No primeiro dia da Expert XP 2026, um painel reuniu Jeferson Bittencourt, da ASA; Luiz Parreiras, da Verde Asset; e Mariano Steinert, da Genoa Capital, para discutir os principais vetores da economia global e brasileira. O debate começou pelo conflito no Oriente Médio e seus impactos sobre o petróleo. Depois de o Brent se aproximar de US$ 70 por barril há poucas semanas, o agravamento das tensões levou a commodity para acima de US$ 100 durante o pregão, ampliando a incerteza sobre inflação, juros e atividade.
Bittencourt destacou a dificuldade de construir cenários diante da volatilidade e da instabilidade dos atores envolvidos. Embora nenhum dos lados tenha interesse econômico em uma guerra prolongada, existem fatores políticos e estratégicos que podem estender o conflito. Para acompanhar o cenário, afirmou utilizar a curva futura do petróleo como uma das principais referências. Sua expectativa, contudo, continua sendo de arrefecimento, ainda que o mundo permaneça mais tenso e sujeito a novos episódios de estresse.
Parreiras avaliou que o mercado precifica de forma razoável os riscos. Diante da dificuldade de antecipar o comportamento de Donald Trump, disse preferir analisar a estrutura de incentivos. De um lado, o Irã ganhou poder de barganha com sua capacidade de interferir no Estreito de Ormuz e deve utilizar essa alavancagem para buscar concessões. Do outro, Trump não quer permitir uma vitória iraniana, mas também não parece interessado em sustentar uma guerra longa. A entrada dos Houthis aumentou a incerteza, mas o cenário mais provável continua sendo o de uma nova tentativa de acordo.
Na visão do gestor, os incentivos estão hoje mais claros do que em momentos anteriores da crise, o que torna mais provável um conflito de menor duração. No longo prazo, Parreiras vê assimetria para preços significativamente inferiores aos atuais. Além da eventual retirada do prêmio geopolítico, o mundo estaria descobrindo um cenário de sobreoferta de petróleo, com a curva futura indicando o Brent na faixa mais alta dos US$ 70 ao final do próximo ano.
Inflação global mais alta e o posicionamento do Brasil
Ao ampliar a discussão para além da geopolítica, Steinert apontou fatores que podem manter a inflação e os juros globais persistentemente mais elevados. Entre eles estão a disputa comercial entre Estados Unidos e China, a inflação de bens, os investimentos em inteligência artificial e a deterioração fiscal observada desde a pandemia. Com a demanda doméstica e os investimentos ainda fortes, sua avaliação é que a inflação média global ficará acima dos níveis do período anterior, levando também a taxas de juros neutras estruturalmente mais altas.
Bittencourt avaliou que o Brasil permanece relativamente bem posicionado nesse novo contexto. A desglobalização tende a produzir mais inflação, mas algumas características historicamente vistas como fragilidades brasileiras, como o menor grau de abertura comercial, passaram a oferecer alguma proteção em um mundo marcado por guerras comerciais e reorganização das cadeias produtivas.
Ele também chamou atenção para o que definiu como “terror premium”. Antes da guerra, o petróleo chegou a negociar próximo de US$ 60 por barril, mas não retornou ao mesmo patamar mesmo após momentos de redução das tensões, indicando a permanência de um prêmio associado ao risco de novos conflitos. Nesse ambiente, a combinação de recursos naturais, matriz energética diversificada e menor exposição direta a algumas disputas globais favorece o posicionamento relativo do Brasil.
Inteligência artificial: otimismo com a demanda e cautela na escolha dos vencedores
A inteligência artificial foi outro tema central do painel. A discussão partiu do forte crescimento no consumo de tokens e da emissão de dívida por empresas de tecnologia para financiar data centers, semicondutores e outras infraestruturas ligadas ao ciclo de investimentos.
