Cinco meses se passaram: qual o panorama para a renda fixa?

Com base em um cenário menos incerto, acreditamos ser possível diversificar carteiras com ativos de risco mais elevado em busca de mais rentabilidade, principalmente com a Selic baixa


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Cinco meses se passaram desde que publicamos nosso primeiro relatório a respeito dos impactos do covid-19 sobre a qualidade de crédito das empresas.

Hoje já temos uma melhor visibilidade acerca dos efeitos que a pandemia teve sobre setores e empresas. Assim como nós, o mercado também indica esta melhor percepção, refletida sobre novas captações de dívidas e suas taxas.

Com base neste cenário menos incerto, hoje acreditamos ser possível diversificar carteiras com ativos de risco mais elevado em busca de maiores rentabilidades, principalmente ao considerarmos a taxa básica de juros no patamar de 2% ao ano.

Onde que mudou?

Há três meses publicamos nosso segundo relatório de acompanhamento do cenário de renda fixa e os impactos sofridos com a crise. Naquele momento já era possível identificar certa retomada de captações de dívida, embora ainda tímida e mais concentrada em prazos mais curtos.

Com o passar dos meses, no entanto, as incertezas foram dando espaço a certo otimismo com uma potencial retomada da economia, impulsionada pela alta liquidez nos mercados.

Em um cenário de menos incerteza e, portanto, menor aversão a risco, empresas buscam captar recursos de prazos mais longos, aproveitando o apetite dos investidores. Desta forma, conseguem alongar o perfil de suas dívidas, reduzindo o próprio risco. Este movimento já foi demonstrado, como podemos observar no gráfico abaixo.

Investidores que tinham apostado suas fichas em ativos muito conservadores parecem ter virado a chave de vez (talvez até demais) para buscar maiores rentabilidades em ativos de maior risco. Algo compreensível em um país acostumado a ver juros altíssimos, que agora se vê com taxa básica de 2% ao ano.

Mas vale também uma visão geral dos riscos da renda fixa, quais sejam o risco de mercado e o de crédito, que tanto impactaram os ativos e fizeram os investidores enxergarem que a renda fixa, afinal de contas, não é fixa.

Risco de mercado

O risco de mercado é o risco de ocorrência de perdas resultantes da flutuação nos índices de preço, câmbio e taxas de juros. A volatilidade dos mercados leva à flutuação de indicadores e isso tem influência sobre os preços dos títulos de renda fixa.

Abaixo é possível observar os movimentos das curvas de juros futuro e dos títulos NTN-B. No começo da crise, houve forte abertura inclinação da curva DI futuro (linha cinza mais claro), refletindo elevadas incertezas ao longo de toda a curva, com mais intensidade em prazos mais longos.

Já nos últimos meses, com melhor visibilidade sobre os impactos da crise sobre os setores e o mercado como um todo, a curva reduziu patamares das taxas.

No entanto, é interessante observar que a inclinação se manteve praticamente inalterada, uma vez que preocupações com a situação fiscal brasileira persistem, tendo efeito principalmente sobre as taxas mais de longo prazo.

No último relatório, tínhamos a expectativa de um novo corte na taxa Selic, além do patamar que já estávamos, de 3%. Desde então, novos cortes ocorreram e hoje estamos com a taxa básica de juros a 2% ao ano, sendo que o mercado ainda espera novo movimento pelo Banco Central (indicado na ponta curta da curva de juros abaixo de 2%).

A redução de incertezas e da percepção de risco pelos agentes do mercado fizeram com que os prêmios de risco de crédito apresentassem redução. Hoje já é possível identificar tendência de fechamento nas taxas tanto no mercado secundário quanto em novas emissões.

Importante: Esses movimentos nas curvas têm efeito oposto sobre os preços dos títulos, devido à marcação de mercado. Isso significa que em momentos de elevação das expectativas futuras de juros ou outros efeitos sobre as taxas, os preços dos títulos caem.

Os títulos do Tesouro Direto, por exemplo, refletem essa marcação diariamente, o que pode gerar preocupação. No entanto, esse efeito só é colocado em prática em caso de venda dos títulos antes do vencimento. Ou seja, se o investidor levar o ativo até a data de vencimento, receberá exatamente a rentabilidade definida no momento da compra.

