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Zeina Latif: Selo de qualidade

Pelos sinais emitidos pelo Banco Central, está chegando a hora de iniciar uma flexibilização na política monetária. O Copom não precisa esperar a inflação chegar mais perto da meta para dar início ao corte de juros. Fosse um BC sem reputação, talvez fosse necessário aguardar, afinal a inflação está próxima de 9%, acima do teto […]

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Pelos sinais emitidos pelo Banco Central, está chegando a hora de iniciar uma flexibilização na política monetária.

O Copom não precisa esperar a inflação chegar mais perto da meta para dar início ao corte de juros. Fosse um BC sem reputação, talvez fosse necessário aguardar, afinal a inflação está próxima de 9%, acima do teto de 6,5%. Não é o caso. As expectativas inflacionárias dos analistas e as embutidas nos preços de ativos reduziram de forma satisfatória (para 12 meses adiante, estão em 5,16% e 5,87%, respectivamente, ante 6,9% e 9% no início do ano), indicando a confiança no compromisso e na capacidade do BC de entregar inflação na meta.

Quanto à capacidade de entrega, o que se discute não é a qualificação técnica dos membros do Copom, que é inquestionável, mas a possibilidade real de estar em curso uma mudança do regime fiscal que aumente o poder da política monetária. No quadro anterior, havia o temor de uma espiral inflacionária de origem fiscal que o BC não conseguiria evitar. Isso mudou.

Sabemos que a política monetária tem baixa eficácia no Brasil – exigindo taxas de juros elevadas – em função de fatores como a elevada segmentação do mercado de crédito (metade do crédito bancário tem taxas subsidiadas, o que compromete o canal de crédito da política monetária) e a indexação formal e informal ainda presente na economia. Um exemplo desse último ponto é o mercado de trabalho. Mesmo com taxas de desemprego recordes, os salários dos segmentos sindicalizados não recuam em termos reais. Além de ser ruim para a inflação, aumenta o desemprego.

Além disso, a estrutura produtiva fragilizada pelo chamado custo-Brasil significa uma oferta agregada menos flexível, o que torna a economia mais vulnerável a choques inflacionários. Por exemplo, a legislação causa tamanho custo trabalhista na comparação mundial e insegurança jurídica que, diante de um aumento de demanda, o empresário pode preferir elevar seus preços finais a contratar mais mão-de-obra e aumentar a oferta de bens e serviços.

Apesar de todas essas questões, que parecem tornar os cortes de juros sempre arriscados no Brasil, há possivelmente um espaço para isso agora. A taxa real de juros (taxa de juros descontada a expectativa inflacionária) está subindo, em função da queda das expectativas inflacionárias, enquanto o quadro econômico é ainda muito grave: o crédito secou e não há sinais de retomada; a saúde financeira das empresas é preocupante, o que significa risco não desprezível de quebra de empresas; e o desemprego poderá subir bastante, pois muitas empresas ainda estão cortando custos e ajustando o quadro de empregados, principalmente médias e pequenas empresas.

Não estão descartadas novas leituras negativas do PIB trimestral. O ciclo de ajuste do setor real não está completo e há o efeito da política monetária restritiva ainda se materializando, enquanto a economia mundial desacelera, influenciado a dinâmica econômica do país.

Pode até ser que ocorra um aumento marginal do investimento, uma vez que houve queda muito expressiva e algumas empresas buscam compensar a depreciação de suas máquinas e equipamentos. Ciclo de investimento já é outra conversa. Não há espaço para isso.

Se o fundo do poço pode não ser sólido o suficiente, o que dirá a volta do crescimento. O BC esperar um pouco mais para cortar os juros, de forma a acelerar a convergência da inflação à meta, talvez não seja a decisão mais sábia no momento. Seria prudente o BC considerar o todo (equilíbrio geral, no jargão dos economistas), e não apenas a parte que lhe cabe (equilíbrio parcial), pois o primeiro afeta o segundo. Um quadro econômico mais frágil do que o esperado pode significar perda de confiança dos agentes econômicos, um ambiente político difícil e mais destruição de crescimento potencial, com contração da oferta. Com tudo isso, o poder da política monetária de controlar a inflação seria afetado, apesar de todas as boas intenções.

A agenda fiscal não parece um constrangimento ao BC no momento. Passado o impeachment, o governo se volta novamente para a agenda econômica. Procuram aumentar o diálogo com o Congresso e com a sociedade, e parecem mais atentos a eventos que possam atrapalhar a credibilidade do ajuste fiscal. Parecem ter aprendido a lição com os desdobramentos do ajuste do funcionalismo e o acordo frouxo da dívida dos estados. Quem ficou de fora, agora reclama.

Pensando os próximos meses, é possível afirmar que é mais garantida a aprovação de reformas fiscais do que a retomada efetiva da economia.

O início do ciclo de corte de juros, em condições adequadas, poderá ter efeito simbólico importante, além do impacto usual na economia que contribui para a volta cíclica do crescimento. Seria o selo de qualidade do BC para política econômica e de que a agenda fiscal está bem encaminhada. Um BC que aguarda a aprovação de reformas para iniciar a flexibilização monetária pode acabar alimentando o ceticismo dos agentes econômicos. Ora, se nem a autoridade monetária confia no ajuste fiscal, por que os agentes econômicos confiariam.

O movimento do BC poderá ser importante sinal para investidores estrangeiros voltarem a olhar as oportunidades no Brasil, para o mercado de crédito iniciar sua normalização e para empresários repensarem planos de demissão, produção e investimento. Um impulso extra para a volta da confiança, ingrediente essencial para a retomada da atividade econômica.

Claro que isso só é válido porque é um BC com credibilidade. Um BC zeloso de sua missão, mas atento aos sinais da economia.

26 de Setembro de 2016

Fonte: Artigo replicado do Estadão

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