Eleições americanas: Quais os efeitos para a agenda ESG nos EUA e no Brasil?

A menos de um mês das eleições nos Estados Unidos, o foco dos mercados se volta à disputa pela Casa Branca entre o presidente republicano, Donald Trump, e o democrata Joe Biden. Mas quais as consequências dos possíveis resultados das eleições americanas para a agenda ESG e como isso afeta o Brasil?


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A menos de um mês das eleições nos Estados Unidos, o foco dos mercados se volta à disputa pela Casa Branca entre o presidente republicano, Donald Trump, e o democrata Joe Biden.

Uma mudança no comando do governo americano tem implicações significativas tanto para os mercados internacionais, quanto para o brasileiro, já que uma transferência de poder entre Trump e Biden significaria uma relevante alteração na política econômica e de relações internacionais da maior economia do mundo.

Com a ampliação da vantagem do democrata nas últimas semanas, um dos temas que tem ganhado cada vez mais destaque é o ESG (do termo em inglês Environmental, Social and Governance – ou, em português, ASG, referindo-se à Ambiental, Social e Governança), com a pauta ambiental centralizando o foco das discussões, assunto sobre qual as agendas dos candidatos apresentam diferenças significativas.

Nesse relatório buscamos apresentar como a disputa tem evoluído até o momento, quais as diferentes propostas dos candidatos no que diz respeito à pauta ambiental e quais os impactos esperados frente ao resultado das eleições na maior economia do mundo tanto para a agenda ESG nos Estados Unidos, quanto no Brasil.

Evolução da disputa

Apesar de Trump ser considerado o favorito até o início de 2020, a chegada do coronavírus aos Estados Unidos e seus efeitos na saúde e economia, além da percepção negativa de algumas atitudes do presidente durante esse período, mudaram o cenário significativamente, dando vantagem para o candidato democrata.

Ainda, nas últimas semanas, vimos uma interrupção da tendência de acirramento da disputa após um debate caótico marcado pela atitude agressiva do presidente Trump e seu diagnóstico positivo para Covid-19. Hoje Joe Biden lidera as pesquisas nacionais por mais de 10 p.p., segundo os principais agregadores.

Vale lembrar que as eleições nos Estados Unidos serão realizadas oficialmente no dia 3 de novembro, mas eleitores começam a votar até 46 dias antes – ou seja, uma parcela relevante do eleitorado já votou ou está por votar, o que reduz ainda mais a janela que Trump tem para recuperar apoio. Clique aqui para saber mais sobre o sistema eleitoral americano.

Ressaltamos que, além do resultado que definirá o novo presidente da maior economia do mundo, a disputa pelo Congresso é também muito importante para investidores, já que um Congresso dividido entre republicanos e democratas tem o potencial de limitar propostas mais arrojadas do Executivo, independentemente de quem seja o vencedor. É considerado praticamente certo que democratas devem reter a maioria na Câmara dos Deputados, porém o futuro da maioria republicana no Senado é mais incerto. As pesquisas apontam a uma disputa acirrada entre os partidos, mas os republicanos são favoritos a reterem maioria por margem mínima na visão do time de Análise Política da XP.

Pauta ambiental: Como Trump e Biden enxergam esse tema?

Um dos temas mais caros ao eleitorado democrata é o meio ambiente. Segundo pesquisa do Pew Research Institute, o assunto é o quarto mais relevante para eleitores do partido nesta disputa – 68% aponta o tema como “muito importante” na hora de escolher seu candidato a presidência. Em contraste, apenas 11% dos republicanos dizem o mesmo. Em vista disso, o peso do assunto na agenda democrata é consideravelmente mais significativo.

Joe Biden propõe um plano ambiental que prevê o investimento de USD 1,7 trilhões em infraestrutura de energia limpa nos setores de transporte, energia e construção civil ao longo de quatro anos, por meio do qual também espera gerar empregos. 40% do investimento seria alocado à população vulnerável.