Risco de crédito

Esse risco está atrelado à possibilidade de perdas resultantes da incapacidade de uma empresa de cumprir com suas dívidas ou de algum outro evento que venha a deteriorar o crédito da empresa durante o prazo de duração do papel.

Principalmente durante períodos de crise é essencial que acompanhemos de perto empresas e setores para avaliar os potenciais impactos para os investidores.

Ratings

Uma das formas de entender como está a situação de crédito das empresas é observar os ratings. Em geral, rebaixamentos e elevações de ratings levam algum tempo até refletirem os acontecimentos e um dos motivos para isso é que a empresa precisa ser profundamente analisada antes de qualquer mudança.

Como exemplo, essas foram as ações realizadas pelas agências desde o começo de junho (não inclui eventuais afirmações de ratings):

Note que pode se fazer necessário rolar as tabelas para visualizá-las por completo.

Como pode ser observado, o número de rebaixamentos reduziu ao longo dos meses, bem como as mudanças de perspectiva deixaram de ser negativas, uma vez que houve movimento forte deste tipo em março, abril e maio.

A autora agradece a contribuição e análises de Edson Hashimoto, Isabela Jannuzzi, Lucas Genoso e Vitor Corona.

Medidas de controle de impacto

Desde o início da crise no Brasil, foram diversas as medidas anunciadas para controlar a magnitude do impacto sobre os setores e, consequentemente, as empresas.

Abaixo, procuramos sumarizar as principais medidas tomadas desde o nosso último relatório de atualização.

MP 975, de 1 de junho de 2020 – Programa Emergencial de Acesso a Crédito para Pequenas e Médias Empresas

O governo federal instituiu, através da Medida Provisória (MP) 975, o Programa Emergencial de Acesso a Crédito, com o objetivo de preservar empresas de pequeno e médio porte.

A MP altera a Lei 12.087, de 2009, que trata da participação da União em fundos garantidores de risco de crédito para micro, pequenas e médias empresas e para produtores rurais e suas cooperativas; e também a Lei 13.999, de 2020, que instituiu o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). 

Sob a supervisão do Ministério da Economia, o Programa Emergencial de Acesso a Crédito se destina a empresas que tenham sede ou estabelecimento no Brasil e obtido, em 2019, receita bruta superior a R$ 360 mil e inferior ou igual a R$ 300 milhões.

A MP 975 autoriza um acréscimo de R$ 20 bilhões de recursos da União ao Fundo Garantidor para Investimentos (FGI). Valores não utilizados até 31 de dezembro de 2020 para garantia das operações ativas serão devolvidos posteriormente à União. 

Segundo a MP, o FGI vinculado ao novo programa não contará com nenhum tipo de garantia ou aval por parte da União e responderá por suas obrigações. O aumento da participação será feito por meio da subscrição de cotas em até quatro parcelas sequenciais no valor de até R$ 5 bilhões, observado o limite global. A integralização da primeira parcela ocorrerá após a abertura de dotação orçamentária, a ser atestada por meio de ato do ministro da Economia. 

As parcelas subsequentes serão integralizadas quando o limite máximo de cobertura de inadimplência referente às operações atingir o equivalente a 85% do patrimônio já integralizado, desde que o Ministério da Economia ateste a existência de dotação orçamentária suficiente. Na hipótese de não haver recursos orçamentários suficientes ou de não ser atingido o limite pretendido pela MP dentro do prazo, não haverá obrigação por parte da União de integralizar a totalidade dos valores. 

Conforme a MP, a cobertura pelo FGI da inadimplência suportada pelo agente financeiro será limitada a até 30% do valor total liberado no âmbito do Programa Emergencial de Acesso a Crédito. O texto também determina que os agentes financeiros adotarão os procedimentos necessários à recuperação dos créditos das operações realizadas, em conformidade com suas políticas, e não poderão interromper ou negligenciar o acompanhamento desses processos.

Regulamentação da “conta covid” – Auxílio às empresas do setor elétrico

No dia 23 de junho a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou as principais condições para a participação por parte das distribuidoras de energia na operação financeira denominada “conta covid” (instrumento similar ao feito em 2015, em que as distribuidoras recebem quantias dos bancos, liderados pelo BNDES, sendo esse montante será pago em parte pelos consumidores em 60 meses via tarifa).