Parreiras se colocou no campo mais otimista. Segundo ele, quem utiliza as novas ferramentas percebe rapidamente os ganhos de eficiência e produtividade, o que torna difícil não se entusiasmar com seu potencial. “Ainda estamos nos 15 ou 20 minutos do primeiro tempo”, afirmou. Como exemplo da velocidade da adoção, citou o crescimento de cerca de 20 vezes da receita anualizada da Anthropic em um ano, desempenho que estaria contrariando as projeções mais céticas.
Para o gestor, a primeira etapa desse ciclo tende a ser inflacionária, diante da necessidade de grandes investimentos em energia, chips, infraestrutura e capacidade computacional. Mais adiante, porém, os ganhos de produtividade podem gerar efeitos deflacionários. Ele também argumentou que o mundo pode se dividir entre países com capacidade de desenvolver e utilizar inteligência artificial em escala e aqueles que ficarão para trás.
Nesse aspecto, mostrou preocupação com o Brasil. Apesar da disponibilidade de energia limpa e do potencial para receber data centers, entraves regulatórios e projetos ainda pendentes no Congresso podem atrasar investimentos, fazendo com que o país volte a perder espaço em uma transformação tecnológica relevante.
Ao responder se o mercado estaria precificando uma adoção mais rápida do que a economia real consegue absorver, Steinert afirmou não enxergar um excesso evidente. Os aproximadamente US$ 2 trilhões em investimentos projetados parecem compatíveis com o crescimento da demanda, enquanto as estimativas de capex continuam sendo revisadas para cima. Segundo ele, o risco pode ser menos de excesso de capacidade e mais de uma oferta insuficiente de infraestrutura no curto prazo.
Os participantes ponderaram, porém, que a velocidade da transformação torna muito difícil antecipar qual empresa ou modelo será o vencedor. Por isso, consideram mais seguro investir nas companhias expostas ao ciclo de capex — fornecedoras de energia, chips, equipamentos e infraestrutura — do que tentar escolher antecipadamente quem dominará a tecnologia. O risco macroeconômico está na crescente dependência da economia norte-americana desse ciclo: caso haja uma pausa ou perda de fôlego da IA, o impacto de curto prazo sobre os mercados e a atividade pode ser relevante.
Eleições de 2026 e os limites para o ajuste fiscal
Na parte final, o painel discutiu se é possível acreditar em uma agenda de ajuste fiscal no próximo governo, considerando os déficits primários recorrentes, a dívida pública crescente e a ausência de uma perspectiva clara de estabilização.
Bittencourt mostrou-se cético quanto à possibilidade de o tema ser discutido durante a campanha. Segundo ele, os candidatos não têm incentivo para defender medidas impopulares, pois seriam penalizados eleitoralmente. Assim como em 2022, a eleição de 2026 deve ter pouco debate fiscal, e o verdadeiro plano econômico do vencedor provavelmente será conhecido apenas depois da posse.
Em sua avaliação, uma reforma fiscal minimamente crível só estaria praticamente garantida diante de uma crise. Historicamente, o Brasil não realiza grandes reformas em períodos de tranquilidade. O teto de gastos, por exemplo, surgiu depois de uma recessão profunda e foi importante para conter a expansão das despesas. A próxima crise pode vir justamente de um ambiente internacional de juros mais altos, especialmente negativo para um país que já parte de um nível elevado de dívida.
Parreiras apresentou uma visão um pouco menos pessimista. Ele acredita que medidas como a desindexação de despesas poderiam ser suficientes para que o mercado concedesse o benefício da dúvida a um novo governo, mesmo sem um ajuste completo. Ainda assim, demonstrou preocupação com a expansão fiscal no período eleitoral.
Steinert acrescentou que a política monetária se tornou refém da política fiscal. Diante do forte crescimento das despesas reais, o Banco Central precisa manter condições financeiras restritivas para compensar o impulso sobre a demanda. Para ele, “se o Brasil der certo”, o país poderá enfrentar uma recessão em 2027, refletindo o custo de curto prazo de um ajuste capaz de controlar a inflação e abrir espaço para juros menores. O risco é que a desaceleração volte a gerar pressão política por novos estímulos, prolongando o ciclo de expansão fiscal, juros elevados e baixo crescimento.
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