Evolução do mercado de crédito no Brasil – saldo, inadimplência e provisões

Com o uso das informações dos balanços dos principais bancos privados brasileiros e dados do Banco Central, trazemos uma atualização do mercado de crédito no país.


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  • Em meio à pandemia da covid-19, Governo Federal e Banco Central lançaram medidas buscando manter a atividade econômica e, consequentemente, a concessão de crédito pelos bancos, além de tentar evitar elevação na inadimplência.
  • O SFN é fortemente concentrado em cinco bancos. Por este motivo, seus balanços costumam indicar o que esperar para o sistema financeiro como um todo e a provisão é um bom preditivo de inadimplência.
  • Apesar da crise, a inadimplência não se elevou – muito pelo contrário, indicando que as medidas tomadas pelo Governo e pelo BC foram bem sucedidas.
  • A inadimplência de grandes e médias empresas continua controlada e em baixos níveis históricos. Para micro e pequenas empresas, já é possível observar uma tendência de retomada nos indicadores de atraso, mas a provisão realizada em 2020 deve ser suficiente pra absorver.
  • Um ponto relevante de atenção é em relação ao alto patamar de comprometimento de renda das famílias, assim como o aumento do nível de endividamento.
  • Continuamos em ambiente de alta incerteza e dependendo de mudanças no risco fiscal do Brasil, novas ondas de contaminação, ritmo de vacinação e de alta de juros, esses cenários podem ser modificados de maneira relevante.

Já passa de um ano que vivemos em meio à pandemia e seus efeitos, tanto sobre a saúde quanto sobre a economia do país. Em 2020, foram diversas as medidas tomadas pelo Governo Federal e pelo Banco Central para mitigarem os potenciais impactos negativos das restrições sobre as empresas e, consequentemente, a população. A Selic, taxa básica de juros, saiu de 4,5% no começo do ano passado para 2% em dezembro, um dos exemplos de medidas para estimular a atividade.

Os resultados foram positivos e têm ecoado até hoje, com baixa inadimplência e crescimento na carteira de crédito dos bancos. Mas é importante acompanhar até onde estes estímulos conseguem segurar a qualidade de crédito dos bancos, uma vez que vem sendo gradualmente retirados ou deixando de surtir efeitos.

Passaremos a divulgar trimestralmente o acompanhamento os dados do Sistema Financeiro Nacional (SFN) relacionado a crédito e inadimplência, em conjunto com análises dos balanços dos grandes bancos relacionadas a crédito, inadimplência e PDD (Provisão para Devedores Duvidosos).

PDD e Inadimplência do SFN

O sistema financeiro brasileiro é bastante concentrado, com os cinco maiores bancos correspondendo por mais de 70% do crédito concedido. Historicamente, observamos que os bancos privados costumam efetuar uma provisão prospectiva, baseadas em modelos estatísticos e análises históricas do comportamento dos clientes e na estrutura das operações de crédito.

É possível ver esse comportamento no gráfico abaixo, onde o pico de provisão / carteira na crise passada ocorreu no início de 2017 para os bancos privados, sendo que para os bancos públicos ocorreu quase 2 anos depois. Para o período atual, temos uma importante informação ao analisar esse mesmo gráfico, pois em 2020 os bancos privados efetuaram uma provisão considerável, muito em função da expectativa de aumento de perdas devido à pandemia.

Entretanto, uma dúvida que pode surgir é se tivemos de fato essa inadimplência projetada pelos bancos privados. Nos gráficos a seguir, temos o histórico do SFN para atrasos de 15 a 90 dias, que são mais voláteis, mas importante preditivo, além do atraso acima de 90 dias.

Observamos que o atraso e inadimplência estão em patamares mínimos históricos, o que pode parecer contra intuitivo. Entretanto, vale lembrar das medidas emergenciais que foram adotadas pelo Governo e Banco Central. Destaque para a repactuação das parcelas, além do auxílio emergencial e linhas de crédito para pequenas e médias empresas.

PDD e Inadimplência dos grandes bancos

Dada essa concentração e pelo fato de os bancos privados serem bons preditores, iremos analisar alguns indicadores publicados nos relatórios do Itaú, Bradesco e Santander, além de incluir o Banco do Brasil, dada a grande representatividade no mercado.