O teto estabelecido para o empréstimo somando todas as distribuidoras foi de R$16,1 bilhões, a um custo total de CDI + 3,9%. No dia 5 de julho, 49 das 53 distribuidoras solicitaram a adesão ao pacote, totalizando R$14,8 bilhões de recursos.

A operação foi desenhada para ajudar a endereçar os impactos financeiros negativos da pandemia para as distribuidoras, incluindo a queda na arrecadação por inadimplência, juntamente com os efeitos da sobre-contratação ocasionada pela menor demanda de energia no período.

As distribuidoras receberão mensalmente da Aneel os seus respectivos montantes. A Aneel postergou a análise dos pedidos de reequilíbrio econômicos dos contratos de concessão das distribuidoras, relacionado aos impactos do covid-19.

Este socorro foi uma medida positiva para o setor, uma vez que é uma ajuda às distribuidoras para seu problema de caixa de curto prazo, além de garantir a preservação de fluxos de caixa para os demais participantes do sistema elétrico.

Por fim, a abertura para discussões sobre possíveis reequilíbrio econômico financeiro das concessões no futuro pode ser visto como algo positivo também.

Lei 14.030, de 28 de julho de 2020 (veto ao artigo de waiver temporário de covenants)

A lei é a conversão da MP 931/20, que foi aprovada no Congresso e no Senado e sancionada pelo governo federal, e trata da postergação e flexibilização na forma em que são feitas as Assembleias Gerais Ordinárias tendo em vista os efeitos do covid-19.

Entretanto, a presidência da República vetou o artigo 11 da MP, que previa a suspensão, durante a pandemia da covid-19, da necessidade de empresas de cumprirem os covenants das dívidas, que envolvessem índices financeiros referentes ao período de 30 de março até 31 de dezembro de 2020.

A intenção era evitar que empresas que possuem instrumentos de dívida com covenants, como é o caso de grande parte das debêntures, fossem executadas por não conseguirem atingir metas por causa da queda geral da atividade econômica.

Entretanto, o veto presidencial tira essa possibilidade, o que pode ocasionar eventos de vencimento antecipado não automático em diversos papéis de crédito privado nos próximos trimestres. O risco é maior para empresas que já possuem ratings mais baixos, principalmente por, em sua grande maioria, já terem este efeito considerado pelas agências de classificação de risco.

Setores: Riscos e mitigantes

A cada novo mês, temos mais visibilidade acerca dos impactos já sentidos pelos setores e os potenciais efeitos que ainda deverão ocorrer.

Abaixo, apresentamos os principais fatores de risco e mitigantes dos setores que concentram grandes emissores de dívidas.

Açúcar e etanol

Como esperado, a safra atual (2020/21) tem sido mais focada na produção de açúcar.

Riscos: (i) queda no consumo de açúcar – pela primeira vez em mais de quarenta anos, haverá uma retração no consumo de açúcar, uma vez que ocorre uma mudança de hábitos alimentares com as pessoas dentro de casa. Este fator poderá impactar o preço de açúcar nas próximas safras, dependendo da produção mundial; (ii) regime climático desfavorável – esta safra está sendo marcada por chuvas abaixo da média, que impactarão a produtividade média do setor, levando a quebras de safra em algumas regiões.

Mitigantes: (i) manutenção de um câmbio depreciado, o que torna a gasolina mais cara e, consequentemente, ajuda o preço do etanol; (ii) preço do brent: no início da pandemia acompanhamos uma forte queda no preço do barril de petróleo, sendo negociado abaixo de US$20/barril; entretanto, nas últimas semanas, o preço está em um rally próximo aos US$ 40/barril, o que também ajuda o setor; (iii) consumo do etanol se restabelecendo, com o volume demandado no mês de junho crescendo 5% em relação ao mês anterior, segundo dados nacionais compilados pela UNICA.

O principal fator que vem amortecendo os impactos do setor é o preço do açúcar em reais, que continua próximo de R$ 1.350,00/ton – preço com uma considerável margem para as usinas. Assim, diversos players avançaram nas fixações de preço, garantindo receitas elevadas de açúcar para as próximas duas safras.

