Conforme divulgado pelo IBGE, o IPCA de julho avançou 0,07% na comparação mensal, acima da nossa projeção de -0,02% e do consenso Bloomberg de 0,01%. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,64% em junho para 4,44% em julho.
A leitura interrompeu a sequência recente de surpresas baixistas. No entanto, o desvio em relação à nossa projeção ficou concentrado em itens mais voláteis, especialmente higiene pessoal, com contribuição de 0,04 p.p., e alimentação no domicílio, com impacto de 0,03 p.p.. De forma mais ampla, as medidas de núcleo continuaram mostrando moderação em termos sequenciais, em linha com nossa expectativa.
Por ora, mantemos nossa projeção para o IPCA de 5,1% em 2026 e 4,2% em 2027.
Meta de inflação: o que é?
O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária – a política responsável pelo controle da quantidade de moeda em determinada economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.
Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que se mantenha no ritmo de 3,00%.
O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 pontos percentuais para cima e para baixo. Essa “banda” serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma pandemia que derrube os preços.
Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar uma carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.
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Serviços surpreendem para cima, com grande pressão em componentes intensivos em trabalho
Os serviços subjacentes avançaram 0,42% no mês, acima da nossa projeção de 0,32%. O agregado mais amplo de serviços, por sua vez, subiu 0,54%, também acima da nossa expectativa de 0,42%.
Apesar da surpresa mensal, as métricas de tendência seguiram apresentando melhora. O 3M SAAR — média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada — dos serviços subjacentes recuou de 4,73% em junho para 4,52% em julho, enquanto a inflação acumulada em 12 meses caiu de 5,00% para 4,92%. As principais surpresas altistas vieram de serviços de transporte e recreação, categorias tradicionalmente mais voláteis.
Os serviços intensivos em trabalho subiram 0,47% no mês, ligeiramente abaixo da nossa projeção de 0,52%. Seu 3M SAAR moderou de 7,52% para 7,08%, mas a taxa acumulada em 12 meses avançou de 7,13% para 7,29%.
Assim, a inflação de serviços permanece heterogênea. As medidas mais amplas e subjacentes seguem melhorando na margem, mas os componentes mais sensíveis às condições do mercado de trabalho continuam pressionados. A permanência dos serviços intensivos em trabalho acima de 7% tanto no 3M SAAR quanto na comparação anual indica que a demanda doméstica e o mercado de trabalho ainda apertado seguem sustentando a inércia inflacionária nesses itens.
Bens industrializados mantêm trajetória de desinflação
Os preços de bens industrializados caíram 0,10% no mês, resultado acima da nossa expectativa de queda de 0,19%. Ainda assim, as medidas de tendência continuaram favoráveis: o 3M SAAR do grupo recuou de 3,58% em junho para 2,50% em julho, enquanto a inflação em 12 meses cedeu de 2,74% para 2,68%.
Os bens industrializados subjacentes – excluem automóveis e linha branca – ficaram estáveis no mês, acima da nossa projeção de queda de 0,17%. O principal fator por trás do desvio foi a alta dos preços de higiene pessoal, a maior surpresa altista em relação às nossas projeções.
Apesar disso, a tendência subjacente continuou melhorando. O 3M SAAR dos industriais subjacentes caiu de 5,83% para 4,95%, enquanto a taxa acumulada em 12 meses recuou de 4,14% para 4,08% — o primeiro alívio após vários meses de deterioração. Dada a volatilidade da categoria de higiene pessoal, interpretamos a surpresa de julho como um ruído pontual, e não como uma mudança na trajetória de desinflação do grupo.
Núcleos e difusão reforçam a moderação
A média das medidas de núcleo de inflação, que excluem itens mais voláteis, subiu 0,26% no mês, acima da nossa estimativa de 0,13%. Ainda assim, os indicadores de tendência mostraram nova melhora: segundo nossos cálculos, o 3M SAAR dos núcleos recuou de 4,90% para 4,56%, enquanto a inflação acumulada em 12 meses cedeu de 4,46% para 4,44%.
