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GAFFFF 2026: tecnologia no agro, eficiência no campo e mais; veja os destaques do 1º dia

O Global Agribusiness Festival (GAFFFF) é um evento internacional que debate tendências, inovações e desafios do setor agropecuário; confira os destaques desta quinta-feira (1º)

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GAFFFF 2026
Evento reúne palestrantes e interessados no mundo agro; confira os destaques das palestras abaixo

O Global Agribusiness Festival (GAFFFF), maior ponto de encontro de cultura agro do mundo, começou nesta quinta-feira (1º) em São Paulo. O evento reúne mais de 100 palestrantes, debatendo tendências, inovações e desafios do setor agropecuário.

Inovações, sustentabilidade e competitividade internacional foram alguns dos assuntos em foco hoje. Veja abaixo os destaques dos principais painéis do primeiro dia e confira a programação completa aqui.

Distribuição: crédito, governança e valor

A transformação do papel da distribuição de insumos, em um cenário de maior inadimplência e restrição de crédito foi o tema deste painel, com representantes da Corteva Agriscience, Agro Amazônia e Ponto Rural. Com margens apertadas e maior necessidade de capital de giro, a análise de risco e a concessão disciplinada de crédito ganharam ainda mais relevância para a sustentabilidade do setor.

A governança também ganhou protagonismo, principalmente diante da necessidade de equilibrar crescimento e retorno. A integração entre as áreas comercial e financeira antes da venda, aliada a uma análise mais criteriosa da capacidade de pagamento e das garantias dos produtores, foi apontada como essencial. A diversificação entre culturas e regiões também aparece como alternativa para reduzir a exposição a ciclos específicos.

O papel da distribuição cresce para além da venda de insumos, incorporando crédito, serviços e assistência ao produtor. Com indústria, bancos, fintechs, cooperativas e tradings aumentando o acesso direto ao cliente, a proximidade e o conhecimento da operação do produtor tornam-se diferenciais importantes para que o distribuidor continue gerando valor dentro da cadeia.

Políticas agrícolas e segurança alimentar

O painel, que teve mediação de Roberto Rodrigues, professor da FGVAgro, destacou que o Brasil, que importava 30% da comida há 50 anos, hoje exporta para 200 países e lidera sete commodities globais. Usa só 30% do território para agropecuária e tem 40 milhões de hectares degradados para expandir sem desmatar.

Entre as diversas políticas de apoio ao agro, o Banco Mundial destacou o SAF (1% do combustível de aviação hoje, meta de 30%) e o AgriConnect, que quer integrar 1 milhão de pequenos produtores brasileiros a cadeias globais. No crédito, o BNDES lembrou que o Plano Safra soma R$ 500-600bi/ano e chamou atenção para a linha dólar a exportadores a ~8% a.a. (vs. Selic ~14%), que saltou de R$ 1 bi para R$ 5 bi/ano. O IICA reforçou o Brasil como referência em política agrícola (ABC+, ZARC) e lançou novo marco de seguro rural.

No fechamento, os painelistas concordaram que o Brasil já é reconhecido no cenário global por sua importância na segurança alimentar. Ainda assim, precisa levar crédito, seguro e assistência técnica aos pequenos produtores e sustentar a narrativa de expansão sobre áreas degradadas. O ministro encerrou colocando o Brasil como candidato a campeão mundial de segurança alimentar e energia.

O novo normal do agronegócio: inovação, colaboração e transformação

O painel discutiu os desafios e oportunidades do agronegócio diante de um novo cenário geopolítico, econômico, climático e tecnológico. Brook Cunningham, da Corteva Agriscience, destacou que o setor vive uma transformação estrutural, com a transição entre gerações como um dos desafios para preservar conhecimentos e, ao mesmo tempo, incorporar novas práticas e tecnologias.

A colaboração foi apontada como essencial para o desenvolvimento do ecossistema agrícola. Guilherme Scheffer falou sobre a troca de conhecimento entre produtores, pesquisadores e empresas e os investimentos da Scheffer em dados e inteligência artificial. A integração com empresas de tecnologia e produtores de diferentes regiões e sistemas produtivos foi apontada como importante para ampliar o uso de inteligência artificial no campo.

A inovação é parte da parte central da estratégia da Corteva, com cerca de US$ 11 bilhões em planos para novas substâncias nos próximos anos, além de parcerias e investimentos em empresas em estágio inicial. Cunningham ressaltou ainda a importância de integrar diferentes soluções, como químicos e biológicos, para melhorar a saúde das plantas e a produtividade.

