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Cenário pré-eleitoral: tendências, comportamento do eleitor e perspectivas para 2026

Na Expert XP 2026, especialistas analisam as tendências para a corrida presidencial de 2026 e o papel do eleitorado indeciso na definição do resultado

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Uma eleição polarizada nas pontas, mas decidida por um eleitorado desengajado e sem candidato. Foi essa a leitura convergente do painel “Cenário pré-eleitoral: tendências, comportamento do eleitor e perspectivas para 2026“, na Expert XP 2026, que reuniu Felipe Nunes, CEO da Quaest, Cila Schulman, diretora-executiva do Instituto Ideia, e Antonio Lavareda, presidente do conselho científico do Ipespe, sob moderação de Victor Scalet e Barbara Baião, da XP.

Grau de polarização da disputa

Provocado por Baião sobre o grau de polarização da disputa, Nunes organizou a discussão em quatro modelos de análise do comportamento do eleitor. O mais fundamental deles é a aprovação do governo: até o início do ano, a probabilidade de reeleição de Lula rodava em torno de 38%, e a virada veio com a entrega de políticas de efeito mais direto, como o Desenrola, a mudança no Imposto de Renda e o avanço da pauta do fim da escala 6×1. A aprovação hoje está perto de 60%, um resultado forte, ressalvou Nunes, mas não atípico: o histórico latino-americano mostra que presidentes costumam construir esse tipo de vantagem.

Nos outros três modelos, o quadro é mais ambíguo. No voto econômico, Nunes apontou a dificuldade de Lula em fazer o eleitor perceber os resultados macroeconômicos positivos, e destacou o Desenrola como o programa que mais mexeu com a percepção dos independentes, num país em que o endividamento virou tema central. No modelo das preocupações eleitorais, o cenário segue desfavorável ao governo: violência e corrupção estão no topo da lista, e a segurança pública, que historicamente pesa pouco em eleição presidencial, ganhou peso incomum neste ciclo. Já o modelo de calcificação descreve o impasse: empate em torno de 35% para cada lado no confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, com a decisão nas mãos de um eleitor independente que rejeita os dois e tem dificuldade de escolher. Para Nunes, esse eleitor pende hoje ligeiramente para Lula, o que sustenta um favoritismo momentâneo, ainda que estreito.

Quadro dos candidatos

Schulman levou ao painel uma hipótese que, segundo ela, o mercado precisa considerar mesmo sendo polêmica: a de uma vitória de Lula ainda no primeiro turno. O argumento tem duas pernas. Lula é o único nome à esquerda, sem divisão de voto, e o eleitor que saiu de Flávio Bolsonaro migrou para indeciso, branco e nulo, o que reduz a base de votos válidos e amplia o percentual do líder. Ainda assim, ela fez questão de dizer que a situação de Lula não é confortável: o noticiário sugere favoritismo, mas mais brasileiros acham que ele não merece um novo mandato, e o antipetismo segue forte o bastante para se transferir ao adversário diante do receio de uma vitória petista.

Do outro lado, Flávio não derreteu, apesar das crises, e segue bem posicionado em segundo lugar, enquanto os demais nomes da direita são pouco conhecidos (Renan Santos, avaliou, pode fazer barulho, mas com campanha nichada). O desgaste entre Flávio e Michelle Bolsonaro criou um problema com o eleitorado feminino, sem que esse voto tenha ido para Lula. A conta final, para Schulman, é uma campanha decidida por 3% a 4% do eleitorado, grupo em que 69% são mulheres, desencantadas com Lula e com o bolsonarismo, e com quem o presidente tem conseguido conversar sem ainda ter conquistado. Sobre a chance de decisão em turno único, Lavareda ponderou que Lula já bateu na trave duas vezes, em 2006 e em 2022.

Obstáculo de reconhecimento

Lavareda deslocou a discussão para a dimensão política: a questão de fundo, disse, não é apenas se 2026 será a continuidade de um quarto mandato de Lula ou a inauguração de um segundo ciclo Bolsonaro, agora com Flávio. Além disso, abre-se uma janela para a direita liberal, ou mais tradicional, e de centro retomar as rédeas de um destino político que o bolsonarismo assumiu a partir de 2018. Ele lembrou que a direita brasileira já vinha crescendo na base da sociedade desde 2012, com expressão eleitoral clara em 2014 e papel decisivo no impeachment, o que torna essa retomada plausível, ainda que incerta.

O obstáculo é de reconhecimento: em pesquisas top of mind, 75% dos eleitores mencionam Lula e 69% Flávio Bolsonaro, enquanto Ronaldo Caiado, o terceiro colocado, aparece com 30%. Quem não está na cabeça do eleitor não está de fato competindo, resumiu, e as campanhas brasileiras são curtas, de 45 dias. Para monitorar uma eventual troca de protagonismo na direita, ele indicou três termômetros: a performance de Flávio nos cenários de segundo turno, o comportamento da elite política e empresarial, e do mercado, ao endossar outro nome, e o grau de conhecimento das campanhas pelo eleitorado. Um novo nome só atrai o eleitor de Flávio se demonstrar mais força contra Lula no segundo turno. Sua estimativa é que os primeiros sinais nesse sentido apareçam ao fim de agosto.

Abstenção e debates

Provocados por Victor Scalet sobre o que pode mover a agulha de um eleitor desengajado, os três convergiram para dois fatores: abstenção e debates. Nunes observou que a apatia política é pouco estudada no Brasil e que a abstenção, em alta, tende a penalizar mais o campo de Lula, cujo eleitor tem menor propensão a comparecer; lembrou ainda que a vantagem do presidente já chegou a 20 pontos em momento equivalente de ciclos anteriores, bem acima da atual.

Lavareda recorreu à escola de Columbia para lembrar que o lado com eleitores mais entusiasmados tende a vencer, mas ponderou que, se a campanha de Flávio seguir com problemas de imagem, não é impossível que a abstenção cresça também à direita, movimento que não ocorreu em 2018 nem em 2022.

Schulman lembrou que foi a abstenção que levou a eleição de 2022 ao segundo turno e apontou o custo de vida, a questão de affordability, como a pauta econômica capaz de engajar aquela fatia decisiva de 3% a 4%, numa disputa que descreveu como uma guerra de rejeições em que os candidatos ainda terão espaço para vender propostas.

Sobre os debates, o consenso foi de que serão determinantes: com o eleitorado desmobilizado e nomes experientes como Caiado em cena, a performance pode produzir surpresas e ajudar o eleitor de direita órfão a escolher. E, como resumiu Nunes, a oscilação de Flávio não se converteu em ganho para Lula: esse voto está em compasso de espera e deve voltar a Flávio, migrar para outro nome da direita ou virar abstenção.

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