao investidor que busca rentabilidade mais elevada.

Com a abertura da curva de juros, existem atualmente opções de títulos de prazo mais curto com rentabilidades melhores do que algumas semanas atrás. Além disso, para quem busca opções indexadas ao IPCA ou prefixados, há alternativas de prazos entre três e sete anos.

Quem já tem

  • Não há motivos para resgate antecipado, caso não haja necessidade.

Quem não tem

  • É um bom momento para aproveitar oportunidades com taxas mais elevadas.
  • Lembrando que tem o mesmo risco da poupança (garantia do FGC), mas rende mais, de forma geral.
  • Procurar não ultrapassar o limite da garantia do FGC para bancos com risco mais elevado.

Crédito privado

O cenário incerto em que estamos atualmente eleva as incertezas sobre os emissores privados, como apresentamos na análise de crédito.

Por esse motivo, os spreads de crédito vêm abrindo nas últimas semanas, por receio de maior risco de crédito das empresas. Porém, a oscilação tem sido forte e os níveis dos spreads ainda não se normalizaram, dificultando a leitura de qual seria o patamar justo desses ativos.

Com isso, ativos de risco baixo (chamados de high grade, em referência às notas altas atribuídas pelas agências de rating) estão com rentabilidades maiores e preços mais baixos, quando negociados no mercado secundário.

Quem já tem

  • É necessário avaliar o risco do emissor do ativo.
  • Caso o setor/emissor não seja muito afetado, não seria o caso de tentar se desfazer.
  • Caso seja, recomenda-se acompanhar de perto a evolução do risco de cada emissor.

Quem não tem

  • Há ativos de risco baixo com rentabilidades mais elevadas.
  • Busque emissores cujo risco se adeque ao seu perfil de investidor.
  • Tendo em mente o momento incerto do mercado, dê preferência a emissores high grade (risco baixo = rating elevado).

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