O núcleo EX3, que reúne serviços e bens industrializados subjacentes, também apresentou melhora. Sua taxa em 12 meses recuou de 4,64% para 4,57%, e seu 3M SAAR caiu de 5,26% para 4,75%. É um bom sinal, uma vez que tal núcleo tem maior correlação com a atividade econômica e vinha de altas relevantes nos últimos meses.
A difusão — indicador que mede a proporção de itens da cesta com aumento de preços — recuou de 54% em junho para 50% em julho. Esse movimento reforça a avaliação de que a moderação da inflação não está restrita a um pequeno conjunto de itens, embora as leituras em 12 meses ainda permaneçam elevadas.

Alimentos surpreendem para cima; administrados ficam em linha com o esperado
Os preços de alimentação no domicílio caíram 1,14% no mês, uma queda menos intensa do que a esperada por nós, de 1,31%. As surpresas altistas concentraram-se em frutas, carnes e bebidas, parcialmente compensadas por quedas mais acentuadas em tubérculos, raízes, legumes e panificados.
Os preços administrados subiram 0,27% em julho, praticamente em linha com nossa projeção de 0,28%. As tarifas de energia elétrica avançaram 3,09%, acima da expectativa de 2,66%. Em sentido contrário, a gasolina caiu 1,37% no mês, queda mais intensa do que a projetada, de 1,06%, reforçando a contribuição desinflacionária do grupo de transportes. Mesmo com o petróleo em patamar elevado, o etanol misturado à gasolina cedeu fortemente no ano, explicando mais uma deflação mensal.

Nossa visão
O IPCA de julho veio acima do esperado e interrompeu a sequência recente de surpresas baixistas. No entanto, a composição do resultado não foi tão ruim quanto a surpresa na inflação cheia indica: o desvio altista ficou concentrado em componentes mais voláteis, como alimentação no domicílio e higiene pessoal, enquanto os núcleos de inflação moderaram em termos sequenciais e a difusão continuou recuando.
A principal fonte de cautela segue sendo a inflação de serviços intensivos em trabalho, que permanece elevada e reflete a resiliência da demanda doméstica e as condições ainda apertadas do mercado de trabalho.
Mantemos nossas projeções de 5,1% para o IPCA de 2026 e 4,2% para 2027. No campo da política monetária, esperamos que a Selic encerre o ano em 14,00%. A combinação de inflação mais benigna na margem e sinais de desaceleração da atividade sustenta um ambiente mais favorável para uma possível continuidade do ciclo de cortes pelo Copom, ainda que a persistência dos serviços recomende cautela quanto ao ritmo de flexibilização.
Como se proteger da alta de preços?
Como vimos, a inflação segue como um dos principais motivos de cautela e atenção para a economia brasileira. Assim, proteger seu patrimônio contra a alta de preços se torna ainda mais essencial.
Títulos indexados à inflação (como o título público NTN-B 2030), emissões bancárias de instituições sólidas e com boa classificação de risco, debêntures incentivadas (sem cobrança de Imposto de Renda ao investidor) e fundos de investimento com gestão ativa em renda fixa são ótimas alternativas. Falamos mais das melhores oportunidades de renda fixa aqui.
Outra classe de ativos que pode ajudar o investidor a se proteger da inflação são os fundos imobiliários. Apesar de estarem sofrendo diante de expectativas de juros mais altos adiante, os FIIs podem ser aliados do investidor em um cenário cauteloso de alta de preços, por serem muitas vezes atrelados a índices de inflação. Aqui te indicamos nossa carteira recomendada de Fundos Imobiliários.
Mas não só de proteção contra a inflação devem viver os investimentos nesse momento. Por isso, confira o detalhe das nossas recomendações de investimento atualizadas de acordo com o seu perfil de investidor no “Onde Investir”
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