Os eventos da Petrobras afetam a sua renda fixa – mesmo que você não invista na empresa

Acontecimentos na esfera político-econômicos têm efeito sobre os ativos de renda fixa. O motivo principal é a curva de juros. Entenda.


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No dia 19 de fevereiro, já no fim do dia, o presidente Jair Bolsonaro decidiu pela indicação de um novo presidente para a Petrobras, após a empresa anunciar reajuste nos preços da gasolina e do diesel, em linha com a política praticada pela petroleira nos últimos anos. A decisão precisa ainda ser ratificada pelo Conselho de Administração, mas, com isso, sai o Sr. Roberto Castello Branco, que seria então substituído pelo General Joaquim de Silva e Luna, atualmente diretor-geral da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

A decisão do governo causou grande ruído no mercado, mesmo tendo sido feita após o fechamento dos negócios da última semana, uma vez que levanta receios de interferência do governo sobre o comando de estatais e traz riscos de que movimentos como este se repitam. Tal receio foi intensificado com fala posterior do presidente da República, em discurso realizado no sábado, ao insinuar que decisões semelhantes estariam por vir, citando o setor elétrico especificamente.

Evidentemente, todo o ocorrido tem efeito direto sobre a Petrobras, refletido no rebaixamento das ações da companhia realizado pelo analista de Energia e Petróleo da XP Investimentos, Gabriel Fonseca. A decisão leva em consideração queda do preço-alvo de R$ 32/ação para R$ 24/ação, tendo como racional: riscos para a independência de gestão da Petrobras e riscos de que a companhia deixe de praticar uma política de preços de combustíveis em linha com referências internacionais de preços, ou seja, que reflitam as variações dos preços de petróleo e câmbio.

No entanto, além dos impactos negativos para a própria empresa, existe outro impacto relevante que pode ser citado e que tem reflexos diretos sobre os investimentos em renda fixa (mesmo para quem não investe na Petrobras): a curva de juros.

A curva de juros, a política e seus investimentos

Este importantíssimo instrumento, porém ainda não muito conhecido por todos os investidores de renda fixa, traz muitas respostas para quem busca entender o mercado.

Seu “verdadeiro” nome é estrutura a termo de taxas de juros (ETTJ) e é a curva formada pela expectativa dos juros de um mesmo emissor para diferentes prazos. No caso da curva DI, o emissor seria o governo federal (Tesouro Nacional) e a curva seria referente às taxas prefixadas.

As expectativas do mercado para as taxas de juros no futuro são reflexos do risco que o mercado enxerga em relação ao cenário econômico do país nos próximos anos. Pode-se dizer que as taxas de prazos mais curtos sinalizam expectativas ligadas à política monetária e que as de longo prazo estão conectadas ao risco fiscal.

Não por acaso, essa parte mais longa da curva “empinou”, como se diz, no último ano. Ou seja, o risco fiscal demonstrou ser muito relevante dado o cenário desenhado pela covid-19 e a alta necessidade de gastos do governo para segurar a economia durante o período.

Mas o que isso tem a ver com a questão da Petrobras? Vamos lá.

O governo afirmou que, apesar da troca de comando, não haverá mudanças na política de preços da empresa e que a disciplina fiscal do país segue sendo prioridade. No entanto, buscando na história recente, chegamos ao ano de 2013, quando houve intervenção do governo sobre os preços da energia elétrica, que foram reduzidos em 18% após decreto. Os efeitos da decisão foram devastadores para a economia:

Segundo relatório do time Macro da XP Investimentos, o câmbio depreciou 20% nos trimestres seguintes à medida e o risco-país, medido pelo CDS de 5 anos, dobrou. As taxas de juros, que eram de 7,25%, tiveram de ser elevadas para conter a inflação, chegando a 11% um ano depois.

Fazendo um paralelo com os dias de hoje, caso uma interferência na política de preços da Petrobras venha a se concretizar, o câmbio elevaria, puxando consigo a inflação, o que levaria o Banco Central a ter de elevar a Selic além do esperado atualmente.

Seus investimentos respondem à curva de juros

O mercado não precisa esperar o cenário se concretizar para que os preços dos ativos o reflitam: utiliza-se a curva de juros. Como hoje o risco é de que haja necessidade de elevação adicional de juros em relação ao cenário-base, as expectativas para os juros no futuro sobem.

