Conforme divulgado pelo IBGE nesta manhã, o IPCA-15 de agosto recuou 0,40% no mês, abaixo da nossa projeção de -0,31% e do consenso Bloomberg de -0,32%. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses caiu de 4,52% em julho para 4,24% em agosto.
A deflação do mês foi explicada, em grande medida, pelo crédito extraordinário do Bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica, que levou as tarifas a caírem 6,25%. Trata-se, contudo, de um efeito temporário e não recorrente, que deverá ser revertido à medida que o crédito se esgote.
As principais surpresas baixistas em relação à nossa projeção vieram de passagens aéreas, cigarros, transporte por aplicativo, tubérculos, raízes e legumes e gasolina. Em sentido contrário, a energia elétrica representou a principal surpresa altista individual, uma vez que a queda das tarifas foi menos intensa do que antecipávamos, seguida por frutas. No agregado, os preços livres responderam por -0,13 p.p. do desvio em relação à nossa estimativa.
De modo geral, o resultado apresentou composição favorável, com desaceleração das medidas de tendência da inflação. Ainda assim, a leitura cheia negativa foi influenciada sobretudo por fatores temporários, enquanto os componentes mais ligados à demanda doméstica e ao mercado de trabalho permanecem em patamar elevado.
Meta de inflação: o que é?
O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária – a política responsável pelo controle da quantidade de moeda em determinada economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.
Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que se mantenha no ritmo de 3,00%.
O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 pontos percentuais para cima e para baixo. Essa “banda” serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma pandemia que derrube os preços.
Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar uma carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.
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Serviços: agregado desacelera, mas núcleo segue pressionado
O agregado mais amplo de serviços avançou apenas 0,07% no mês, abaixo da nossa projeção de 0,27%. A surpresa baixista concentrou-se em itens mais voláteis, especialmente passagens aéreas e transporte por aplicativo, além de reajustes de mensalidades escolares menores do que o esperado.
O núcleo de serviços, por sua vez, subiu 0,50%, ligeiramente acima da nossa estimativa de 0,43%. O seu 3M SAAR — média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada — recuou apenas marginalmente, de 4,66% em julho para 4,59% em agosto, enquanto a inflação acumulada em 12 meses cedeu de 5,08% para 5,03%.
Os serviços intensivos em trabalho avançaram 0,55% no mês, também acima da nossa projeção de 0,50%. Apesar da surpresa mensal, suas medidas de tendência apresentaram alguma melhora: o 3M SAAR moderou de 7,07% para 6,80%, e a taxa acumulada em 12 meses recuou de 7,30% para 7,22%.
Assim, a inflação de serviços continua heterogênea. A desaceleração do agregado cheio foi puxada principalmente por itens voláteis de transporte, e não por uma melhora disseminada da inflação subjacente. O núcleo de serviços e, sobretudo, os serviços intensivos em mão de obra seguem rodando em níveis elevados, refletindo as condições ainda apertadas do mercado de trabalho e a resiliência da demanda doméstica. Este permanece sendo o principal ponto de atenção para a trajetória inflacionária à frente.
Bens industrializados seguem com dinâmica benigna
Os preços dos bens industrializados subiram 0,08% no mês, abaixo da nossa expectativa de 0,17%. O 3M SAAR do grupo recuou de 2,91% em julho para 2,84% em agosto, enquanto a inflação acumulada em 12 meses avançou marginalmente, de 2,62% para 2,70%.
A principal surpresa baixista veio dos cigarros. O reajuste de preços alcançou cerca de 5%, abaixo dos 11% que projetávamos, contribuindo com aproximadamente -0,03 p.p. para o desvio do IPCA-15 em relação à nossa estimativa.
A leitura reforça a percepção de que a inflação de bens industriais permanece relativamente comportada. Ainda assim, o comportamento do grupo segue condicionado à evolução do câmbio e dos preços internacionais de commodities, especialmente do petróleo Brent, que continuam sendo fontes relevantes de risco.
