Estagflação: o que significa? Vivemos esse processo no Brasil?

Será que vivemos o que os economistas chamam de “estagflação”? Ou seja, um período de inflação alta e estagnação da economia?


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Ao longo desse ano, o fantasma da inflação ganhou força no rol de assombrações que atrapalha o sono dos brasileiros. No que parece que foi um doloroso piscar de olhos, o IPCA (nosso principal indicador de inflação, que mede os preços ao consumidor) atingiu 9,7% no acumulado em doze meses até agosto.

Ao mesmo tempo, a própria alta da inflação (que corrói o poder de compra de consumidores), e o aumento de incertezas políticas (que impacta a confiança de quem produz, investe ou compra), além da elevação de juros necessária para conter os preços, levou a uma piora das perspectivas de crescimento da nossa economia olhando para o ano que vem. Ou seja, devemos crescer menos do que esperávamos.

Com tudo isso junto e misturado, tem ganhado força a seguinte pergunta: será que vivemos o que os economistas chamam de “estagflação”? Ou seja, um período de inflação alta e estagnação da economia?

De onde vem o termo Estagflação?

Normalmente, períodos de inflação mais alta são acompanhados por momentos de crescimento econômico (excessivo). Isso ocorre, pois quando a demanda por bens e serviços cresce além da capacidade de oferta da economia, em algum momento (quando a ociosidade se esgota), os preços começam a subir.

Assim, é mais comum observar processos inflacionários causados por movimentos de demanda – que, por sua vez, derivam de crescimento da atividade econômica.

Em outras palavras, uma economia em que todo mundo está com dinheiro e querendo comprar, mas não deu tempo ainda de produzirem tudo isso? O preço sobe.

Porém, sob certas condições, acontece uma combinação pior: preços em alta e desaceleração econômica, ao mesmo tempo. Foi o que ocorreu na década de 1970 nos países desenvolvidos, quando o termo “estagflação” foi cunhado.

No final de 1973, países membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) passaram a regular o escoamento da produção de petróleo. Ou seja, criaram um cartel de produção da commodity, com o objetivo de controlar os preços por meio da produção.

A criação da OPEP e o controle da produção levou a uma elevação no preço do petróleo de quatro vezes no intervalo de três meses. Como se não bastasse, entre 1979 e 1980, uma nova crise petrolífera levada por questões geopolíticas elevou ainda mais os preços da commodity – que subiu de U$S 13 para US$ 38 o barril.

Com a elevação do preço do petróleo, os preços de produtos à base da commodity também aumentaram, como a gasolina. Isso levou a um efeito cascata de maiores custos na economia, especialmente por meio do maior custo de transportes, resultando em um aumento generalizado de outras mercadorias.

Assim, a inflação aumentou repentinamente, ao mesmo tempo em que a produção recuava, diante da elevação dos custos ao longo da cadeia produtiva. De maneira simplificada:

Petróleo caro à Combustível caro e escasso à Transporte caro à Produtos mais caros e escassos à Escassez (e alto custo) de produtos para fazer outros produtos à Economia enfraquecida.

O episódio da crise do petróleo da década de 1970 ilustra a diferença da natureza da inflação entre a inflação tradicional e a “estagflação”. Enquanto a primeira é gerada por um superaquecimento da demanda, a segunda é resultado de um choque de custos, ou seja, pelo lado da oferta.

E no Brasil, estamos vivendo um processo de estagflação?

Para respondermos a essa pergunta, precisamos analisar se a inflação observada hoje no país é gerada por questões de crescimento da demanda ou de oferta. Ou seja, os preços estão subindo porque há muitas pessoas demandando esses bens e serviços (e a produção está igual), ou porque os insumos que são usados para fazer tais bens e serviços estão mais caros (custos de produção mais altos)?

Nossa análise sugere que é um pouco dos dois.

No início da pandemia, o efeito sentido nos preços foi desinflacionario – os preços passaram a subir mais devagar. O IPCA acumulado em 12 meses recuou de 4,31% em dezembro de 2019 para 1,88% em maio de 2020. Isso aconteceu principalmente por conta da queda na demanda por bens e serviços, intensificado pelas medidas restritivas de mobilidade para conter os avanços da covid-19.

De meados do ano passado para cá, no entanto, essa tendência se inverteu, e a inflação acumulada em 12 meses se aproxima dos 10%.

Por que a inflação subiu tão rápido?

Como tudo em economia, o motivo por trás da alta dos preços foi uma tempestade perfeita, com a ironia de estarmos passando por um dos períodos de menos chuvas na história recente.

