A alta da inflação veio realmente para ficar?

Ainda que as medidas de inflação estejam pressionadas por mais tempo do que prevíamos inicialmente, os motivos para esse aumento de inflação continuam sendo fatores passageiros que, mais cedo ou mais tarde, devem se dissipar conforme se inicie o ciclo de “normalização” da economia.


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Resumo

Em setembro de 2020, publicamos um relatório onde comentamos que os sucessivos aumentos nos preços dos alimentos (como arroz, carne e leite) vinham causando nos consumidores a impressão – equivocada, ao nosso ver –  de que a inflação poderia estar “saindo dos trilhos” novamente.

Argumentamos que as principais causas para o aumento de inflação naquele momento eram temporárias. Passados os choques principais provocados pela pandemia da COVID-19, as pressões se dissipariam e a inflação retornaria para patamares bem-comportados (o que não significa que os preços cairiam, mas sim que parariam de subir).

Desde então, os índices de inflação continuaram pressionados e mais setores passaram a elevar seus preços. Estávamos errados?

Entendemos que não. Ainda que a alta de preços esteja mais prolongada e espalhada do que esperávamos, há razões para acreditar que o movimento é temporário. Inflação não está, por ora, entre nossas preocupações principais para o Brasil em 2021.

As principais causas para o aumento da inflação

O primeiro passo para conseguirmos responder se os preços devem continuar acelerando nos próximos meses é identificarmos as causas principais para o aumento da inflação.

Será que os ajustes nos preços têm sido provocados por fatores pontuais e passageiros? Ou será que a demanda agregada da economia está acima de sua capacidade de oferta, levando a um aumento de preços sistemático e disseminado, caracterizando efetivamente um processo inflacionário?

Elencamos as principais causas da alta recente nos índices de inflação:

1: Alta da demanda internacional de alimentos

Nos últimos meses, nos deparamos com preços cada vez mais altos nos supermercados, especialmente de alimentos e bebidas. Exemplos disso são as carnes (IPCA de 17,97% em 2020), o arroz (75,99%), o feijão fradinho (38,05%), o leite longa vida (26,93%) e o óleo de soja (103,78%).

Esses aumentos podem ser explicados por diversas razões. Existem as questões climáticas, que todos os anos acabam interferindo nas safras, mas que em 2020 acabaram interferindo de forma mais severa em meio aos efeitos do La Niña (resfriamento das temperaturas médias das águas do Oceano Pacífico que, em determinadas regiões causam mais chuvas e, em outras, mais períodos de seca). E existem também as questões relacionadas à pandemia, como o aumento da demanda mundial (principalmente da China) por alimentos.

Ambos efeitos nos parecem tem características temporárias.

2: aceleração da demanda doméstica por alimentos e bens de consumo por conta dos programas de transferência de renda do governo

Com o fechamento das atividades econômicas durante a pandemia, muitas pessoas acabaram direcionando parte dos recursos que seriam gastos com serviços para o consumo de bens. As famílias que iam muitas vezes ao restaurante, por exemplo, passaram a consumir mais produtos nos supermercados. Quem costumava ir a salões de beleza, passou a comprar os próprios produtos e a se cuidar sozinho. E quem costumava contratar serviços de pintura, passou a comprar tinta e itens de reparação para fazer pequenas reformas por conta própria.

Essa “substituição” de serviços por bens e a forte injeção de renda dos programas do governo (especialmente o auxílio emergencial), significou um aquecimento muito forte da demanda nacional por bens de consumo. E a consequência mais imediata desse aquecimento foi um descasamento temporário entre oferta e demanda que acabou pressionando os preços.

Esta aceleração da demanda tende a se reverter com o fim do auxílio emergencial e a gradativa normalização da economia.

3: Serviços que reabriram e aproveitaram para recuperar o “tempo perdido”

Nos primeiros meses da pandemia, em meio às medidas de isolamento social mais severas e ao receio de contágio pelo novo coronavírus, diversos serviços foram interrompidos. Bares, restaurantes e salões de beleza, por exemplo, passaram bastante tempo com as portas fechadas, acumulando prejuízos que, mais cedo ou mais tarde, precisariam ser amenizados.

Com a reabertura gradual das atividades econômicas e com o relaxamento das medidas de isolamento social, alguns desses serviços não apenas voltaram a funcionar como aproveitaram para recuperar parcialmente o “tempo perdido”. Com o aumento dos preços dos alimentos, por exemplo, muitos bares e restaurantes também elevaram seus preços, na tentativa de repassar aos consumidores o aumento de custos. Lanches (IPCA de 10,07% em 2020), cafezinhos (8,05%) e conserto de máquina de lavar roupa (7,65%) são exemplos de serviços que, com a reabertura da economia, tornaram-se mais caros em 2020.