O candidato defende também que a rede de eletricidade dos EUA seja 100% renovável até 2035 e que a matriz energética americana seja 100% limpa até 2050, além de propor incentivos fiscais para energia renovável. Indo além, Biden é a favor da ampliação de legislações punitivas para violações por corporações e indivíduos, reversão de alterações regulatórias realizadas durante o governo Donald Trump e proibição de novos projetos de fracking (fraturamento hidráulico em português – método que possibilita a extração de combustíveis líquidos e gasosos do subsolo) em terras públicas.

No entanto, vale mencionar que Biden é considerado da ala mais moderada dentro de seu partido e não defende algumas propostas favorecidas por outros democratas que são consideradas mais severas, como a de banir o fracking.

Já para Donald Trump, a pauta ambiental não é prioridade para o atual presidente, que não apresentou plano ambiental em suas propostas de campanha, mas propõe novos projetos para o setor de energia. Dito isso, na hipótese de uma vitória de Trump, não esperamos mudanças na direção das políticas ambientais do governo americano.

Vale ressaltar também que o resultado da disputa pelo Congresso também teria influência sobre esse cenário. Na hipótese de uma vitória democrata nas duas Casas, Biden poderia aprovar todas as medidas que desejasse na pauta meio ambiente, e ainda se veria pressionado por setores do partido para adotar medidas mais ambiciosas. No entanto, se os republicanos reterem a maioria no Senado, o governo Biden poderia enfrentar dificuldade em aprovar medidas ou poderia acabar desistindo de certas pautas ao negociar outros temas.

Isso posto, quais são os efeitos para a agenda ESG, tanto nos EUA quanto no Brasil, frente aos resultados das eleições na maior economia do mundo? É sobre isso que vamos falar a seguir!

Efeitos para a agenda ESG nos EUA

Tendo em vista que a pauta ambiental é um dos temas mais caros ao eleitorado democrata, se Biden for eleito à presidência dos Estados Unidos, é de se esperar que a agenda ESG e, consequentemente, os investimentos que levam em consideração esses critérios, ganhem ainda mais força no país.

Nos últimos anos, os investidores em todo o mundo se envolveram cada vez mais com o conceito de “investimento responsável”. Nos Estados Unidos, isso não foi diferente. Hoje, dos US$30 trilhões em ativos sob gestão (AuM, sigla em inglês para “Assets Under Management”) que são gerenciados por fundos que definiram estratégias sustentáveis, US$18 trilhões estão nos Estados Unidos. No país, esse montante já representa 25% do AuM total da região – ou seja, 1 a cada 4 fundos norte americanos já consideram os critérios ESG na seleção dos investimentos. Embora o continente Europeu esteja liderando esse jogo (esse mesmo percentual na Europa ultrapassa os 50%), destacamos que os EUA avança na sequência, e de forma acelerada. Na hipótese de uma vitória por Biden, não é de se surpreender que esse avanço ocorra de forma ainda mais intensa.

Outro dado que evidencia a movimentação dos investidores norte americanos para portfólios alinhados com os princípios ESG é o número de signatários no país do código de sustentabilidade do PRI (Principles for Responsible Investment na sigla em inglês, ou Princípios para o Investimento Responsável, na tradução livre, que representa o compromisso dos grandes investidores institucionais do mundo de investir em negócios sustentáveis).

Dos mais de 3.000 signatários do PRI atualmente, 25% estão na América do Norte, com os Estados Unidos concentrando 665 membros, dos quais 83% são gestoras.

Sem dúvidas, a eleição de um presidente que coloca as pautas ambientais e sociais no centro das discussões, como é o caso de Joe Biden, nos faz acreditar que o movimento dos investidores à caminho de portfólios alinhados aos critérios ESG deve se intensificar ainda mais rapidamente adiante.

Do ponto de vista das empresas norte americanas, vemos que o foco crescente nas questões ambientais, sociais e de governança pelos investidores já tem surtido efeitos no comportamento das companhias, mas ainda há muito a ser feito para que os resultados de longo prazo em termos de sustentabilidade sejam alcançados. Nesse sentido, vemos a eleição de Biden e o consequente holofote nessas questões desepenhando um papel importante sob as empresas, no sentido de incentivar e pressionar as mesmas em direção à adoção de práticas ESG.

