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O investidor brasileiro e a nova fronteira global de alocação

Na Expert XP 2026, uma conversa sobre a construção de portfólios globais em um mundo de transformações

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O painel reuniu Artur Wichmann, CIO na XP Inc., Marina Valentini, estrategista de mercados globais no JPMorgan Asset, Leon Goldberg, sócio de alocação, produtos e soluções de investimentos da XP, e Marcelo Coscarelli, head de International Private Wealth Management da XP.

O custo da concentração excessiva no mercado local

Goldberg, que moderou a conversa, abriu o debate destacando que aproximadamente 97,5% dos investimentos dos brasileiros permanecem concentrados no país, embora o Brasil represente apenas cerca de 0,5% do mercado global de ações.

Valentini afirmou que essa concentração impede o investidor de acessar alguns dos melhores mercados e oportunidades do mundo. O mercado norte-americano, além de mais líquido, é significativamente maior que o brasileiro tanto em renda fixa quanto em ações. O índice global ACWI, por exemplo, reúne aproximadamente 2.500 empresas, das quais menos de 50 são brasileiras.

Ela também destacou a maior capacidade dos mercados globais de incorporar novas tendências. Nos Estados Unidos, as maiores companhias atuais são bastante diferentes das líderes de 20 anos atrás, refletindo a ascensão da tecnologia, dos semicondutores e da inteligência artificial. No Brasil, em contraste, as maiores empresas permanecem praticamente as mesmas e não acompanharam o crescimento da capitalização do mercado global.

Wichmann acrescentou que uma carteira concentrada no Brasil tende a ser menos eficiente. Segundo ele, a inclusão de investimentos internacionais reduz a correlação entre os ativos, diminui o risco e eleva o retorno esperado, melhorando de forma relevante o índice de Sharpe.

Para o gestor, parte dessa diferença decorre da capacidade do capitalismo norte-americano de reciclar capital e substituir empresas pouco eficientes por negócios mais produtivos e inovadores. Esse processo de destruição criativa permite que novas companhias ocupem o espaço das empresas em declínio. No Brasil, em contrapartida, o capital tende a permanecer imobilizado por mais tempo.

Coscarelli argumentou que investimentos locais e internacionais não deveriam ser tratados como carteiras separadas. O ponto de partida deve ser um único portfólio global, orientado pelos objetivos financeiros do cliente. Ele observou que os países do G7 investem mais de US$ 11 trilhões em ativos fixos, enquanto a China adiciona outros US$ 6 trilhões a US$ 7 trilhões e o Brasil investe aproximadamente US$ 400 bilhões. Nesse contexto, o investidor precisa identificar onde estarão as próximas ondas de criação de valor.

Inteligência artificial e as novas cadeias de investimento

A inteligência artificial foi apontada como um dos principais exemplos de tendência estrutural pouco acessível por meio do mercado brasileiro. Valentini destacou a velocidade da evolução tecnológica: em cerca de três anos, ferramentas antes experimentais passaram a ser utilizadas em larga escala por empresas e consumidores.

A cadeia de IA envolve diferentes camadas e oportunidades de investimento. As primeiras incluem energia, semicondutores e infraestrutura física (como data centers e sistemas de resfriamento). Essas áreas receberam grande atenção dos mercados porque a oferta ainda não acompanha o crescimento da demanda. Em seguida, aparecem os próprios modelos de inteligência artificial e as aplicações construídas sobre eles, incluindo soluções médicas, automação e robótica.

A exposição também é geograficamente diversificada. Os Estados Unidos concentram modelos e aplicações, enquanto Coreia do Sul, Taiwan e Japão ocupam posições relevantes na cadeia de chips e equipamentos. Segundo Valentini, o Brasil participa dessa transformação principalmente por meio da energia. Apesar de possuir cerca de 20% das reservas mundiais de terras raras, responde por aproximadamente 1% da produção, atuando mais como consumidor de IA do que como participante da infraestrutura e do desenvolvimento tecnológico.

Goldberg observou que tendências internacionais aparentemente distantes acabam produzindo efeitos relevantes no mercado doméstico. Por isso, a exposição global permite não apenas capturar oportunidades inexistentes no Brasil, mas também proteger a carteira de movimentos que posteriormente atingem a economia local.

Quanto investir no exterior e como tratar o câmbio

Ao discutir a parcela adequada de investimentos internacionais, Wichmann afirmou que o investidor deveria manter pelo menos 15% do portfólio fora do Brasil. O percentual ideal, porém, depende do planejamento financeiro de cada cliente, considerando idade, objetivos, horizonte de investimento e eventuais despesas em moeda estrangeira.

Segundo ele, manter todo o patrimônio em um único país, especialmente em uma economia sem grau de investimento, representa um risco elevado. A alocação internacional também ajuda a preservar o poder de compra, pois parte relevante da cesta de consumo brasileira é direta ou indiretamente influenciada pelo dólar.

Coscarelli afirmou que já não existem barreiras estruturais relevantes para o brasileiro investir globalmente. O principal obstáculo passou a ser comportamental. Muitos investidores tentam escolher o momento ideal para converter reais em dólares, mas quem faz aportes recorrentes no exterior tende a obter resultados melhores do que quem tenta antecipar os movimentos do câmbio.

A recomendação foi manter disciplina, sem depender de previsões de curto prazo. O objetivo não deve ser acertar a cotação do dólar, mas construir gradualmente uma exposição internacional coerente com o planejamento patrimonial.

Valentini explicou que o câmbio exerce três funções na carteira: fonte de retorno, proteção patrimonial e diversificação. No longo prazo, o real tende a se depreciar diante do diferencial de inflação, enquanto a exposição ao dólar ajuda a proteger o investidor do aumento dos preços de bens e serviços relacionados à moeda norte-americana. A diversificação também é relevante porque o real está entre as moedas mais voláteis.

Wichmann afirmou que o hedge cambial deve ser utilizado apenas em casos específicos e sempre de acordo com os objetivos do cliente. Em renda fixa, a proteção pode fazer sentido em determinadas situações. Em ações, contudo, sua aplicação é mais complexa, pois as próprias empresas possuem receitas e custos distribuídos em diferentes moedas. Para ele, uma proteção indiscriminada eliminaria parte dos benefícios de diversificação proporcionados pelo dólar.

Disciplina e oportunidades à frente

Coscarelli destacou que a construção da carteira deve partir do plano financeiro do investidor. Em períodos de desempenho inferior dos ativos internacionais, é importante relembrar as razões que justificaram a alocação, evitando mudanças motivadas por movimentos de curto prazo.

Wichmann acrescentou que o risco total do portfólio deve ser sempre menor ou igual à tolerância ao risco do cliente. A diversificação internacional também não precisa ser complexa: índices amplos e bem construídos, como o S&P 500, já permitem acessar diferentes empresas, setores e tendências globais.

Para os próximos meses, Valentini identificou forças opostas. De um lado, guerras, pressões inflacionárias e juros elevados aumentam a incerteza e podem levar o Federal Reserve a manter a política monetária em pausa. De outro, o crescimento dos lucros corporativos e tendências estruturais como inteligência artificial continuam sustentando oportunidades nos Estados Unidos e na Ásia.

Nas considerações finais, os participantes destacaram a expansão dos mercados privados, a importância da alocação entre classes de ativos e a necessidade de escolher bons gestores. Wichmann resumiu sua recomendação de forma direta: na alocação internacional, “just do it”.

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