O resultado, tendo em vista que o cenário de curto prazo se mantenha ou se eleve pouco, é de maior inclinação da curva: as taxas esperadas para o longo prazo seriam ainda maiores agora do que anteriormente. E é isso o que já estamos vendo na abertura do mercado do dia 22 de fevereiro:

Isso tudo tem efeito direto sobre os ativos de renda fixa. Mas o tipo de efeito depende do tipo de remuneração do ativo.

Pós-fixados

São os títulos que acompanham a taxa Selic, ou o CDI, e são representados como um percentual desses indicadores (i.e. %CDI). Por esse motivo, quando a expectativa de juros para o futuro sobe, a remuneração esperada para esses investimentos se eleva também.

Por exemplo: o investidor ou a investidora possui um ativo que rende 120% do CDI, com prazo de 5 anos. Utilizando como base o DI janeiro/2026 no fechamento do dia 19/02, de 7,05%, o ativo renderia 8,46% ao ano. Caso o DI janeiro/2026 subisse para 7,50% (percentual hipotético), esse rendimento subiria para 9% ao ano.

Sendo assim, em cenários de elevação esperada para os juros no futuro, estes ativos são boas alternativas para composição de carteira.

Prefixados e indexados ao IPCA

Os prefixados são os ativos que rendem um percentual fixo, conhecido desde o começo da aplicação, e que não irá variar de acordo com nenhum índice. Ou seja, se uma pessoa escolhe um ativo prefixado que paga 5% ao ano, ao final da aplicação o rendimento será correspondente a 5% ao ano, pelo período contratado.

Já os ativos indexados ao IPCA pagam a variação anual da inflação mais um percentual prefixado. Com isso, este tipo de remuneração protege o investimento contra os efeitos da inflação no tempo.

O principal ponto aqui para o que estamos apresentando é: caso o investidor ou a investidora decida resgatar seu investimento antes da data de vencimento do ativo, ficará sujeito(a) às condições do mercado naquele momento. Tomando como base o cenário que esperamos para este começo de semana, de provável abertura da curva de juros, o resultado seria de desvalorização dos títulos prefixados e indexados à inflação. O mecanismo que causa este efeito é a marcação a mercado.

Ou seja, o preço do título apresenta relação inversa com sua taxa: se a taxa sobe, o preço cai e vice-versa. A taxa é reflexo direto das expectativas do mercado para os juros no futuro. Para exemplificar, segue gráfico do histórico de taxa e preço unitário da LTN 2026 (Tesouro Prefixado 2026) e da NTN-B Principal 2026 (Tesouro IPCA+ 2026):

O que fazer diante deste cenário?

Em primeiro lugar, tudo depende do seu perfil de investidor(a) e de seus objetivos. E como sempre, quando se trata de investimentos é preciso ter calma e focar no longo prazo. Não é possível dar uma resposta que sirva a todos. No entanto, é possível fornecer informações que ajudem na tomada de decisão.

O movimento de abertura na curva de juros cria oportunidade para investimentos em ativos prefixados ou indexados à inflação de prazo mais longo, que se desvalorizam nesses momentos. Deve-se sempre ter atenção ao risco do emissor e entender se a elevação na percepção de risco por parte do mercado traz alguma mudança sobre seus fundamentos. Para reduzir riscos, vale focar em títulos com risco soberano (o menor risco de crédito do país, apesar dos acontecimentos recentes) e empresas de boa qualidade de crédito (ou seja, com rating elevado, fundamentos sólidos e boas perspectivas de longo prazo).

É importante ter em mente, para quem já possui ativos de renda fixa, que variações nos preços antes da data de vencimento são comuns, mas não significam perda do valor investido. Neste cenário de desvalorização, a perda apenas ocorreria no caso de resgate antecipado do investimento.

Vale notar que não há certeza sobre a trajetória da curva de juros. Conforme relatório de Macro, parece cedo para cravar se os eventos ligados à Petrobras são pontuais, com efeitos restritos ao setor, ou uma indicação de tendência de mudança na gestão de política econômica. Sendo pontuais, a curva poderia retornar aos patamares anteriores uma vez que os receios fossem esclarecidos e afastados. Por outro lado, caso demonstrem ser estruturais, pode haver abertura contínua da curva de juros, estendendo o efeito mencionado sobre os títulos de renda fixa.

Esperamos que, ainda que este cenário de mudança estrutural tenha ganhado probabilidade, ainda não parece o mais provável. Continuaremos monitorando os acontecimentos para avaliar o melhor curso a tomar.

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