Já na hipótese de uma vitória de Trump, dado que o tema não é prioridade para o atual presidente, não esperamos mudanças na direção das políticas ambientais do governo americano. No entanto, conforme destacado anteriormente, vimos uma evolução importante da agenda ESG nos últimos anos nos EUA, ainda que o governo não a coloque como pauta prioritária. Nesse sentido, embora reconhecemos o relevante papel do governo em impulsioná-la, cada vez mais os próprios investidores, as empresas e a sociedade em geral têm assumido o protagonismo no fomento de valores ambientais, sociais e de governança, o que nos permite acreditar que esse movimento deve somente se intensificar adiante, mesmo na hipótese de uma vitória de Trump.

Efeitos para a agenda ESG no Brasil

Os candidatos à presidência dos Estados Unidos não apenas apresentam divergências sobre o tema ambiental, mas também sobre a política externa.

Por um lado, Donald Trump defende um olhar mais nacionalista e até chegou a retirar os EUA de acordos internacionais sobre mudanças climáticas, como o acordo de Paris, por entender que o mesmo é desproporcionalmente negativo para a economia americana. Já Joe Biden, que defende a retomada da liderança americana na comunidade internacional, propõe iniciativas mais assertivas nessa frente também fora dos EUA, o que inclui voltar a assinar o acordo de Paris e ter postura mais firme sobre temas como o meio ambiente e os direitos humanos.

Acordo de Paris: compromissos assumidos pelas nações signatárias do acordo em 2015 para assegurar a mitigação e a adaptação à mudança climática.

No primeiro debate presidencial o democrata deixou claro que a pressão aumentaria sobre o Brasil no lado ambiental se ele fosse eleito. O candidato destacou o Brasil dentre todos os outros países para afirmar que reuniria nações aliadas para darem ao país USD 20 bilhões para acabar com o desmatamento na Amazônia e, se o Brasil fracassasse, então enfrentaria “consequências econômicas significativas”.

O fato do candidato democrata Joe Biden mencionar os altos índices de desmatamento e as queimadas na Amazônia brasileira evidencia também a atenção cada vez maior do ocidente ao aquecimento global e à questão ambiental.

Em se tratando dos investidores estrangeiros, a grande verdade é que não é de hoje que essas questões têm sido consideradas nas decisões dos mesmos. Consequentemente, o Brasil já há algum tempo deixa de ser atrativo, perdendo a oportunidade de receber esses investimentos e abrir mercados que giram centenas de bilhões de dólares.

Indo além, os dados recentes que indicam níveis recordes de queimadas na Amazônia e no Pantanal colocam o Brasil em uma situação ainda mais difícil.

Segundo dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Amazônia em agosto permaneceu em níveis elevados, com uma área de 1.359 km² sob alerta de desmatamento no mês, a segunda maior em cinco anos. Comparado ao mesmo mês de 2019, a área foi 21% menor, quando tivemos a marca máxima para o mês, 1.714 km².

Olhando o ano referência, que diz respeito ao desmate acumulado de julho de 2019 a agosto de 2020, houve um aumento de 34% em relação ao período anterior – que também já tinha apresentado um aumento acentuado.

Além da situação na Amazônia, o cenário no Pantanal também preocupa. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), somados todos os incêndios ocorridos no Pantanal desde o início do ano, 2020 já é o ano com mais queimadas desde 1998 – em menos de nove meses, o bioma chega a 16 mil focos, número este que se compara com 12,5 mil em 2002, ano que até então liderava com o maior número de registros.

Os desdobramentos ambientais do Brasil se destacam negativamente em meio à um movimento global de maior foco dos investidores nas questões ambientais, sociais e de governança. Vale mencionar que o atual cenário do país está tornando cada vez mais difícil para empresas e investidores atenderem a seus critérios ESG, o que, além de não ajudar na atração de novos investimentos, acaba impulsionando a fuga de capital estrangeiro que estava alocado no Brasil. De acordo com dados publicados pela B3, em 2020, os investidores estrangeiros já retiraram R$88,9 bilhões* do mercado acionário brasileiro.

