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América Latina e mercados emergentes: a visão de gestores globais de ações

No primeiro dia da Expert XP 2026, o descompasso entre fundamentos e fluxo foi um tema central nas discussões deste painel

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No painel “América Latina e mercados emergentes: a visão de gestores globais de ações” da Expert XP 2026, participaram quatro especialistas do mercado: Fabio Frischer, chefe global de institutional sales e offshore equities da XP International, Seba Ramirez, chefe de ações chilenas da LarrainVial Asset Management, Efrain Chavez, gestor de portfólio sênior na INCA Investments e Ana Reynal, LatAm Analyst na Capital Group.

O descompasso entre fundamentos e fluxo foi um tema central nas discussões, observado como a origem de uma assimetria relevante: com o capital global concentrado no trade de inteligência artificial, basta uma rotação marginal de volta para os emergentes para mover de forma desproporcional os preços na região.

Um ciclo diferente do da década passada

O painel abriu com um diagnóstico compartilhado pelos três gestores: o ciclo atual pouco se parece com o dos últimos dez anos. Ana Reynal, do Capital Group, lembrou que, no período anterior, as companhias latino-americanas simplesmente não entregavam crescimento de lucro, e as ações refletiam isso. Agora, a relação se inverteu. Mesmo diante de um cenário desafiador, as empresas da região têm se mostrado resilientes e crescendo bem, sem que a performance das ações acompanhe.

Efrain Chavez, da INCA Investments, somou o argumento de valuation: no relativo, a região negocia a múltiplos muito descontados frente a outras geografias, com lucros em expansão e franquias com barreiras de entrada sólidas. A correlação da América Latina com a China, acrescentaram, caiu de forma significativa, o que altera a própria natureza do ativo na carteira de um investidor global.

A sombra do trade de inteligência artificial

Se os fundamentos apontam para cima, o fluxo aponta para outro lugar. A leitura dos gestores é que 2026 tem sido dominado pelo trade de inteligência artificial, que absorveu volumes expressivos de capital em outras geografias e deixou a América Latina na posição de trade defensivo. Seba Ramirez, da LarrainVial, observou que a região oferece justamente o que falta nesse ambiente: valor em segmentos fora do tema dominante, resiliência e proteção.

O efeito colateral apareceu na frase mais direta do painel: a inteligência artificial tem dissolvido a diversificação. Do lado positivo, os gestores notaram que os hyperscalers estão se tornando investidores asset heavy, com aceleração de capex que começa nos chips, mas cujo grande benefício de segundo round tende a ser o ganho de eficiência e de participação de mercado das franquias que souberem incorporar a tecnologia.

A assimetria do fluxo: pouco de fora, muito de efeito

Foi de Reynal a leitura técnica que amarrou o argumento. Dado o tamanho relativo da região nos portfólios globais, basta uma rotação pequena vinda de fora para produzir uma diferença muito grande na performance, uma assimetria que os gestores enxergam como a principal oportunidade do momento, combinando fundamento e técnico. O contraponto é honesto: enquanto o trade de inteligência artificial seguir sugando capital, é difícil imaginar uma reprecificação relevante dos emergentes.

O painel também apontou que o mercado tem operado em horizontes excessivamente curtos, com o que Reynal chamou de turismo de investimento, capital que entra em ciclos rápidos de alta e sai na mesma velocidade. Como fundos, disseram preferir olhar mais adiante: faz mais sentido buscar valor em horizontes maiores, ainda que revisando premissas constantemente, já que o objetivo é ganhar dinheiro tanto com juros subindo quanto caindo.

Argentina como a call fora do consenso

Na alocação, o Brasil apareceu de forma mais neutra do que se poderia esperar. Chavez afirmou que a INCA nunca esteve overweight no país, tendo focado em companhias e não em geografia, e Ramirez descreveu uma posição neutra com alguma exposição a setores defensivos como bancos e utilities.

Reynal reconheceu que as maiores companhias da região estão no Brasil e que o país oferece boas oportunidades no longo prazo, com a liquidez pesando a favor, mas ponderou que as melhores histórias dos últimos anos foram encontradas fora, uma questão de regulação e de retorno ajustado ao risco. O consenso recaiu sobre a Argentina. Os gestores destacaram companhias que atravessaram um período de políticas públicas ruins e saíram mais fortes, um custo de risco com espaço relevante para cair e um ciclo de investimentos que já se materializa em mineração e óleo e gás. Ramirez ampliou o argumento para o movimento político da região. Chile, Peru e Colômbia o mesmo ciclo acontece de forma mais silenciosa, com menos investidores olhando. As reservas de gás argentinas, num mundo em que conflitos geopolíticos têm estimulado a estocagem de commodities, foram citadas como um ativo de sentido estratégico claro.

Governança e custo de capital: o que trava e o que destrava

Perguntados sobre o que impede o retorno estrutural do capital, os gestores convergiram para o mesmo ponto, e não é o macro. Para Chavez, a melhora de governança é o principal fator capaz de trazer o investidor de volta, transparência e tratamento sério do acionista minoritário vêm antes de qualquer variável macroeconômica, que está menos sob controle das companhias. Reynal foi na mesma direção pelo lado institucional: o arcabouço legal precisa estar sólido, e a região tem tudo para ir bem, sem conflitos geopolíticos e com uma dotação de commodities que favorece a formação de reservas, mas os governos seguem atirando no próprio pé.

“Fico impressionada com muitas companhias, mas as algumas ações não funcionam no longo prazo”, resumiu. O custo de capital fecha o raciocínio: com taxas altas, o dinheiro vai para onde é mais seguro, e nenhuma qualidade de companhia sustenta uma ação. Entre as posições de maior convicção, MELI apareceu duas vezes — Reynal e Chavez destacaram o nome pela liquidez, pelo crescimento e pelo Mercado Pago, com a Argentina como principal vetor de alta, caso o país entregue, e a Venezuela como opcionalidade adicional embutida no case. Ramirez citou Sabesp, pelo arcabouço regulatório e pelas múltiplas formas de ganhar, além de Axia e utilities, Femsa no longo prazo e Falabella no Chile.

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