TBT: como a greve dos caminhoneiros de 2018 afetou a economia

O noticiário sobre uma potencial greve dos caminhoneiros nos faz lembrar dos impactos sofridos pela economia brasileira em 2018! Produção industrial e inflação foram os mais afetados, e o PIB certamente não foi o que poderia ter sido.


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Mal viramos a página de 2020, e o noticiário político-econômico já está aquecido por diferentes pautas no cenário internacional e doméstico, incluindo um processo de impeachment contra Donald Trump, um novo pacote de estímulos fiscais nos EUA, a campanha de vacinação ao redor do mundo, e as eleições para presidentes da Câmara e do Senado no Brasil.

Chamou atenção aqui no Brasil também sinalizações sobre uma potencial greve por parte de caminhoneiros, diante do recente aumento do preço do diesel – por sua vez, ligado ao movimento internacional dos preços de petróleo, e da desvalorização da moeda brasileira – e de insatisfações acerca de demandas que não saíram do papel desde a última greve da categoria em 2018.

Apesar de as mobilizações até então parecerem ainda distantes da materialização no próximo 1 de fevereiro (data por ora ventilada como da potencial greve), vale lembrar da última greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, e como a paralização rodoviária do país por 10 dias afetou a economia brasileira naquele período.

A Greve dos caminhoneiros e a economia em 2018

A greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, durou 10 dias e provocou uma abrupta interrupção do fornecimento de bens e insumos básicos da economia. Por alguns dias, as cidades esvaziaram, por falta de combustível em postos de gasolina. O impacto na economia foi imediato, tanto na inflação quanto no PIB. O célere equacionamento do problema fez com que o parte do impacto da inflação fosse temporário: a forte alta em junho foi compensada por alguma deflação em agosto. O impacto da atividade, em particular na indústria de transformação, foi mais permanente: a mediana das projeções de crescimento do PIB antes em abril de 2018 era 2,8%. O PIB acabou crescendo apenas 1,2% (resultado revisado recentemente para 1,8%). Parte da decepção do crescimento pode estar relacionada às incertezas eleitorais daquele ano. Mas a maior parte da queda das expectativas veio com a greve, e a perda não recuperada da produção naquele período.  

Inflação: forte alta temporária, parcialmente compensada logo depois

A abrupta redução do transporte de bens e insumos provocou um salto nos preços captado no IPCA de junho. A projeção do IPCA de junho era de 0,22% em abril daquele ano. O resultado final foi 1,26% (gráfico). O resultado de julho também ficou um pouco mais alto do que o esperado inicialmente, em 0,33% (vs. 0,22% projetado  em abril). O IPCA acumulado em 12 meses passou de 2,76% em abril daquele ano para 2,85% em maio e 4,39% em junho.

Os principais componentes do IPCA de junho afetados pela greve foram Transportes, Alimentação e Habitação (gráfico abaixo). Em transportes, destaque para insumos como gasolina (+5,0%) e etanol (4,2%). No grupo de alimentação, os produtos mais perecíveis, como tubérculos (5,1%), carnes (4,6%) e leite (8,2%) foram os mais  afetados (como consequência da impossibilidade temporária de reposição em muitos supermercados). Habitação foi afetada por gás de cozinha (4,1%) e energia elétrica (7,9%) .

Por outro lado, como os fluxos foram rapidamente re-estabelecidos após a greve, parte da alta de junho foi devolvida, afetando o IPCA de agosto. O resultado do mês ficou em -0,09%, frente a 0,19% projetado em abril.  

Ainda assim, houve um impacto líquido positivo na inflação daquele ano. A projeção  para o ano fechado subiu de 3,5% em abril para 4,40% em outubro. A inflação daquele ano acabou fechando em 3,75% (o IPCA de novembro e dezembro  daquele ano acabaram surpreendendo para baixo por conta da queda dos preços internacionais da gasolina e da apreciação do BRL após as eleições presidenciais).

Atividade: indústria retomou ritmo de produção, mas não compensou perdas

Durante a greve dos caminhoneiros, o setor da economia que mais sentiu foi a indústria. A falta de entrega de insumos e de bens finais provocou uma queda de 3,4% da indústria de transformação entre abril e junho de 2018. Os setores que mais sentiram foram informática, equipamentos de transportes e bebidas – além da categoria “diversos” (Tabela abaixo). A retomada foi heterogênea, com cerca de metade dos setores voltando (ou superando) o nível pré-greve seis meses depois.

No setor de serviços, o impacto foi muito forte dado o peso dos serviços de transporte. Mas pouco se espalhou para outros setores. A PMS recuou quase 5% em maio, mas em junho já havia superado o patamar pré-crise, com o fim da greve (gráfico abaixo).

Apesar da retomada pós-greve, a perda de produto durante aqueles meses foi permanente. A mediana das projeções de crescimento do PIB antes em abril de 2018 era 2,8%. No  final do primeiro semestre, a projeção havia recuado para 1,55% (gráfico abaixo). O PIB acabou crescendo apenas 1,2% (resultado revisado recentemente para 1,8%). Ainda que parte desta decepção esteja associada às incertezas eleitorais daquele ano, a greve parece mesmo ter sido a principal responsável pelo crescimento menor.

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