O painel também abordou a relação entre o agro e a sociedade. Scheffer apresentou o Projeto Gente, iniciativa com cerca de 40 empresas voltada à melhoria da educação pública e da eficiência do setor público em Mato Grosso.

Do campo ao mercado global: estratégias de crescimento e consolidação

O Grupo Campanelli nasceu em 1982 como S.A. familiar com governança formal, décadas antes de o setor agro amadurecer. Saiu da laranja para cana e pecuária num phase-out de 17 anos. Hoje, tem 20 mil ha de cana integrados à pecuária via economia circular e ~60 mil cabeças estáticas em confinamento. Mantém o maior centro de pesquisa pecuária da América Latina dentro da fazenda e a Tecnobife, sua empresa de nutrição. Victor Campanelli, CEO da empresa, foi um dos palestrantes desta quinta-feira no GAFFFF.

Sobre o ciclo pecuário, Victor vê o problema dos EUA como estrutural, não cíclico: para ele, falta sucessão, a cria tem pouca escala e a mão de obra é imigrante, com plantas fechando em definitivo. Com demanda de proteína em alta, inclusive puxada por GLP-1, e pouca capacidade de expansão nos demais produtores, o Brasil vira a exceção. O país tem o dobro do rebanho americano com a mesma produção. O CEO projeta a arroba a US$ 80, convergindo com os vizinhos. O contraponto é que 70% da carne é consumida internamente, com demanda elástica a preço.

Na terminação, preço alto não é sinônimo de lucro: com arroba a R$ 400, o capital imobilizado dobra. O boi magro é 70% do custo, e o desafio é comprar insumos na hora certa, não montar a infraestrutura. Por isso, o retorno sobre capital investido é o indicador central, ainda pouco usado pelo setor. O grupo decide tudo com dados e IA, incluindo o ponto ótimo de abate. Para o pequeno produtor, o conselho é começar pelo básico: pesar o gado e medir o retorno.

Geopolítica e comércio agro: a nova regulação global dos mercados

O painel reuniu Pablo Ibanez, professor da UFRRJ, e representantes da Agroicone e da ABPA. A discussão apontou que o agro brasileiro deixou de ser passageiro e passou a ocupar a cabine de comando. Por sua importância estratégica e comercial, o setor entrou no centro das discussões políticas e virou fator de estabilidade dos países. A nova regulação global busca, entre outros objetivos, ampliar a rastreabilidade dos produtos, enquanto conflitos internacionais alteram os fluxos de alimentos e levam os países a tratar o risco de fome como instrumento de política. Entender esse novo desenho é essencial para o Brasil preservar mercados e ampliar seu comércio.

Vivemos um momento disruptivo: a hegemonia dos EUA é ameaçada pela China, cujos gastos em tecnologia e inovação já se aproximam dos americanos. Os chineses misturam geopolítica e economia, como na Nova Rota da Seda, e tratam a produção de alimentos como segurança nacional. Os EUA respondem de forma abrupta, e o multilateralismo perde espaço, o que prejudica o Brasil. Crescem o bilateralismo e a política industrial, e o comércio passa por um processo de securitização, com subsídios mascarados como tecnológicos. Países que não decidem as regras, como o Brasil, sofrem mais, sobretudo com exigências fitossanitárias e ambientais cada vez mais pesadas.

Para os palestrantes, as tarifas dos Estados Unidos e as regras ambientais impostas pela União Europeia pesam sobre o agro. Mesmo após a saída de Trump, o multilateralismo deve seguir afetado e o uso de alimentos como arma deve continuar. O ideal seria a complementaridade, mas muitos países temem a força do agro brasileiro. Há algo maior em jogo: 3 bilhões de pessoas não atingem o consumo médio de proteínas, e não deveria haver fronteiras para alimentos. O crescimento sustentável da produção passa pelo Brasil, aberto a parcerias.

Grãos no cenário global: inovação, produtividade e competitividade

O painel discutiu as perspectivas para o mercado global de grãos, destacando uma recuperação dos preços das commodities agrícolas em 2026, com possibilidade de continuidade em 2027. A redução da oferta de milho e trigo nos Estados Unidos e na Europa vem pressionando os estoques globais, enquanto o crescimento do consumo supera a expansão da produção em algumas culturas. No Brasil, além dos riscos climáticos associados ao El Niño, juros elevados, volatilidade cambial e carga tributária seguem adicionando complexidade ao produtor.

A competitividade brasileira foi associada à combinação entre expansão de área, ganhos de produtividade e maior adoção de tecnologia. O avanço do milho segunda safra e da indústria de etanol de milho em Mato Grosso foi citado como exemplo dessa transformação, agregando valor à produção regional e ampliando a relevância econômica da cultura.

