Resumo
A situação fiscal nos Estados Unidos voltou ao centro das atenções. O Tesouro americano anunciou que vai dobrar a recompra de títulos públicos de longo prazo. A iniciativa busca conter a pressão sobre as taxas de juros desses ativos, que atingiram os maiores patamares em mais de duas décadas.
O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã para fim do conflito no Oriente Médio perdeu força, e novos ataques na região ampliaram os riscos relacionados ao tráfego no Estreito de Ormuz. As tensões mantiveram os preços do petróleo pressionados (acima de 90 dólares por barril).
Na China, indicadores econômicos de julho indicaram desaceleração disseminada na atividade. O quadro reforça a percepção de desequilíbrio doméstico com oferta forte e demanda fraca, além da perspectiva de novos estímulos governamentais.
No Brasil, o IBC-Br – considerado uma proxy mensal do PIB – recuou em junho. O resultado veio em linha com nosso cenário de desaceleração gradual da atividade econômica.
Gráfico da Semana

Cenário Internacional
Tesouro dos Estados Unidos dobra recompra de títulos após juros longos atingirem máximas históricas
A situação das contas fiscais nos Estados Unidos segue preocupante. O Tesouro americano anunciou que (no mínimo) duplicará o volume das operações de recompra de liquidez em títulos de 10 e 30 anos, em nova tentativa de conter os custos de captação de longo prazo, que rodam nas máximas de várias décadas. As compras ampliadas começarão em 9 de setembro. Duas semanas atrás, o calendário indicava recompras de até 14 bilhões de dólares nesses vértices. O movimento se soma a uma sequência de intervenções do Secretário do Tesouro, Scott Bessent, que incluiu a primeira compra coordenada de iene entre Estados Unidos e Japão desde 1998, no fim do mês passado.
Durante a semana, as taxas de juros dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) de 30 anos superaram 5,30%, o maior patamar desde 2002. Segundo Bessent, mais medidas serão anunciadas na 2ª-feira (24).
Impasse entre Irã e Estados Unidos mantém preços do petróleo pressionados
As tensões entre Estados Unidos e Irã seguem pressionando os mercados de energia, com o fluxo pelo Estreito de Ormuz praticamente paralisado. O Irã afirmou que manterá a passagem fechada até que suas condições sejam atendidas, enquanto novos ataques dos rebeldes houthis no Mar Vermelho ampliaram os riscos sobre o Estreito de Bab el-Mandeb (que também escoa milhões de barris de petróleo e gás natural por dia). No campo diplomático, as perspectivas de extensão do acordo provisório entre Washington e Teerã se deterioraram, e os Estados Unidos anunciaram uma ampliação significativa das sanções econômicas contra o Irã.
O Tesouro americano indicou que novas medidas, a serem detalhadas na próxima segunda-feira (24), podem atingir também países que auxiliem Teerã a contornar as restrições. A China ganha importância nesse cenário, dado que responde por mais de 80% das compras do petróleo iraniano.
Nesse contexto, a cotação do petróleo (tipo Brent) subiu 7% nesta semana, atingindo 94 dólares por barril.
Ata do Fed reforça preocupação com a inflação
A ata da última reunião de política monetária do Fed (banco central dos Estados Unidos) mostrou que vários dirigentes defenderam alta de juros no encontro e que muitos indicaram que o aperto seria necessário caso a inflação não recue. Houve manutenção da taxa de referência entre 3,50% e 3,75%, com três dos nove membros dissidentes (Logan, Hammack e Kashkari) a favor de elevação de 0,25 p.p.. O documento registrou que as projeções de inflação continuam bastante incertas e que o recrudescimento das tensões no Oriente Médio vem turvando o cenário. Atualmente, a precificação de mercado indica uma alta de juros (de 0,25 p.p.) até o final deste ano.
Acordo comercial entre Estados Unidos e Canadá avança, após ameaças de Trump
Estados Unidos e Canadá anunciaram avanços nas negociações comerciais, evitando a imposição de 50% de tarifas sobre uma série de produtos canadenses. O Presidente Donald Trump afirmou que os dois países chegaram a um acordo sujeito à finalização da documentação, ao passo que o Primeiro-Ministro Mark Carney confirmou que houve progresso substancial, mas que ainda existem pontos pendentes. Entre as questões em discussão estão as tarifas americanas sobre veículos canadenses e possíveis reduções das alíquotas da Seção 232 da Lei de Expansão Comercial dos Estados Unidos, que permite a imposição de tarifas ou restrições de importação sob a alegação de defesa da segurança nacional. O adiamento reduz, por ora, o risco de uma nova escalada comercial.
