Conforme divulgado pelo IBGE nesta manhã, o IPCA de agosto recuou 0,32% no mês, abaixo da nossa projeção de -0,29% e do consenso Bloomberg de -0,28%. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses desacelerou de 4,44% em julho para 4,22% em agosto.
A deflação do mês foi explicada, em grande medida, pelo crédito do Bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica, que levou as tarifas a recuarem 7,63%. Trata-se, contudo, de um efeito temporário e não recorrente, que deverá ser revertido à medida que o desconto deixe de incidir sobre as faturas de energia em setembro.
As principais surpresas baixistas em relação à nossa projeção vieram de gasolina, frutas, aves e ovos e itens de higiene pessoal. Em sentido contrário, destacaram-se as altas de cigarros, conserto de automóveis, carnes e mobiliário. No agregado, os preços livres ficaram praticamente estáveis no mês, em linha com nossa expectativa, uma vez que a queda mais intensa da alimentação no domicílio foi compensada por uma inflação de bens industriais um pouco mais firme do que a antecipada.
De modo geral, o resultado apresentou composição favorável, com melhora adicional das medidas de núcleo e desaceleração da inflação acumulada. Ainda assim, a leitura cheia negativa foi influenciada sobretudo por fatores temporários e voláteis, enquanto os componentes mais ligados à demanda doméstica e ao mercado de trabalho permanecem pressionados.
Meta de inflação: o que é?
O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária – a política responsável pelo controle da quantidade de moeda em determinada economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.
Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que se mantenha no ritmo de 3,00%.
O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 pontos percentuais para cima e para baixo. Essa “banda” serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma pandemia que derrube os preços.
Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar uma carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.
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Serviços: agregado benigno, mas medidas subjacentes seguem elevadas
O agregado mais amplo de serviços avançou apenas 0,03% no mês, abaixo da nossa projeção de 0,05%. O resultado foi influenciado principalmente pela queda das passagens aéreas, levando o 3M SAAR — média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada — do grupo a recuar de 6,0% em julho para 4,6% em agosto.
Os serviços subjacentes, por sua vez, avançaram 0,40%, em linha com nossa estimativa. Diferentemente do agregado cheio, suas métricas de tendência pioraram na margem: o 3M SAAR acelerou de 4,6% para 4,9%, enquanto a inflação acumulada em 12 meses permaneceu elevada, em 4,98%.
Os serviços intensivos em trabalho também mostraram aceleração. O 3M SAAR do grupo passou de 7,1% para 7,3%, e a variação acumulada em 12 meses atingiu 7,18%. Essas medidas seguem em patamares elevados e incompatíveis com uma convergência confortável da inflação para a meta.
Assim, a desaceleração do agregado cheio de serviços refletiu principalmente a dinâmica favorável de itens mais voláteis, especialmente passagens aéreas. As medidas subjacentes e os serviços intensivos em mão de obra continuam pressionados, refletindo as condições ainda apertadas do mercado de trabalho e a resiliência da demanda doméstica. Este segue sendo o principal ponto de atenção para a trajetória inflacionária à frente.
Bens industrializados aceleram, mas núcleo do grupo permanece comportado
Os preços dos bens industrializados subiram 0,43% no mês, acima da nossa projeção de 0,36%. A surpresa altista concentrou-se em cigarros, que registraram alta após o aumento do IPI e contribuíram com cerca de 0,04 p.p. para o desvio do IPCA em relação à nossa estimativa.
Excluindo itens mais específicos, a dinâmica dos industriais permaneceu benigna. Os bens industrializados subjacentes avançaram apenas 0,10% no mês, abaixo da nossa projeção de 0,20%. O 3M SAAR do grupo recuou de 4,7% em julho para 2,6% em agosto, sugerindo que as pressões inflacionárias mais disseminadas nos bens seguem moderadas.
A leitura reforça a percepção de que a inflação de bens industriais permanece relativamente comportada. Ainda assim, o comportamento do grupo continua condicionado à evolução do câmbio e dos preços internacionais de commodities, especialmente do petróleo tipo Brent.
