O descasamento entre os índices de inflação e a percepção do consumidor

Entenda porque a inflação não deve ser algo com o que se preocupar nos próximos meses.


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Nas últimas semanas, o aumento dos preços de alguns alimentos tem protagonizado o debate econômico nos principais veículos de comunicação e ampliado a percepção inflacionária do consumidor brasileiro. Por outro lado, de acordo com os dados divulgados pelo IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador utilizado para acompanhar a inflação brasileira, continua apontando para um quadro inflacionário bem-comportado, com medidas de inflação bem abaixo do centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e em patamares historicamente baixos.

Mas se o IPCA segue em níveis tão bem-comportados, por que os alimentos nos supermercados estão cada vez mais caros? Será que a inflação voltará a ser uma das preocupações do consumidor?

A nossa opinião é de que NÃO. A inflação não deve ser algo com o que se preocupar pelos próximos meses e existem inúmeros fatores que nos ajudam a entender o porquê.

Os fatores que interferem na inflação

Assim como outras variáveis macroeconômicas, a inflação brasileira pode ser impactada por dois tipos principais de elementos: 1) os cíclicos, também conhecidos como “choques” ou “movimentos temporários” e 2) os estruturais, que normalmente causam movimentos inflacionários ou desinflacionários mais duradouros.

Normalmente, quando o aumento da inflação é gerado por fatores cíclicos, não há muito com o que se preocupar. Tratam-se, em linhas gerais, de efeitos intensos, mas de curta duração e que logo se dissipam (e os intervalos de tolerância da meta de inflação existem justamente para suportar esses movimentos). O grande desafio está, na verdade, quando o aumento da inflação acontece de forma generalizada e duradoura. Ou seja, quando as causas são estruturais.

Para ilustrar a diferença principal entre esses dois fatores, vamos analisar alguns exemplos:

1) O boom no preço das carnes em 2019

Nos últimos meses de 2019, os preços cobrados pelas carnes nos supermercados chamaram a atenção. Em razão do surto de peste suína africana, que afetou abruptamente a produção de carnes pela China, a demanda internacional por carnes brasileiras cresceu de forma significativa e os efeitos rapidamente começaram a ser apresentados pelos dados de inflação. No decorrer dos meses, entretanto, assim que a produção internacional de carnes começou a se normalizar, os preços cobrados por esses itens aqui no Brasil gradativamente deixaram de pressionar as principais medidas de inflação. E por maior que tivesse sido o choque causado pela peste suína africana, os efeitos logo começaram a se dissipar e, no final de 2019, o IPCA permanecia em patamares historicamente baixos.

2) O boom no preço dos tomates em 2019

Movimento semelhante ao das carnes aconteceu com o preço dos tomates em 2019, que apresentaram expansão significativa em decorrência das chuvas e do plantio menor do que nos anos anteriores. Segundo boletim divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de fevereiro para março do ano passado, o preço do tomate em centrais de abastecimento chegou a aumentar 88,6% em Goiás, maior região produtora do país, atingindo R$/Kg 5,12. Entretanto, por maiores que estivessem sendo os choques, conforme os consumidores foram substituindo o tomate por outros tubérculos, raízes e legumes em sua cesta de consumo, o efeito inflacionário logo começou a se dissipar. E mais uma vez, a pressão inflacionária se mostrou passageira.

Nos dois exemplos citados, o aumento repentino no preço dos alimentos causou espanto nos consumidores e trouxe à tona a sensação de que a inflação poderia voltar a ser a principal inimiga. Mas, em ambas as situações, os mesmos choques iniciais que causaram o “boom” nos preços das carnes (peste suína africana) e dos tomates (chuvas) acabaram se mostrando passageiros. Semelhante ao que tem acontecido atualmente, as principais medidas inflacionárias permaneciam bem-comportadas e os efeitos trazidos pelos choques logo se dissiparam no decorrer dos meses.

O quadro inflacionário atual e o choque nos preços dos alimentos

Como comentamos recentemente, diante do i) processo de flexibilização das medidas de isolamento social, ii) da retomada gradual das atividades econômicas, iii) dos estímulos atualmente vigentes na economia (ex.: auxílio emergencial), iv) da taxa de câmbio ainda bastante apreciada (ou seja, real bastante desvalorizado) e v) do aumento da demanda chinesa por commodities brasileiras, a economia nacional vem sendo alvo de choques inflacionários apresentados principalmente por alguns alimentos consumidos no domicílio, materiais siderúrgicos e minério de ferro.

