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Setor Sucroenergético – Atualizações e Tendências 2026

Confira a visão de executivos do setor sucroenergético sobre produtividade, gestão de riscos, dinâmica de preços e as perspectivas para usinas e trading nos próximos ciclos.

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Aconteceu nesta segunda-feira (04) o evento “Setor Sucroenergético – Atualizações e Tendências”, reunindo executivos de empresas relevantes do setor para discutir os principais desafios, perspectivas de safra, dinâmicas de mercado e vetores estruturais de crescimento do setor.

O encontro, organizado pelo time de Investment Banking da XP, foi dividido em dois painéis complementares. O primeiro, com foco em desafios e perspectivas para usinas, contou com a participação de Carlos Santos (CEO da CMAA), Rafael Abud (CEO da FS Bioenergia) e Ailton Santos (CFO da Cocal), sob mediação de Lucas Genoso (Head de renda fixa no Research da XP). O segundo painel abordou a ótica de trading e comercialização, reunindo Lara Bacellar (COO da Copersucar) e Henrique Penna (Diretor Comercial da Jalles Machado), com mediação de Pedro Fonseca (Equity Research XP).

Confira a seguir os destaques do evento.

Painel 1: Carlos Santos | CMAA, Rafael Abud | FS Bioenergia, Ailton Santos | Cocal

Mediação: Lucas Genoso

Na abertura, Lucas Genoso destacou os desafios enfrentados pelo setor na última safra, marcada por impactos climáticos relevantes, e convidou os executivos a comentarem as perspectivas para a recuperação da produtividade e para o setor nos próximos ciclos.

Produtividade e tecnologia

Carlos Santos ressaltou que a produtividade segue como variável central para a sustentabilidade do setor. Segundo ele, a última safra foi fortemente impactada por condições de seca no Centro‑Sul e no norte do estado de São Paulo, mas a safra atual já começa a apresentar sinais de melhora. Como resposta estrutural, a CMAA tem investido em soluções para mitigar riscos climáticos, com destaque para um projeto de irrigação na Usina Vale do Pontal, que prevê 30 mil hectares irrigados, dos quais cerca de 8 mil já estão implementados. A iniciativa reduz a volatilidade climática, melhora a previsibilidade operacional e contribui para maior estabilidade do fluxo de caixa.

O executivo também enfatizou o avanço tecnológico do setor, com elevado nível de sofisticação operacional. Ferramentas de monitoramento permitem a gestão remota da irrigação e o acompanhamento em tempo real de indicadores agronômicos, resultando em ganhos relevantes de eficiência e produtividade.

Custos, margens e diversificação operacional

Ailton Santos destacou que, embora a produtividade seja um fator‑chave, a gestão de custos e margens envolve um conjunto mais amplo de vetores. A Cocal vem investindo de forma consistente em tecnologia ao longo dos últimos anos, com foco em reduzir rupturas ao longo da cadeia produtiva, que é extensa e complexa. Outro pilar apontado foi a capacitação de pessoas, buscando ampliar o senso de responsabilidade e visão de longo prazo dos colaboradores.

O CFO também ressaltou a importância do ganho de escala e da eficiência inteligente — produzir mais unidades com a mesma estrutura de custos — bem como o desenvolvimento de novos produtos e mercados. Nesse contexto, os subprodutos já representam cerca de 10% da receita, mas aproximadamente 30% do EBITDA da companhia, refletindo ganhos relevantes de eficiência operacional e diversificação.

Demanda por etanol e visão de longo prazo

Provocado sobre a capacidade do setor em atender à nova demanda por etanol, especialmente diante do aumento da mistura, Rafael Abud avaliou que a elevação da mistura de E30 para E32 ocorre, em grande parte, dentro da capacidade atual. No entanto, ressaltou que o setor precisa olhar além do curto prazo e planejar os próximos 10 a 15 anos. Segundo ele, além do avanço para E35, a dinâmica do diesel — no contexto da transição energética e da descarbonização — tende a ampliar o espaço para biocombustíveis, sustentando uma visão construtiva para a demanda futura e a necessidade gradual de expansão da oferta.

Gestão de risco, DDG e estrutura de capital

No tema de gestão de risco, Carlos Santos destacou que a CMAA mantém um comitê de riscos desde 2015, com foco na proteção de margens e geração de caixa. A companhia evita exposição a riscos fora de sua base produtiva e prioriza a consistência dos resultados, defendendo uma abordagem que privilegia previsibilidade em vez de ganhos eventuais elevados. O executivo reforçou que uma estrutura de capital robusta e um capital de giro estrutural são essenciais para atravessar ciclos adversos e manter o reinvestimento no canavial.

Ailton Santos reforçou que a Cocal atua com política semelhante, com proteção de margens e estrutura de dívida mais alongada, o que proporciona maior tranquilidade para o foco na operação. O uso do mercado de capitais tem sido relevante para casar fluxos de entrada e uso dos recursos.