* Dados até 23/set/20

Dito isso, uma eleição de Biden poderia levar os EUA a adotarem uma postura mais rígida em relação ao Brasil, pressionando por ação e mudança, o que impulsionaria a agenda ESG como um todo no país, além de direcionar o Brasil a colocar as questões relacionadas à responsabilidade sócio-ambiental e de governança em primeiro plano, sendo essa uma uma condição sine qua non para o estrangeiro vir. Mesmo na hipótese de o governo brasileiro pouco ceder às pressões, os possíveis boicotes ou sanções ao país impactariam as empresas cujas práticas vão na contramão dos princípios ESG, enquanto que as companhias que colocam essa pauta em primeiro plano continuariam sendo as melhores escolhas para os investimentos. Nesse sentido, reforçamos a nossa visão de que as empresas que não se adaptarem a este novo cenário ficarão para trás.

Mesmo se o cenário mais adverso não chegasse a se concretizar, de forma que boicotes ou sanções contra o Brasil não fossem impostas, a ameaça e possíveis tensões entre o governo brasileiro e o americano seriam mais variáveis negativas a contemplar num cenário em que o Brasil já sofre com os desdobramentos da pandemia e preocupações fiscais.





Atualmente, apesar da queda brusca das transações diante da pandemia do COVID-19, os Estados Unidos ainda são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com 9,7% das exportações e 12,3% da corrente total de comércio.

No entanto, vale destacar que as relações diplomáticas e comerciais entre os países são sólidas e de longa-data, e devem resistir possíveis tensões presidenciais. Nessa linha, o governo de Jair Bolsonaro, que tem claro alinhamento ideológico com Donald Trump, já manifestou publicamente que está disposto a trabalhar ao lado de um governo americano liderado pelo partido democrata.

Por outro lado, na hipótese de uma vitória de Trump, conforme mencionamos anteriormente, o tema não é prioridade para o atual presidente e, portanto, não esperamos mudanças no posicionamento do país frente às políticas ambientais brasileiras.

Não obstante, a evolução da agenda ESG não é uma pauta impulsionada apenas por governos, mas também pela iniciativa privada, que tem gradualmente assumido a frente do debate. Sem dúvidas, ainda estamos no início dessa jornada quando comparado a outros locais do mundo, como inclusive os Estados Unidos, mas acreditamos que o movimento visto globalmente frente ao interesse cada vez maior na temática ESG nos dá um bom indício do que está por vir no Brasil.

O fato de já estarmos vendo um movimento tanto das gestoras, quanto das empresas em direção à evolução dessa agenda, seja via a consideração de tais critérios nos investimentos ou a adoção de melhores práticas ambientais, sociais e de governança, reforça nossa visão de que o tema tem ganhado cada vez mais tração no país, ainda que o governo não a coloque como pauta prioritária, o que também não deve vir a ser uma realidade no caso da eleição de Trump.

Seja Biden ou Trump, esperamos que ESG ganhe cada vez mais tração adiante

Conclusão: Em suma, em nossa visão uma vitória democrata e consequente eleição de Biden como novo presidente da maior economia do mundo impulsionaria a agenda ESG ainda mais, tanto nos Estados Unidos, quanto no Brasil, ao mesmo tempo em que é de se esperar que o país enfrente pressões caso esse cenário se concretize.

Já na hipótese de uma vitória de Trump, dado que o tema não é prioridade para o atual presidente, não esperamos mudanças na direção das políticas ambientais do governo americano, nem tampouco no posicionamento do país frente às políticas brasileiras.

Contudo, destacamos que temos visto uma evolução importante da agenda ESG nos últimos anos nos EUA, ao mesmo tempo em que o tema começa a ganhar cada vez mais tração no Brasil, ainda que ambos os governos não o coloque como pauta prioritária.

Isso posto, embora reconhecemos o relevante papel do governo em impulsioná-la, cada vez mais os próprios investidores, as empresas e a sociedade em geral têm assumido o protagonismo no fomento de valores ambientais, sociais e de governança, o que nos permite acreditar que esse movimento deve somente se intensificar adiante, mesmo na hipótese de uma vitória de Trump.


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