Elétricas e saneamento

Conforme apresentado acima, no dia 23 de junho a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou as principais condições para a participação por parte das distribuidoras de energia na conta covid. No dia 5 de julho, 49 das 53 distribuidoras solicitaram a adesão ao pacote, totalizando R$14,8 bilhões de recursos.

Riscos: Evolução da inadimplência das distribuidoras, além da queda na demanda (sobrecontratação). No setor de geração de energia, atentar-se aos contratos do mercado livre e também ao desfecho das notificações de evento de força maior por parte das distribuidoras para as geradoras de energia.

Para empresas de saneamento, deve-se monitorar alguma nova medida que poderia suspender temporariamente tarifas de forma mais importante e seus impactos para as empresas. Por fim, entender a proporção de dívida em dólar para cada uma das empresas.

Mitigantes: Para transmissão e geração de energia elétrica e empresas de saneamento: há baixa correlação com atividade econômica. Para distribuidoras: conta-covid; a Aneel vai analisar posteriormente os pedidos de reequilíbrio econômicos dos contratos de concessão das distribuidoras, relacionado aos impactos do covid-19.

No caso de saneamento, há baixa correlação com a atividade econômica e o setor conta com tarifas reguladas, sendo o serviço prestado um bem essencial para a população.

Incorporação residencial

O segmento Minha Casa, Minha Vida vem comprovando sua resiliência, mantendo vendas em patamar próximo ou até superior ao observado antes da pandemia. Este desempenho é explicado pelo alto déficit habitacional e consequente alta demanda do segmento, além de padronização das unidades.

O segmento de média e alta renda vem sofrendo mais com relação às vendas, porém algumas companhias vêm reportando uma retomada gradual. Um dos motivos seria a maior disponibilidade dos compradores para pesquisar imóveis; outra razão seria a busca por reserva de valor mediante a atual volatilidade dos investimentos no mercado financeiro.

Riscos: No curto prazo, vendas, distratos e oferta de crédito pelos bancos,  tanto em financiamento à produção quanto para o tomador final. No médio prazo, taxa de desemprego e preço dos imóveis.

Mitigantes: No curto prazo o setor pode ser beneficiado pela redução da taxa de juros dos financiamentos imobiliários e pela queda da Selic, entretanto o ritmo mais lento nas aprovações deve segurar os lançamentos no segundo semestre.

Propriedades comerciais

Na primeira semana de agosto, 513 dos 577 shopping centers do país estavam abertos, inclusive no interior de SP e na grande São Paulo. Os estabelecimentos estão operando em horário reduzido, com medidas de higiene reforçadas e 50% da capacidade nas praças de alimentação. Cinemas, teatros e áreas kids permanecem fechadas.

Os empreendimentos reabertos têm registrado tráfego de cerca de 50% dos patamares pré-covid, assim como as vendas. O consumidor mudou de comportamento também, passando a ficar menos tempo no shopping, fazendo a visita apenas para comprar algo já planejado. Apesar das vendas bem inferiores ao normal, a maioria dos lojistas prefere manter as portas abertas e retomar a normalidade gradualmente.

No setor de properties, um relatório da Cushman & Wakefield mostra que a vacância dos escritórios em São Paulo passou de 16,9% para 18,2% no segundo trimestre, com a devolução de áreas por empresas, que estão estudando transferir alguns funcionários para o esquema de home office permanente. Entretanto, o gasto com multas de rescisão e mudanças podem retardar o processo.

Já a crise beneficiou o segmento de galpões logísticos, com o aumento das vendas no comércio eletrônico, que elevou a demanda de espaços para centros de distribuição. Segundo levantamento da consultoria NewMark Knight Frank, a quantidade de galpões alugados em SP no primeiro semestre equivaleu a 76% do volume total de 2019. A vacância caiu de 18,8% para 17,7% e o preço médio por metro quadrado subiu de R$ 17,3 para R$ 18,4.

Riscos: No curto prazo, monitorar a retomada da atividade nos shoppings reabertos e as condições para pagamento dos aluguéis do período de fechamento. Para properties, acompanhar os dados de absorção de novas áreas e preços negociados. No médio prazo, acompanhar os impactos da recessão sobre as empresas em geral, uma vez que os locatários pertencem a todos os setores.

