Resumo
Com a troca de ataques entre Estados Unidos e Irã, as tensões no Oriente Médio voltaram a subir. A reescalada do conflito elevou, ainda que moderadamente, o preço do petróleo. O quadro reacende preocupações sobre a oferta global da commodity e a inflação internacional.
Com relação aos indicadores, a inflação ao produtor na Ásia acelerou, ainda refletindo preços elevados das commodities e a maior demanda por componentes tecnológicos. Nos Estados Unidos, a ata da última reunião de política monetária do banco central mostrou aumento da preocupação dos diretores com a inflação.
No Brasil, o IPCA de junho veio abaixo do esperado. Também divulgamos o relatório Brasil Macro Mensal de julho, com revisão para baixo da nossa projeção para o IPCA deste ano. A inflação menos pressionada no curto prazo reforça a expectativa de corte de 0,25 p.p. na Selic em agosto. Mas os fundamentos ainda desfavoráveis sugerem pausa após esse movimento.
No campo político, a proposta de tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entrou em discussão nesta semana, e a decisão deve ser anunciada em breve. Ainda assim, avaliamos que o impacto macroeconômico sobre o Brasil deve ser limitado.
Gráfico da Semana

Cenário Internacional
Escalada geopolítica pressiona petróleo e reacende cautela com inflação global
O noticiário global foi dominado pela escalada entre Estados Unidos e Irã. Donald Trump recrudesceu seu discurso contra o Irã, realizou novos ataques e recolocou sanções às exportações de petróleo iraniano. A escalada veio em resposta a ofensivas contra embarcações comerciais de países ocidentais no Estreito de Ormuz. Na sequência, o Irã atacou ativos americanos em países do Golfo e afirmou que a normalização do tráfego marítimo dependerá de suas próprias condições.
Entidades do setor reportaram que o fluxo de embarcações pelo Ormuz caiu para cerca de 30 navios por dia, bem abaixo dos níveis observados antes do conflito. O preço do petróleo Brent voltou para patamares próximos a 77 dólares por barril. O quadro reacende preocupações sobre a oferta global de petróleo e a inflação internacional.
Membros do Fed registram maior preocupação com a inflação
A ata da última reunião de política monetária do Fed (banco central dos Estados Unidos) mostrou aumento da preocupação dos diretores com a inflação, em meio a sinais de que as pressões de preços vêm se tornando mais disseminadas. Alguns participantes já viam argumentos para elevar os juros nesta última reunião, embora o Comitê tenha decidido manter a taxa inalterada na faixa de 3,50% a 3,75%. O documento também retirou a sinalização mais explícita sobre o próximo movimento de juros. Após assumir a presidência, Warsh optou por encurtar a comunicação, em linha com sua estratégia de reduzir o uso de orientações prospectivas.
Nesse contexto de mudanças, o Fed também anunciou cinco forças-tarefa nesta semana, voltadas à revisão de aspectos centrais da política monetária, incluindo comunicação, produtividade, uso de dados e modelos de inflação. Entre os integrantes estão Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil, e Mervyn King, ex-presidente do Banco da Inglaterra, que participarão do grupo dedicado à comunicação. Os trabalhos devem ser concluídos até o fim do ano e poderão resultar em recomendações para aperfeiçoar o processo decisório do Fed, reforçando a leitura de que a instituição busca tornar sua reação mais flexível em um ambiente de inflação mais incerta e menos previsível.
Inflação ao produtor segue em alta, refletindo preços altos de commodities e a demanda por componentes tecnológicos
Dados de preços ao produtor (PPI) reforçaram a leitura de aumento das pressões de custos na indústria. Na China, o PPI avançou 4,1% em junho na comparação anual, acima dos 3,9% de maio e no maior ritmo desde julho de 2022, refletindo a alta de preços em setores ligados a energia, equipamentos elétricos, eletrônicos e metais. O movimento combina os efeitos da escalada geopolítica sobre commodities com a demanda ainda forte por componentes tecnológicos ligados à inteligência artificial. No Japão, o PPI subiu 7,1% em junho na comparação anual, no ritmo mais forte desde o início de 2023, sinalizando intensificação das pressões sobre os custos de insumos das empresas.
Em conjunto, os números sugerem que o choque de custos segue disseminado na região, ainda que com implicações distintas: na China, o repasse ao consumidor continua limitado pela fraqueza da demanda doméstica, enquanto no Japão o dado reforça os argumentos para que o Banco do Japão mantenha a trajetória de alta de juros.
FMI revisa para baixo a projeção para o crescimento global em 2026
O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para baixo sua projeção de PIB global de 2026, de 3,1% para 3,0%, citando riscos associados à guerra no Oriente Médio, à fragmentação do comércio e a possíveis correções nas expectativas ligadas à inteligência artificial. O FMI também elevou a projeção de inflação global de 4,4% para 4,7% em 2026, destacando que os preços de energia seguem acima dos níveis observados antes do início da guerra. Apesar disso, o FMI avaliou que a economia global tem resistido melhor do que o esperado ao choque, apoiada pela demanda do setor de tecnologia, pela liberação de reservas estratégicas e pela adaptação das cadeias de suprimentos.