Do lado da oferta, tivemos uma combinação de choques, incluindo:

  • desequilíbrios causados pela pandemia em cadeias de produção global, encarecendo insumos para produção de bens industriais – fábricas e portos fechados, causando problemas como falta de peças para carros;
  • commodities em alta e/ou mantendo-se em patamar elevado, apesar da queda recente de certos minerais, como minério de ferro;
  • o real desvalorizado, especialmente por conta de riscos fiscais e políticos domésticos, que encarece o preço final de bens em reais, do pão francês (com farinha importada) à geladeira e ao carro; e finalmente
  • a pior seca dos últimos 90 anos, que levou ao aumento de preços da energia elétrica – que afeta não apenas famílias, mas a cadeia produtiva como um todo (afinal, quase tudo precisa de energia para funcionar, de fábricas e grandes empresas, às padarias e manicures). 

Ao mesmo tempo, tivemos também pressões pelo lado da demanda – ou seja, que puxaram os preços para cima por conta da maior procura e consumo de bens e serviços.  O auxílio emergencial – que injetou mais de R$ 350 bilhões na economia – e a poupança circunstancial das classes mais ricas (que economizaram com viagens, restaurantes e outros serviços) foram um dos principais motores dessa demanda no último ano, especialmente considerando bens duráveis (como eletrodomésticos), alimentos e materiais de construção.

Além disso, mais recentemente, o fim das medidas de restrição permitido pelo avanço da vacinação também ajudou a puxar a inflação pra cima, com serviços retomando as margens perdidas ao longo do último ano.

Para tornar essa discussão mais palpável, montamos um gráfico que tenta ilustrar essa diferença de forças:  o que vem de demanda X o que vem de oferta.

Construímos três subgrupos dentro das categorias do IPCA: o primeiro com preços mais sensíveis ao choque de custos, como combustíveis de veículos, automóveis e peças e energia elétrica; um segundo com preços sensíveis à demanda, como material de construção, recreação e serviços de telefonia e internet; e um terceiro, sensível aos dois simultaneamente, como alimentos, eletroeletrônicos e móveis.

O que quer dizer tudo isso, e o que esperar?

Como vimos, por conta da pandemia e de seus efeitos particulares sobre a economia, de fato no último ano passamos por momentos que lembram a estagflação dos anos 70, com queda de produção e pressão de custos. Mas também passamos por momentos de arrancada de demanda e alta de preços. Uma verdadeira montanha-russa econômica!

Ao mesmo tempo, a nossa economia segue se recuperando, e devemos crescer 5,3% nesse ano. Ou seja, vemos uma inflação elevada, causada por oferta e por demanda, e não temos estagnação de crescimento.

Assim, não vivemos hoje um processo de estagflação.

Mas à frente?

Olhando para frente, esperamos que os principais fatores que empurram os preços hoje percam força gradualmente – tanto aqueles do lado da demanda, quanto da oferta. Ou seja, os preços de commodities (que já começam a estabilizar), os desequilíbrios nas cadeias de produção, a volta mais forte do setor de serviços e os programas de auxílio de renda (como auxílio emergencial e adiantamento de certos benefícios).

Vale notar que isso não significa que os preços vão cair. Mas sim, que vão passar a subir de maneira mais devagar.

Além disso, não podemos esquecer da alta da taxa Selic, e do seu efeito sobre a atividade econômica. Para conter a alta de preços, o Banco Central está elevando a nossa taxa básica de juros, a Selic. Esperamos que ela alcance 8,50% no começo do ano que vem.

Com juros mais altos, a economia perde força (sendo justamente esse o principal objetivo do Banco Central), e os preços sobem mais devagar. 

Assim, devemos sim ter uma atividade crescendo mais devagar. Mas não esperamos que sigamos com inflação tão alta, e tampouco que nossa economia vá de fato encolher.

Mas há riscos. E o principal deles vem na forma (ou não vem na forma…) de chuvas. Caso a situação climática não melhore nos próximos meses, a crise hídrica pode impactar ainda mais os preços (não permitindo que o preço da energia ceda), prejudicando também a atividade – que já não deve crescer muito, como falamos no início.

Nesse cenário, poderíamos viver uma situação bastante parecida com o momento vivido nos EUA nos anos 70: crescimento estagnado + inflação alta.

Por ora, porém, esse cenário segue pouco provável (menos de 20% de chance), como colegas da XP discutem aqui em mais detalhes.

Nota: texto elaborado em conjunto com a chefe de economia da rico, Rachel de Sá

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