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O xadrez dos gestores: estratégia e posicionamento em jogo

Na Expert 2026, uma conversa sobre geopolítica influenciando tomadas de decisão em investimentos

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Por cerca de 25 anos, a geopolítica foi o componente menos relevante na tomada de decisão de investimentos. Essa era acabou. Foi com essa constatação que Bruno Cordeiro, gestor do fundo K10 da Kapitalo, abriu o painel “O xadrez dos gestores: estratégia e posicionamento em jogo” na Expert XP 2026, ao lado de Ruy Alves, sócio e co-gestor dos fundos multimercados da Kinea Investimentos, e de João Landau, CIO e sócio-fundador da Vista Capital, sob moderação de Gustavo Pires, sócio-diretor executivo da XP.

Para Cordeiro, Donald Trump decidiu realinhar forças que, na leitura americana, estavam erradas, e as tarifas foram o principal instrumento dessa agenda, ainda que tenham se provado ineficazes. No Oriente Médio, a tentativa de reestruturar a relação com o Irã, guerra na qual, segundo ele, os Estados Unidos entraram com informações incompletas, deixou o Estreito de Ormuz sob ameaça. No conflito com a Rússia, a Ucrânia vem ganhando espaço, com prejuízo ao escoamento de grãos. O momento é de pico de tensão, avaliou, mas ele acredita que um acordo de paz entre americanos e iranianos deve sair nas próximas semanas.

Questionado sobre como essa geopolítica confusa se traduz em preços de ativos, Cordeiro apontou a demanda por diversificação como a consequência mais visível. O ouro foi o grande destaque dos últimos trimestres, mesmo com juros reais em alta nos Estados Unidos, embora hoje perca espaço para a demanda por capitalização ligada à inteligência artificial, que ofusca o metal.

Landau ampliou o quadro: o mundo mudou, a democracia liberal falhou, algo visível na Europa e no Reino Unido, e Trump surge como reação a essa realidade e ao avanço das autocracias, em uma nova ordem que busca garantir suprimentos e independência, de petróleo a terras raras. Na avaliação dele, porém, o presidente americano não tem conseguido alterar a dinâmica global a favor dos Estados Unidos, e o que se vê é um período de transição e realocação das cadeias globais cujo desfecho ainda é desconhecido. Alves discordou do enquadramento dominante: não compra a tese de uma segunda guerra fria, com China e Rússia no papel de problema central. Os Estados Unidos seguem sendo a principal potência, tecnológica, energética, agrícola e de alianças, e a questão está na política interna. O país que coordenava a geopolítica global e costurava alianças vive hoje uma polarização que trava essa coordenação, com um Executivo desproporcional. Quanto maior o Executivo, maior o risco de erro de política, resumiu.

O segundo bloco foi puxado por Pires a partir da carta da Kinea que trata do capex de inteligência artificial pelo lado técnico, com a pergunta sobre quem ganha e quem perde em uma cadeia tão ampla. Para Alves, a IA é um grande truque de mágica: no fim de 2027, o mundo terá nove vezes mais capacidade de computação do que teria sem ela. O princípio, lembrou, é álgebra linear, criada pelo Google em 2017, e todos os modelos seguem a mesma lógica, na qual o que os torna mais inteligentes é processamento. O gargalo, portanto, está nos semicondutores, já que não se consegue ofertar chips na mesma velocidade da demanda. Como o modelo é fácil de copiar, e os chineses replicam os americanos por uma fração do custo usando os próprios modelos americanos para treinar, o modelo vira commodity e todos estarão sempre a um passo dos demais.

A incerteza sobre o retorno é grande e haverá vencedores e perdedores, o que torna pouco recomendável concentrar patrimônio em modelos. O elo que ele prefere é justamente o do gargalo: equipamentos para semicondutores e os fabricantes de chips, com menções a TSMC e Micron.

No terceiro bloco, Pires levou o debate ao cenário eleitoral brasileiro, ao fiscal debilitado e aos juros altos. Landau foi o mais duro: o país está próximo de um ponto sem volta, o que configura um problema grave, e precisa de um grande ajuste. Trata-se do fim de um ciclo iniciado na pandemia, com forte elevação de despesas e um modelo que se esgotou; com famílias, empresas e governo endividados, não existe mais espaço para ajuste pequeno.

Na eleição, ele vê disputa apertada: as pesquisas apontam empate no primeiro e no segundo turnos, considerando a abstenção da esquerda, e, do outro lado, Flávio Bolsonaro enfrenta problemas, de modo que não há vantagem clara para nenhum dos lados. Cordeiro chamou atenção para a abertura das taxas de juros no mundo, exacerbada pelo alto capex de IA, o que eleva a barra para o Brasil, onde o mercado de renda fixa está estressado e ficou nervoso com o preço do petróleo. O cenário majoritário no mercado, segundo ele, é o de reeleição de Lula, com probabilidade alta de recessão contratada a partir do ano que vem. Ainda assim, vê bom valor na renda fixa, apoiado na expectativa de queda da atividade e de inflação comportada em 2027.

Alves fechou o diagnóstico situando o problema em um processo que começou em 2015 e foi agravado pela intervenção fiscal da pandemia, e que chega a uma dívida de 80% do PIB que qualquer governo eleito terá de enfrentar já no ano que vem. Para ele, o problema brasileiro não é macroeconômico, mas um conjunto de políticas microeconômicas equivocadas acumuladas ao longo de 40 anos, algo sobre o qual é possível conscientizar a sociedade. Daí a responsabilidade do mercado financeiro em alertar, apoiar candidatos e promover propostas, independentemente de quem vença.

A conclusão de alocação foi convergente. Com a Selic caindo por bem ou por mal, Alves prefere ativos reais e, na renda fixa, papéis IPCA+, com o CDI mal posicionado como proteção de patrimônio. Landau chegou ao mesmo destino por outro caminho: o Tesouro sinaliza dominância fiscal e a necessidade de que o juro caia, o que o leva a bolsa e a stockpicking de ativos reais como proteção contra o próximo calote inflacionário. Considerando os dois cenários opostos de política fiscal no próximo mandato, o CDI lhe parece o pior investimento do momento.

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