Enquanto isso, no Brasil…
Revisamos nossa projeção para o IPCA de 2026 para 5,2% após queda do petróleo, mas mantemos cautela com a Selic
Publicamos nesta semana nosso relatório mensal de cenário “Brasil Macro Mensal: Queda do petróleo reduz, mas não elimina riscos inflacionários”. Desde o acordo de paz no Oriente Médio, o preço do petróleo recuou mais do que esperávamos. Desta forma, mudamos nossa premissa para o preço do petróleo Brent no segundo semestre de 85 para 75 dólares por barril. Isso diminui um pouco as exportações e as receitas fiscais brasileiras. Mas reduz também parte das pressões inflacionárias de curto prazo. Tornam-se menores as chances de o Fed (banco central dos Estados Unidos) elevar juros este ano, o que reforça que o Copom reduzirá mais uma vez a Selic em 0,25 p.p. antes de uma pausa para avaliação. Diante desse cenário, reduzimos um pouco a projeção da inflação do IPCA deste ano de 5,5% para 5,2%. Dito isso, outras pressões inflacionárias continuam, como a alta global dos insumos de tecnologia, os efeitos do fenômeno climático El Niño e a demanda interna turbinada por estímulos fiscais e parafiscais.
Inflação em junho mais baixa do que o esperado
O IPCA de junho avançou 0,16% na comparação mensal, abaixo da nossa projeção (0,32%) e do consenso de mercado (0,31%). Com isso, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,72% em maio para 4,64% em junho. Em relação às nossas projeções, as principais surpresas baixistas vieram dos grupos de alimentação. Os mercados reagiram bem ao dado e a curva de juros cedeu. Além disso, a probabilidade precificada de corte de 0,25 p.p. na taxa Selic na próxima reunião do Copom subiu para 85%.
No geral, o dado melhora a leitura de curtíssimo prazo da inflação cheia, mas não altera de forma substancial a avaliação de que o processo subjacente de desinflação segue lento e incompleto. Mantemos, por ora, nossa projeção para o IPCA de 2026 em 5,2% e para 2027 em 4,2%.
Câmara dos Deputados aprova subsídio para o diesel como resposta à pressão inflacionária nos combustíveis
A Câmara dos Deputados aprovou, sem alterações, a Medida Provisória que abre crédito extraordinário de R$ 10 bilhões para subsidiar o diesel, em resposta à alta dos preços internacionais de combustíveis associada à escalada no Oriente Médio. O programa havia sido iniciado em março e foi reforçado em abril, após o agravamento das tensões geopolíticas, com ressarcimento de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores aderentes. A medida busca amortecer o repasse do choque externo sobre um insumo central para a economia brasileira, dado que o diesel responde por quase 100% do transporte público e cerca de 80% do transporte de cargas, reduzindo riscos para a inflação e o abastecimento. O texto ainda segue para análise do Senado.
Decisão sobre tarifas de 25% ao Brasil será anunciada em breve
Foi iniciada nesta semana a audiência pública do USTR (Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos) sobre a proposta de tarifa adicional de 25% a produtos brasileiros, aberta com base na Seção 301 da legislação americana — que alega práticas “irracionais” ou restritivas nas áreas de comércio digital e meios de pagamento (como o Pix), propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento. Segundo a CNN Brasil, o governo brasileiro vê pouca margem para reverter a medida. O principal argumento é que os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o país, o que enfraquece a justificativa para medidas punitivas. Em depoimento, Jamieson Greer, representante do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, sinalizou que a decisão será divulgada “muito em breve”.
Acreditamos que o impacto macroeconômico agregado sobre o Brasil deve ser limitado. Os Estados Unidos respondem por 10,8% das exportações brasileiras — participação que recuou em 2025 após o choque tarifário. Adicionalmente, as exportações totais do Brasil atingiram um recorde no ano passado, à medida que os produtores redirecionaram volumes para outros destinos. Para detalhes, leia “EUA propõem novas tarifas sobre produtos exportados brasileiros”.
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Destaques da próxima semana
No cenário internacional, destaque para os índices de inflação ao produtor e consumidor de junho nos Estados Unidos. Ainda por lá, serão divulgados os indicadores de vendas no varejo e produção industrial do mesmo mês. Além disso, o Fed – banco central americano – publicará o livro bege, documento que fornece visão abrangente das condições econômicas americanas. Na China, o escritório nacional de estatísticas fornecerá o crescimento do PIB do 2º trimestre, bem como outras métricas da atividade econômica. Por fim, a leitura final de junho para a inflação ao consumidor da zona do euro será divulgada.
No Brasil, o IBGE tornará públicas as vendas varejistas e as receitas do setor de serviços de maio, para as quais esperamos sinais mistos. Além disso, o Banco Central divulgará o IBC-BR do mesmo mês – o índice representa a métrica mensal de atividade econômica da autoridade monetária. Por fim, a Fundação Getúlio Vargas publica o IGP-10 de julho, que deve revelar forte deflação, fruto da queda do petróleo. Veja as nossas projeções abaixo.

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