Esses três principais elementos, que conjuntamente explicam grande parte do recente descolamento entre o IGP¹ e o IPCA (uma vez que os preços repassados aos consumidores acontecem de forma mais defasada do que no caso dos preços dos produtores, levados em consideração pelo cálculo do IGP), têm passado a sensação aos consumidores de que a inflação brasileira está “saindo dos trilhos” novamente. Afinal, aumentos tão repentinos de preços como os que têm acontecido com o arroz e com o leite longa vida passam essa mensagem equivocada de que, se os alimentos estão mais caros, tudo provavelmente também está.

¹ IGP reflete mais o preço no atacado: 60% do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), 30% do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e 10% do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC).

Entretanto, assim como no episódio de boom nos preços das carnes em decorrência da peste suína e do aumento dos preços do tomate em decorrência do excesso de chuvas, o recente aumento nos preços dos alimentos consumidos no domicílio, assim como nos preços de produtos siderúrgicos e do minério de ferro são fatores passageiros que, por mais intensos que possam parecer, não geram tanto impacto na inflação de médio ou longo prazo, pois nem sempre o aumento de preços do produtor é repassado na mesma velocidade ao consumidor final (o que os economistas chamam de pass-through).

Adicionalmente, como a taxa de desemprego encontra-se em patamares recordes, a demanda agregada da população brasileira acaba não conseguindo absorver em sua totalidade os choques de preços do atacado. Ou seja, a inflação acaba tendo ainda mais “dificuldade” de refletir, no médio ou longo prazo, esse aumento temporário causado por alguns choques.

Prova disso é o fato de todos os núcleos de inflação (medidas que excluem da contabilização os itens com as maiores volatilidades nos preços) ainda se encontrarem em patamares historicamente baixos e bem-comportados (especialmente considerando nossa meta de inflação de 4% para esse ano), devido à elevada ociosidade da economia brasileira.

Mais uma prova de que o aumento recente da inflação tem sido causado por um choque temporário é o fato de ainda existirem uma série de alimentos que continuam em ritmo de descompressão, como a cenoura e a cebola.

O próprio Banco Central, no comunicado divulgado logo após a sua última decisão de política monetária (16/09), enfatizou que “a inflação deve se elevar no curto prazo” em decorrência da “alta temporária nos preços dos alimentos e a normalização parcial do preço de alguns serviços em um contexto de recuperação dos índices de mobilidade e do nível de atividade”, mas que “as diversas medidas de inflação subjacente (leia-se: ociosidade) permanecem abaixo dos níveis compatíveis com o cumprimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a política monetária”. Em outras palavras, o próprio Banco Central reforçou a mensagem de que a inflação pode até ser elevada no curto prazo pelos preços dos alimentos e de alguns serviços, mas fez questão de enfatizar que essa tendência é temporária e que, diante de um cenário de menor repasse ao consumidor final, o quadro inflacionário continua benigno.

Conclusão: Apesar dos choques, inflação deve seguir bem-comportada em meio à ociosidade

O nosso entendimento, portanto, é de que os choques recentes que têm causado elevações nos preços de alimentos, produtos siderúrgicos e minério de ferro são passageiros e não devem alterar a perspectiva de um quadro inflacionário ainda bem-comportado adiante. Mesmo com essa alta de alguns produtos importantes do dia a dia do consumidor, a inflação desse ano deve ficar próxima a 2,0%, um dos menores níveis da história (nossa projeção atual é de 1,7%). E para o ano que vem, os modelos de inflação baseados na função produção da economia brasileira e na taxa neutra de desemprego mostram que existe uma razoável assimetria para baixo na nossa atual projeção de 2,6%, em linha com o quadro geral de ociosidade² que ainda permanecerá elevada em 2021.

²Dizer que a ociosidade permanecerá elevada significa dizer que a diferença entre a capacidade instalada na economia e seu efetivo volume de produção industrial continuará elevada. Ou seja, ao longo de 2021, a indústria brasileira deve continuar produzindo menos do que a sua capacidade, o que pode continuar resultando em uma inflação abaixo do esperado.

Em suma, mesmo com os diversos choques que têm elevado as projeções de IPCA no curto prazo, os núcleos seguem bem-comportados, corroborando o nosso cenário de estabilidade da taxa Selic em 2,00% até, pelo menos, o segundo semestre de 2021. Apesar de o cenário depender bastante do andamento da agenda fiscal, ainda existe bastante espaço para a manutenção da política monetária estimulativa por bastante tempo, porque a inflação deverá seguir abaixo das metas até 2022. Nosso cenário base prevê que a Selic deverá apresentar altas graduais até atingir o nível de 3,00% a.a. ao final de 2021.

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