Mitigantes: A necessidade de capital de giro das empresas é baixa e o acesso a crédito é fácil, devido à capacidade de dar imóveis em garantia aos empréstimos. Além disso, as empresas do setor apresentam baixa alavancagem.

Ferrovias

A safra recorde de soja este ano beneficiou as empresas de transporte ferroviário. Segundo números da ANTT, o tráfego total de janeiro a junho caiu 8%, mas principalmente devido à redução no transporte de minério de ferro, que caiu 10%. Sem o minério, a queda foi de apenas 1%. Houve alta de 5% no transporte de soja e 32% no transporte de açúcar, contrastando com a queda no transporte de milho, devido ao atraso na safra deste ano.

Riscos: Observar serão quais medidas do governo fará para atenuar os efeitos da crise (possíveis medidas: redução ou postergação de taxas de outorga variável, alteração do cronograma de investimentos obrigatórios ou outras formas de reequilíbrio financeiro dos contratos de concessão).

Mitigantes: A manutenção das atividades dos portos tem mantido os fluxos de exportação normais. A maior parte dos embarques de grãos já estava contratada, e a alta do dólar frente ao real está estimulando o aumento das vendas de soja e o escoamento da safra recorde, o que traz aumento no curto prazo de transporte de granéis sólidos e grãos.

Atividades na China já estão sendo retomadas gradualmente, e o país tem acelerado as compras de commodities agrícolas como soja, trigo e milho. Maior pressão de caixa da maioria das empresas está nos investimentos de renovação das concessões, que poderiam ser reescalonados pelo governo federal em cenários mais extremos. Além disso, o BNDES já anunciou que pode considerar o adiamento dos pagamentos de juros e amortização de suas dívidas por 6 meses, desde que não sejam distribuídos dividendos e JCP aos acionistas.

Concessões rodoviárias

Nos dois últimos meses houve uma melhora gradual nos números de tráfego nas rodovias, que hoje se situam em uma variação em torno de -12% em eixos equivalentes em relação ao mesmo período do ano anterior.

Outro ponto de destaque foi a postergação do reajuste das tarifas das concessões do Estado de São Paulo, que deveria ter sido feito no começo de julho. A princípio o reajuste será feito em novembro, e este será mais um dos itens que deverá ser incluído no cálculo do reequilíbrio econômico-financeiro devido à pandemia.

Apesar da sinalização pelas principais agências (ANTT e Artesp) de que as concessionárias têm direito a um reequilíbrio nos contratos, ainda não houve nenhuma medida concreta nesse sentido, até porque os efeitos da pandemia sobre as receitas das empresas ainda devam se estender até o fim do ano, e também porque a forma de reequilíbrio deverá ser diferente para cada concessionária.

Concessões mais maduras provavelmente tentarão pleitear uma extensão do prazo enquanto as concessões mais novas teriam mais interesse em uma alteração no cronograma de entrega dos investimentos obrigatórios.

Riscos: No curto prazo, acompanhar se houve uma estabilização ou mesmo reversão da tendência de queda semanal de tráfego, e os anúncios de prévias de tráfego das concessionárias e medidas adicionais para aumento da liquidez das empresas. No médio e longo prazo, acompanhar as discussões de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos e acompanhar a velocidade de recuperação da demanda nos próximos anos.

Mitigantes: Empresas costumam ter elevadas margens operacionais, com controle de liquidez sendo possibilitado através da redução no ritmo de investimentos. As maiores empresas do setor (CCR e Ecorodovias) já conseguiram postergar o pagamento de suas obrigações com o BNDES por seis meses. As agências reguladoras já admitem que este evento é passível de pleitos de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato, mas ainda não consegue mensurar qual será a extensão desta compensação.

Operadores portuários

Apesar do impacto do câmbio nas importações, os números da Antaq ainda apontam uma alta de 4% no volume transportado no período de janeiro a maio de 2020 nos portos brasileiros, quando comparado ao mesmo período do ano anterior, puxado pelo aumento das exportações de soja e açúcar.

Entretanto, no médio prazo ainda demanda atenção a redução das importações, que acumulam até a primeira semana de agosto uma queda de 11,5%, o que impacta principalmente as empresas que trabalham com foco em contêineres como a Santos Brasil e a TCP.