Desaceleração disseminada na China
Na China, os indicadores de atividade de julho apontaram para perda de fôlego da demanda. A produção industrial cresceu 4,5% em relação a julho de 2025, abaixo da expectativa de mercado (5,0%) e da leitura de junho (5,3%). O resultado provavelmente reflete a pressão de custos associada às disrupções nos mercados globais de energia e frete, apenas parcialmente compensadas pela crescente demanda externa por bens de maior conteúdo tecnológico. As vendas no varejo avançaram somente 0,6% na comparação anual, bem abaixo do esperado (1,3%), enquanto o investimento em ativos fixos recuou 6,7% no acumulado de janeiro a julho, aprofundando a queda de 5,7% vista no primeiro semestre. O porta-voz do Departamento Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês), Fu Linghui, reconheceu que “o ambiente externo é complexo e volátil, e o desequilíbrio doméstico entre oferta forte e demanda fraca permanece agudo”, o que amplia a expectativa de novos estímulos por parte de Pequim.
Estados Unidos ampliam espaço para compra de carne bovina sem tarifa
Trump anunciou a liberação temporária de 300 mil toneladas de carne bovina para entrada nos Estados Unidos sem tarifa adicional. Segundo o time de Agronegócio da XP, a medida pode beneficiar o Brasil, que é um dos principais fornecedores do mercado americano, mas tinha acesso limitado a esse tipo de cota. A notícia é positiva para as exportações e para a receita dos frigoríficos. O efeito, porém, deve ser gradual, já que a oferta de animais segue mais restrita e os abates recentes vieram em ritmo menor. Com maior demanda externa, os preços do boi podem continuar pressionados.
Enquanto isso, no Brasil…
Atividade econômica perdeu fôlego no 2º trimestre
O IBC-Br (proxy mensal do PIB) recuou 0,6% em junho na comparação com maio, em linha com as expectativas. O indicador avançou apenas 0,2% no 2º trimestre, desaceleração acentuada ante a alta de 1,3% no 1º trimestre. A abertura setorial mostrou perda de dinamismo disseminada: o setor de serviços recuou 0,5% na margem (-0,1% no trimestre), um ponto de inflexão relevante para essa atividade, que responde pela maior parte do índice; a indústria avançou pelo segundo trimestre consecutivo (0,5%), mas o ganho ficou concentrado na produção extrativa, com perda de força nos segmentos de transformação; impostos perderam ímpeto (0,1%); e a agropecuária foi o único componente a subir no mês, estendendo sua sequência de ganhos trimestrais (0,3%).
No geral, o IBC-Br reforçou nosso cenário de desaceleração gradual da atividade econômica a partir do 2º trimestre. Projetamos que o PIB crescerá 2,0% em 2026 e 1,0% em 2027, com riscos inclinados para baixo.
Ampliação do programa de crédito Move Brasil
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Ministério da Fazenda ampliaram o programa Move Brasil – que gera incentivos creditícios para a aquisição de veículos para motoristas de aplicativos e taxistas. Entre as medidas, houve elevação do teto de financiamento de R$ 150 mil para R$ 200 mil, além da ampliação do conjunto de veículos elegíveis. Segundo o governo, a mudança amplia o alcance do critério econômico de 63% para 88% do mercado brasileiro de veículos e passa a contemplar novas categorias de híbridos. Esses modelos apresentam redução média próxima de 24% no consumo energético em comparação com versões convencionais equivalentes.
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Destaques da próxima semana
No cenário internacional, o principal indicador será o deflator das despesas de consumo pessoal (PCE, em inglês) dos Estados Unidos, o índice de inflação preferido do Fed (banco central local). Além disso, será anunciada a revisão anual dos dados de emprego (Nonfarm Payroll), que foi significativa nos últimos anos, gerando volatilidade nos mercados financeiros.
No Brasil, atenções voltadas para a divulgação do IPCA-15 (prévia da inflação mensal) de agosto. Esperamos queda acentuada no mês, devido ao pagamento de recursos da usina de Itaipu para moderação nas tarifas de energia elétrica. As principais estatísticas do mercado de trabalho referentes a julho também serão publicadas na semana que vem (CAGED e PNAD Contínua). Por fim, o Banco Central divulgará as estatísticas do setor externo e do mercado de crédito, enquanto o Tesouro Nacional divulgará o resultado primário do governo central – todos os dados são referentes a julho. Veja as nossas projeções abaixo.

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