Em linha com o apresentado anteriormente, é possível observar um aumento de provisão dos grandes bancos privados relativos à carteira em 2020. Para 2021, a expectativa é de redução desta medida, retornando a patamares próximos a 2018 e 2019.  Através do guidance para 2021 e com os dados já divulgados do 1º trimestre de 2021, podemos reforçar essa questão.

Da mesma forma que observamos uma baixa inadimplência no sistema financeiro, podemos notar esse mesmo comportamento nos grandes bancos.

Vale salientar que cada banco fornece uma abertura diferente em relação à inadimplência. No caso do Itaú e Bradesco, seus relatórios divulgam a abertura de inadimplência de pequenas e médias empresas, e podemos observar aumento no índice, o que é um ponto de atenção.

Evolução do crédito e inadimplência PJ

O saldo de crédito para pessoa jurídica (PJ) evoluiu de forma considerável ao longo de 2020 e 2021. Apesar dos programas governamentais para pequenas e médias empresas, o destaque de evolução do saldo foi por conta do capital de giro cedido para as maiores empresas, como podemos visualizar nos gráficos abaixo.

Em 2020 foi observado um incremento acima de 25% no saldo de crédito PJ, representando R$ 325 bilhões. Desse incremento, o capital de giro contribuiu com R$ 270 bilhões, sendo R$ 200 bilhões originados para grandes e médias empresas.

A inadimplência de grandes e médias empresas continua controlada e em baixos níveis históricos. Para micro e pequenas empresas, apesar do nível de inadimplência estar baixo historicamente, já é possível observar uma tendência de retomada nos indicadores de atraso nesses segmentos.

Evolução do crédito e inadimplência PF e endividamento das famílias

O saldo de crédito para pessoa física evoluiu com menor intensidade em 2020, com destaque positivo para crédito imobiliário e consignado. Como contribuição negativa nessa evolução temos linhas relacionadas ao consumo, como cartão de crédito e linhas rotativas. O auxílio emergencial contribuiu de maneira decisiva para não termos uma situação de queda de crédito, além de ajudar a manter a atividade econômica e a inadimplência mais controlada.

Um ponto relevante de atenção é em relação ao alto patamar de comprometimento de renda das famílias, assim como o aumento do nível de endividamento. Ambos indicadores estão em alto patamar e com trajetória crescente, muito em função da queda da renda como um todo.

Status das repactuações de crédito

A repactuação teve uma grande aderência ao longo de 2020 no sistema financeiro brasileiro, com cerca de um terço do estoque de crédito do sistema financeiro tendo algum tipo de repactuação. A expectativa de as operações de crédito repactuadas gerarem perdas relevantes para o SFN se reduziu, como podemos ver no gráfico 18, onde mais da metade dessas operações estão em dia e por volta de 5% com atraso acima de 30 dias.

Essa carteira precisa ser acompanhada porque dependendo do andamento da vacinação e eventuais novos avanços da doença, pode se tornar mais vulnerável num cenário adverso de retomada da economia.

Conclusões

O SFN está bem capitalizado e com boa liquidez para o enfrentamento da crise. O próprio Banco Central divulgou no relatório de estabilidade financeira, em abril de 2021, que existe uma baixa probabilidade de risco sistêmico e os saldos repactuados têm sido pagos aos bancos.

As provisões realizadas pelos grandes bancos ao longo de 2020 devem ser suficientes para acomodar um aumento de inadimplência, que deve acontecer nos próximos meses.

As grandes empresas, no geral, não foram afetadas como na crise anterior, de 2015 a 2017.

As pequenas e médias empresas merecem acompanhamento, pois apesar de terem o passivo alongado devido a programas governamentais (Ex. PRONAMPE e FGI), têm demonstrado sinais de aumento de inadimplência, pois são mais vulneráveis num cenário de fechamento da economia.

As pessoas físicas também merecem atenção especial, pois estão em patamar recorde de comprometimento de renda e endividamento, e ambas as curvas apresentam ainda tendência de piora, principalmente devido à queda de renda.

Vale lembrar que estamos ainda em ambiente de alta incerteza e dependendo de mudanças no risco fiscal do Brasil, novas ondas de contaminação, ritmo de vacinação e de alta de juros, esses cenários podem ser modificados de maneira relevante.

Fonte

Banco Central
Itaú
Santander
Bradesco
Banco do Brasil

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