O congresso aprovou no início de agosto a MP 945, que regulamenta medidas de afastamento temporário de trabalhadores que tenham sido contaminados pela covid-19 e flexibilizando temporariamente a contratação de trabalhadores sem vínculo empregatício com a Ogmo por 120 dias.

Além disso, a MP também modifica a Lei de Greve e inclui as atividades portuárias como serviços essenciais que não podem parar, equiparando a atividades como distribuição de energia elétrica. A MP aguarda ainda a sanção presidencial.

Riscos: No curto prazo, monitorar quais medidas o governo fará para atenuar os efeitos da crise (possíveis medidas: redução ou postergação de taxas de arrendamento, alteração do cronograma de investimentos obrigatórios ou outras formas de reequilíbrio financeiro dos contratos de arrendamento). No médio e longo prazo, acompanhar se há deterioração de crédito e inadimplência dos principais clientes dos terminais.

Mitigantes: Principais empresas têm controladores fortes e/ou estão com baixa alavancagem. Governo anunciou adiamento temporário do pagamento de dívidas do BNDES por seis meses. Todos os portos continuam abertos no Brasil.

Proteína animal

Ao longo dessas últimas semanas, a preocupação sobre o setor continua sendo a mesma – paralisação dos frigoríficos. Acompanhamos diversas notícias sobre frigoríficos de praticamente todos os players sendo fechados devido a surtos de covid-19, ou mesmo, sofrendo embargos comerciais por outros países, como a China.

O problema sanitário sempre será um desafio do setor, mas o fator positivo é que observamos, de maneira geral, uma rápida atuação e contenção por parte dos frigoríficos, reabilitando suas plantas, outrora embargadas, dentro de um intervalo curto de tempo.

Os preços das principais proteínas voltaram a subir depois de algumas quedas, entretanto o câmbio continua favorecendo o setor no que tange a geração de caixa. Mapeamos algum efeito negativo sobre a variação cambial caixa (pagamento de juros e amortização neste exercício), bem como a não caixa, contribuindo para um aumento da dívida bruta dolarizada (quando convertida em reais), o que poderá refletir em uma maior alavancagem dos players mais dolarizados do setor.

Riscos: A maioria das empresas de proteína animal tem grande parte da dívida em dólar, reflexo de considerável parte da receita dolarizada. Este fato, atrelado a uma possível redução de EBITDA, pode impactar em um aumento da alavancagem em reais destas empresas. Além disso, precisamos monitorar o possível surgimento de novas barreiras fitossanitárias ou bloqueios comerciais, que dificultarão a venda de commodities entre países.

Mitigantes: Em 2019, as empresas foram muito beneficiadas pelos impactos da febre suína africana e conseguiram reduzir alavancagem, bem como melhorar o perfil de dívida. Praticamente todas as empresas conseguiram captar dívidas longas (mais de 5 anos) tanto em mercado doméstico, quanto externo. Desta forma, não enxergamos necessidade relevante de rolagem no curto/médio prazo para as principais empresas do setor. Além disso, aquelas que possuem operações fora do Brasil têm menores impactos decorrentes do surgimento de novas barreiras comerciais.

O que fazer agora?

Em primeiro lugar, vale acompanhar as alocações recomendadas pelos nossos especialistas para cada perfil de investidor.

Em relação às possibilidades de investimento na renda fixa, pouco mudou em nossa visão: Continuamos recomendando cautela ao investir.

Tenha sempre em mente o seu perfil de investidor antes de tomar qualquer decisão de investimento.

Reserva de emergência

Esse é o primeiro investimento a ser feito por qualquer investidor. Resumidamente, a ideia da reserva é ser utilizada em caso de imprevistos e, por isso, deve estar aplicada em ativo líquido e seguro. A rentabilidade, para esse propósito, não é o foco. Portanto, não devemos nos apegar às quedas na taxa Selic para decidir o melhor ativo.

O ativo que mais se enquadra para esse objetivo é o Tesouro Selic, que pode ser resgatado a qualquer momento e é muito seguro, por não sofrer com oscilações do mercado e ser emitido pelo Governo Federal. Além disso, recentemente o Tesouro Direto zerou a taxa de custódia para investimentos de até R$ 10 mil neste ativo, tornando-o ainda mais atraente.