Núcleos melhoram em termos sequenciais; difusão sobe moderadamente
A média das medidas de núcleo de inflação — indicadores que buscam captar a tendência subjacente dos preços ao reduzir o efeito de itens mais voláteis — avançou 0,23% no mês, praticamente em linha com nossa estimativa de 0,25%.
As métricas de tendência continuaram melhorando. Segundo nossos cálculos, o 3M SAAR dos núcleos recuou de 4,40% para 3,87%, retornando a um patamar inferior a 4%, enquanto a inflação acumulada em 12 meses cedeu de 4,26% para 4,17%.
O núcleo EX3, medida que reúne serviços e bens industrializados subjacentes e apresenta maior correlação com o ciclo econômico, também mostrou melhora. Sua inflação em 12 meses recuou de 4,70% para 4,54%, e o 3M SAAR caiu de 4,94% para 4,24%. O movimento é favorável, especialmente porque esse indicador vinha registrando deterioração nos últimos meses.
A difusão — proporção de itens da cesta com aumento de preços — subiu de 48% em julho para 52% em agosto, mas permaneceu abaixo da nossa projeção de 58%. Embora a alta mensal recomende cautela, o nível ainda é compatível com uma inflação menos disseminada do que antecipávamos.
Alimentos surpreendem para baixo; energia explica queda dos administrados
Os preços de alimentação no domicílio recuaram 0,97% no mês, queda mais intensa do que a nossa projeção de -0,65%. As surpresas baixistas concentraram-se em tubérculos, raízes e legumes, carnes e panificados, parcialmente compensadas por altas acima do esperado em frutas e leite.
O cenário para alimentos, contudo, exige atenção. Esperamos alguma aceleração da inflação do grupo no quarto trimestre de 2026, especialmente nos alimentos in natura, em função dos efeitos esperados do El Niño sobre as condições climáticas e a oferta agrícola.
Os preços administrados caíram 1,13% em agosto, ante nossa projeção de -1,33%. A dinâmica foi integralmente condicionada pelo crédito de Itaipu nas tarifas de energia elétrica. A gasolina, por sua vez, recuou 1,23%, queda mais intensa do que a projetada por nós, de -1,01%.
Vale destacar que o efeito da energia elétrica é temporário. À medida que o crédito nas contas de luz se esgote, haverá uma reversão mecânica parcial desse impacto sobre o IPCA cheio em setembro.

Nossa visão
O IPCA-15 de agosto veio abaixo do esperado e apresentou uma composição, em linhas gerais, favorável. A inflação de alimentos surpreendeu para baixo, os bens industrializados seguiram comportados e as medidas de núcleo continuaram mostrando melhora em termos sequenciais.
No entanto, a deflação do índice cheio decorreu majoritariamente de um fator temporário — o bônus de Itaipu nas tarifas de energia elétrica — e não deve ser interpretada como uma desinflação generalizada. Além disso, os componentes mais persistentes da inflação seguem exigindo cautela: tanto o núcleo de serviços quanto os serviços intensivos em mão de obra vieram ligeiramente acima do esperado no mês e permanecem em patamares elevados.
Mantemos nossas projeções de 5,1% para o IPCA em 2026 e 4,2% em 2027.
Como se proteger da alta de preços?
Como vimos, a inflação segue como um dos principais motivos de cautela e atenção para a economia brasileira. Assim, proteger seu patrimônio contra a alta de preços se torna ainda mais essencial.
Títulos indexados à inflação (como o título público NTN-B 2030), emissões bancárias de instituições sólidas e com boa classificação de risco, debêntures incentivadas (sem cobrança de Imposto de Renda ao investidor) e fundos de investimento com gestão ativa em renda fixa são ótimas alternativas. Falamos mais das melhores oportunidades de renda fixa aqui.
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