Núcleos seguem melhorando, com desaceleração das métricas de tendência
A média das medidas de núcleo de inflação – indicadores que buscam captar a tendência subjacente dos preços ao reduzir o efeito de itens mais voláteis – avançou 0,23% no mês, marginalmente abaixo da nossa estimativa de 0,25%. A inflação acumulada em 12 meses desacelerou de 4,44% em julho para 4,37% em agosto.
As medidas de tendência também continuaram melhorando. Segundo nossos cálculos, o 3M SAAR da média dos núcleos recuou de 4,5% para 4,0%, dando continuidade à trajetória de desaceleração observada nos últimos meses.
O resultado é construtivo, sobretudo porque sugere uma melhora gradual da inflação subjacente para além dos efeitos temporários observados no índice cheio. No entanto, a persistência da inflação de serviços em patamares elevados recomenda cautela quanto à velocidade desse processo de desinflação.
Alimentos surpreendem para baixo; energia elétrica explica queda dos administrados
Os preços de alimentação no domicílio recuaram 0,61% no mês, queda mais intensa do que a nossa projeção de -0,53%. As surpresas baixistas concentraram-se em frutas, aves e ovos, parcialmente compensadas pela alta das carnes.
A alimentação fora do domicílio, por sua vez, subiu 0,36%, abaixo da nossa projeção de 0,43%. Apesar do resultado favorável em agosto, a composição sugere que o impulso deflacionário dos alimentos está perdendo força. A queda sazonal dos alimentos in natura vem moderando, enquanto carnes, arroz, óleos e gorduras já voltaram a subir.
Os preços administrados recuaram 1,25% em agosto, ante nossa projeção de -1,18%. A deflação do grupo foi explicada principalmente pelo Bônus de Itaipu nas tarifas de energia elétrica. A gasolina também contribuiu para a surpresa baixista, com queda de 0,59%, mais intensa do que a projetada por nós, de -0,31%.
Vale destacar que o efeito da energia elétrica é temporário. Com o encerramento do desconto nas contas de luz em setembro, deverá haver uma reversão mecânica de parcela relevante da queda observada nos preços administrados e no IPCA cheio em agosto.

Nossa visão
O IPCA de agosto veio abaixo do esperado e apresentou uma composição, em linhas gerais, favorável. Os núcleos continuaram desacelerando, a inflação de bens industriais subjacentes permaneceu comportada e a alimentação no domicílio voltou a surpreender para baixo.
No entanto, a deflação do índice cheio decorreu majoritariamente de fatores temporários e voláteis, com destaque para o Bônus de Itaipu, a gasolina e os alimentos in natura. Além disso, os componentes mais persistentes da inflação seguem exigindo cautela: os serviços subjacentes e, sobretudo, os serviços intensivos em mão de obra continuam rodando em níveis elevados.
Mantemos nossas projeções de 5,0% para o IPCA em 2026 e 4,2% em 2027. A combinação de sinais adicionais de desaceleração da atividade econômica e leituras mais benignas de inflação nos últimos meses reforça nossa expectativa de continuidade do afrouxamento monetário. Esperamos que o Copom reduza a Selic em 0,25 p.p. na próxima reunião e prossiga com cortes graduais ao longo do ano, levando a taxa a 13,25% no fim de 2026. Ainda assim, riscos relacionados aos alimentos, a eventuais reajustes de combustíveis e ao mercado de trabalho podem limitar o espaço para cortes adicionais.
Como se proteger da alta de preços?
Como vimos, a inflação segue como um dos principais motivos de cautela e atenção para a economia brasileira. Assim, proteger seu patrimônio contra a alta de preços se torna ainda mais essencial.
Títulos indexados à inflação (como o título público NTN-B 2030), emissões bancárias de instituições sólidas e com boa classificação de risco, debêntures incentivadas (sem cobrança de Imposto de Renda ao investidor) e fundos de investimento com gestão ativa em renda fixa são ótimas alternativas. Falamos mais das melhores oportunidades de renda fixa aqui.
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