Quem já tem

  • Apenas resgate se de fato houver necessidade.

Quem não tem

  • Comece agora.
  • A reserva pode ser feita aos poucos, por isso não precisa esperar ter todo o montante.

Tesouro Direto

Com certa estabilização ou redução na percepção de risco pelo mercado, a curva DI fechou, tornando as taxas do Tesouro Direto mais baixas do que no começo da crise. No entanto, ainda é possível encontrar boas oportunidades, principalmente em prazos mais longos.

Quem já tem

  • O ideal é manter o ativo até seu vencimento, para garantir o retorno contratado no momento da compra.

Quem não tem

  • Tesouro Direto é sempre uma boa opção de ativo seguro e com diferentes prazos e indexadores.
  • Títulos mais longos estão mais descontados, podendo ser bom momento para quem busca aumentar o prazo de sua carteira.

Emissões bancárias

As emissões bancárias (CDBs, LCIs, LCAs, LCs) são boa opção de ativo seguro, por contar com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para investimentos de até R$ 250 mil.

Ou seja, apesar de haver atualmente maior incerteza em relação ao setor bancário, esses ativos oferecem segurança ao investidor que busca rentabilidade mais elevada.

Apesar do fechamento da curva de juros, hoje ainda existem opções de títulos com boas rentabilidades, principalmente em prazos mais longos. Além disso, em um ambiente menos incerto, é possível arriscar mais, aplicando em emissores de risco mais elevado.

Quem já tem

  • Não há motivos para resgate antecipado, caso não haja necessidade.

Quem não tem

  • É um bom momento para aproveitar oportunidades com taxas mais elevadas em prazo mais longo e emissores mais arriscados.
  • Lembrando que tem o mesmo risco da poupança (garantia do FGC), mas rende mais, de forma geral.
  • Procurar não ultrapassar o limite da garantia do FGC para bancos com risco mais elevado.

Crédito privado

Assim como mencionado anteriormente, o cenário com maior visibilidade e menor aversão arrisco levaram à redução nos prêmios de risco em relação ao começo da crise.

No entanto, os prêmios ainda não retornaram totalmente aos níveis pré-crise, sendo possível encontrar oportunidades em debêntures, CRIs e CRAs.

Por fim, diferentemente de alguns meses atrás, hoje a exposição a maior risco é mais encorajada na busca por maiores rentabilidades, o que pode se dar também através de prazos mais longos.

Conforme apontado neste relatório, alguns setores apresentam risco menor do que outros, de forma geral, e há variações de risco dentre emissores de um mesmo setor. Sumarizando:

Risco baixo:

  • Energia elétrica (transmissoras). Mitigante: fluxo de caixa altamente previsível.
  • Saneamento. Mitigante: baixa correlação com a atividade econômica.
  • Ferrovias. Mitigante: boas contrapartes e baixa alavancagem.

Risco médio:

  • Energia elétrica (geradoras e distribuidoras). Mitigante: “conta-covid”
  • Concessões rodoviárias. Mitigante: foco em veículos pesados apresentam risco menor.
  • Operadores portuários. Mitigante: controladores fortes.
  • Frigoríficos. Mitigante: demanda externa e câmbio depreciado.
  • Propriedades comerciais. Mitigante: grandes empresas de shopping centers com boa flexibilidade financeira; empresas de locação de galpões logísticos estão bem posicionadas (aumento de e-commerce).
  • Incorporadoras imobiliárias. Mitigante: empresas que atuem com foco em MCMV.

Risco alto:

  • Açúcar e etanol. Mitigante: alto preço do açúcar em reais, câmbio depreciado, alta no preço da gasolina.

Quem já tem

  • É necessário avaliar o risco do emissor do ativo sempre.

Quem não tem

  • Ainda há ativos de risco baixo com rentabilidades mais elevadas.
  • Busque emissores cujo risco se adeque ao seu perfil de investidor.
  • Hoje é possível diversificar em ativos mais arriscados, dado o cenário menos incerto.

Veja mais

Fontes

Anbima
Broadcast
S&P Global
Fitch Ratings
Moody’s

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