Rafael Abud destacou que, apesar de a FS não operar arbitragem entre açúcar e etanol, a disciplina de gestão de riscos segue a mesma lógica. A companhia trabalha com horizontes longos, observando a dinâmica global de oferta de milho e sua correlação com a soja. A diversificação por meio de coprodutos de nutrição animal, como o DDG, contribui para reduzir a exposição à volatilidade do milho e do etanol, enquanto a atuação em diferentes segmentos do mercado animal mitiga riscos associados a ciclos específicos. A busca contínua por eficiência operacional e uma gestão financeira focada em liquidez e refinanciamento completam a estratégia.

Avenidas de crescimento

Encerrando o painel, os executivos apresentaram uma visão positiva para o setor. Rafael Abud destacou vetores de demanda ainda pouco explorados fora da mobilidade terrestre, especialmente no contexto da substituição gradual de combustíveis fósseis, enquanto Ailton Santos reforçou que o Brasil tende a se manter cada vez mais competitivo nas exportações, apoiado em eficiência operacional, escala e diversificação de produtos.

Painel 2: Lara Bacellar | Coopersucar, Henrique Penna | Jalles Machado

Mediação: Pedro Fonseca

O segundo painel abordou os desafios do atual cenário de preços, bem como as estratégias comerciais, operacionais e logísticas do setor.

Preços, hedge e flexibilidade de mix

Lara Bacellar observou que o ambiente atual combina níveis de preços circunstancialmente baixos com estoques de açúcar nos menores patamares dos últimos anos. Para navegar esse cenário, a executiva destacou dois fatores essenciais: flexibilidade de mix nas usinas e disciplina no uso das estruturas de hedge, aliadas à paciência e resiliência até a normalização dos preços.

Henrique Penna reforçou que o hedge é um instrumento central para atravessar períodos de maior volatilidade. A Jalles Machado mantém comitê de riscos desde 2014 e estrutura suas decisões com base no preço médio histórico e no valor presente de preços futuros. Segundo ele, a redução recente da posição vendida de fundos no mercado internacional tem contribuído para algum suporte aos preços do açúcar, que permanecem baixos, mas com expectativa de melhora ao longo do tempo. A companhia possui hedge estendido até junho de 2027.

Logística, investimentos e decisões operacionais

Na discussão sobre arbitragem de mix, Lara Bacellar destacou os avanços do setor na formação de preços e na qualificação das decisões de hedge ao longo da última década. Segundo ela, os investimentos realizados nos últimos anos priorizaram a renovação do canavial, a expansão da produção de etanol de milho e o aumento da capacidade das fábricas de açúcar, contribuindo para a maximização da capacidade produtiva do setor.

No entanto, a executiva ponderou que esse movimento ocorreu em paralelo a investimentos mais limitados em armazenagem e logística, especialmente na infraestrutura de escoamento do açúcar, tornando o setor mais sensível a gargalos operacionais e à volatilidade de preços em determinados momentos do ciclo.

Henrique Penna detalhou a estratégia da Jalles, que combina unidades com perfis distintos de produção e uma abordagem conservadora de decisão de mix, considerando limitações logísticas, contratos take‑or‑pay e condições de mercado. O executivo também defendeu maior concorrência ferroviária e investimentos estruturantes em ferrovias, além de políticas públicas que incentivem o uso do etanol em substituição ao diesel, inclusive em aplicações como termelétricas.

Regulação, exportação e mercado de etanol

No campo regulatório, Lara Bacellar destacou que a concorrência com grãos pressiona os custos logísticos do açúcar, reforçando a importância de investimentos em infraestrutura. Também apontou que maior previsibilidade nas políticas de combustíveis contribuiria para destravar valor no setor.

Sobre exportação de etanol, Lara avaliou que a limitação atual não está na produção, mas na capacidade logística. Segundo ela, há espaço relevante para ampliação das exportações, especialmente considerando aumentos potenciais de mistura em mercados como Japão e Europa. Apesar disso, entende que ainda há tempo para o desenvolvimento gradual dessa infraestrutura.

Henrique Penna ressaltou os benefícios do etanol para a saúde pública e para a economia e defendeu políticas de incentivo ao seu uso, destacando que uma parcela relevante da frota flex ainda não utiliza etanol de forma predominante. Ambos destacaram que a ausência de mecanismos líquidos de hedge para o etanol eleva a exposição das usinas, e que o crescimento do mercado internacional pode estimular o desenvolvimento de instrumentos de proteção de preços.

Considerações finais

Nas mensagens finais, Henrique Penna enfatizou a importância da aproximação entre empresas e mercado de capitais. Lara Bacellar destacou a resiliência histórica do setor sucroenergético, marcado por ciclos de commodities, ressaltando que, mesmo em momentos de preços mais apertados, o setor demonstra capacidade de adaptação, consolidação e identificação de oportunidades, com movimentos contínuos de aquisição e expansão.

Em síntese, o evento reforçou uma visão construtiva para o setor sucroenergético no médio e longo prazo, sustentada por ganhos de produtividade, avanço tecnológico, diversificação operacional, disciplina financeira e perspectivas favoráveis de demanda por etanol, subprodutos e soluções de descarbonização. Embora desafios de curto prazo persistam — especialmente ligados a preços, logística e ambiente regulatório —, o consenso entre os participantes é de que o setor permanece resiliente e bem posicionado para capturar oportunidades ao longo do próximo ciclo.

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