Este movimento também tende a acomodar à medida em que os serviços vão reabrindo – ainda que demore mais alguns meses – e a demanda desacelere com o fim dos programas do governo.

4: Desvalorização do Real

Com as turbulências fiscais que caracterizaram o ano de 2020 para o Brasil, o real acabou se desvalorizando bem mais do que as moedas dos demais países emergentes. A consequência disso foi que muitos dos produtos/serviços que possuem em sua linha de produção itens dolarizados tornaram-se mais caros. E ainda que nem todos os produtores tenham conseguido repassar todo esse aumento de custos para os consumidores finais, esse também foi um fator temporário (e condicionado à pandemia e às turbulências fiscais) que acabou contribuindo para o aumento da inflação nos últimos meses.

Prova de que esse também é um fator passageiro é justamente o fato de o real já estar apresentando um movimento gradual de valorização. A moeda, que em meados de 2020 chegou perto dos 6,00 reais por dólar, está mais valorizada hoje, ainda que siga volátil.

5: Antecipação do reajuste da conta de luz

Outros fatores pontuais que também ajudaram a manter a inflação elevada por mais tempo foram a decisão da ANS de recompor os reajustes em 8,14% em novembro, a coleta extra dos preços das mensalidades escolares realizada pelo IBGE em dezembro do ano passado e a reunião extraordinária da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que aprovou a retomada do sistema de bandeiras tarifárias na conta de luz a partir do primeiro dia de dezembro.

Em maio do ano passado, em virtude da pandemia, a Aneel havia decidido manter a bandeira verde (ou seja, sem custo para os consumidores) acionada até o último dia de 2020 e os reajustes eram esperados apenas para 2021. Entretanto, com a queda no nível de armazenamento das hidrelétricas e com a retomada do consumo de energia em meio à reabertura das atividades econômicas, a Aneel decidiu, desde dezembro de 2020, estabelecer a bandeira vermelha 2, que impõe um custo de R$ 6,24 para cada 100 quilowatts-hora consumidos. Dessa forma, o aumento de preços que era esperado apenas para 2021 foi antecipado para o ano passado, o que deve diminuir as pressões sobre a conta de luz nesse ano.

Em suma, os ajustes nos preços nos últimos meses têm sido provocados por fatores pontuais e passageiros. Ainda que os choques durem mais tempo do que esperávamos inicialmente, trazendo certo viés de alta para a nossa projeção de IPCA para 2021 (de 3,5%), a inflação elevada não parece ter vindo para ficar.

Para frente: Ociosidade da economia sugere que a pressão inflacionária vai se dissipar

A normalização da economia deve acontecer de forma mais intensa somente a partir da disseminação em larga escala da vacina contra a COVID-19. Como nós ainda estamos vivendo um período muito atípico, é compreensível que alguns fatores (como os listados no tópico anterior) continuem pressionando as medias de inflação por mais algum tempo. Mas, olhando para frente, a nossa avaliação é de que a pressão inflacionária deve se dissipar.

A demanda agregada está abaixo da capacidade de oferta da economia, pois o desemprego e a ociosidade estão altos. E ainda que alguns setores estejam superaquecidos, esse não parece um movimento disseminado. Já existem sinais, inclusive, de que mesmo quando o auxílio emergencial ainda estava sendo pago, a demanda aquecida por produtos vendidos nos supermercados já vinha perdendo força.

Com o ciclo gradual de normalização da economia, os fatores pontuais que têm pesado sobre as medidas de inflação devem se dissipar em maior ou menor velocidade: 1) as pressões sobre as commodities brasileiras e consequentemente sobre o preço de alimentos e bebidas tendem a diminuir; 2) os serviços ainda não devem conseguir repassar o aumento de custos em sua totalidade aos consumidores, pois o desemprego deve continuar bastante elevado; 3) a redução dos estímulos fiscais e o desemprego elevado devem ajudar a desaquecer a demanda por alimentos e bens de consumo; 4) o real deve retornar a um ritmo gradual de valorização (projetamos 4,90 reais por dólar ao final de 2021) e 5) alguns dos reajustes que aconteceriam em 2021 já foram antecipados para o ano passado.

Conclusão

Em resumo, ainda que as medidas de inflação estejam pressionadas por mais tempo do que prevíamos inicialmente, os motivos para esse aumento de inflação continuam sendo fatores passageiros que, mais cedo ou mais tarde, devem se dissipar conforme se inicie o ciclo de “normalização” da economia.

Isso não quer dizer que os preços vão cair, mas que devem parar de subir (ou subir menos), em média.  

Em suma, passadas as principais “anormalidades” da pandemia, a inflação deve arrefecer de forma gradual, em linha com o quadro geral de ociosidade e desemprego que permanecerão elevados nesse ano. Por isso, ainda que as pressões de curto prazo tragam certo viés de alta para a nossa projeção, continuamos projetando inflação de 3,5% em 2021.

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