Por fim, sustentabilidade e rastreabilidade aparecem cada vez mais como requisitos para acesso aos mercados internacionais, incentivando produtores a adotar novas tecnologias e certificações. O principal desafio, porém, está no custo dessa adaptação: embora compradores demandem padrões ambientais mais elevados, ainda existe uma discussão sobre até que ponto o mercado está disposto a remunerar o produtor pelo custo adicional de uma produção mais sustentável.

Liderança feminina e a luta climática

Mary Robinson, fundadora e presidente da Fundação Mary Robinson – Justiça Climática (MRFCJ), foi um dos destaques do GAFFFF nesta quinta-feira. Mary, que já foi alta comissária dos Direitos Humanos, defendeu a necessidade de líderes assumirem compromissos de longo prazo e de empatia com os diferentes efeitos climáticos nos países.

Ocupando o palco principal do evento, Mary destacou que o problema da energia limpa “é que é muito cara”. Segundo ela, o mundo subsidia combustíveis fósseis, mas deixa de subsidiar a energia limpa. A política irlandesa levantou também que é necessário empoderar jovens e aumentar a liderança feminina. “Igualdade de gênero inclui o que é chamado de paridade. A paridade significa que 50% do mundo seria liderado por mulheres.”

As Nações Unidas declararam 2026 o Ano Internacional da Mulher Agricultora (IYWF 2026). O ano destaca o papel essencial que as mulheres desempenham em todos os sistemas agroalimentares, da produção ao comércio. “As mulheres agricultoras estão em minoria, mas esse é o ano delas. Elas recebem menos de 1% do financiamento climático”, destacou.

Mary, que foi a primeira mulher a presidir a Irlanda, ainda deu lições de vida durante sua palestra. Para ela, as lideranças femininas devem persistir, apesar de eventuais ataques externos. “Ser presidente me deu noção da importância de ter mulheres à mesa”, afirmou.

Pecuária de alto desempenho: tecnologia na cadeia de proteína animal

De 1990 para cá, a produção de carne brasileira mais que dobrou, enquanto o rebanho cresceu só 40%. O confinamento + TIP saltou de 8% para 23,5% do abate, embora ainda responda por apenas 8–9% da carne em peso. Ainda há um gap de ~150 kg de carcaça frente aos EUA (~300 vs. ~450 kg), atribuído a genética e nutrição.

O painel reuniu Rafael Harada (Rural), André Perrone (CMA), Felipe Bortolotto (Nutron) e Pedro Terêncio (Campanelli). Eles apontaram a digitalização da gestão como a maior transformação recente, seguida de brinco RFID, automação de cocho, drones, termografia e bolus de pH ruminal.

O setor é muito heterogêneo. 85% do rebanho está em propriedades abaixo de 100 ha, a produtividade varia de 1 a 100@/ha/ano e a pecuária segue ~20 anos atrás da agricultura em tecnologia. Na base da pirâmide, divisão de pasto e correção de solo já trazem grandes ganhos. No topo, o desafio é usar de verdade os dados que já existem. O produtor brasileiro testa inovação mais rápido que o americano.

O tema mais novo foi o boi como garantia de crédito. Os painelistas disseram que o rastreamento já viabiliza isso tecnicamente, mas que falta alinhar com os bancos e superar o histórico de irregularidades. Como o custo de capital pesa no confinamento, isso reduziria a barreira de entrada. Entre as tecnologias subestimadas, citaram genética, imagens e analytics. A visão para 2035 é de uma pecuária vencedora em produtividade e confiável em reputação.

Grãos e insumos: eficiência e precisão do campo à origem

O painel discutiu a evolução da agricultura de precisão e os desafios para ampliar sua adoção no campo. Guilherme Panes, da Jacto, destacou a grande diferença entre produtores brasileiros, desde operações altamente tecnificadas até aquelas que ainda têm dificuldade em transformar dados em decisões. Para ele, mecanização e visão computacional podem reduzir a dependência de decisões manuais e aumentar a eficiência.

Guilherme Argenta, da SLC Agrícola S.A, ressaltou que o Brasil já possui soluções comparáveis às disponíveis nos EUA e na Europa, com impacto principalmente sobre receita, custos e risco. Na SLC, segundo ele, cada R$ 1 investido nessas ferramentas gera R$ 12,50 de retorno. A transição geracional tende a favorecer a adoção, com produtores mais jovens questionando a complexidade das soluções e demandando resultados mais claros.

O aumento da quantidade de dados, porém, também criou desafios. Panes destacou que a inteligência artificial generativa pode simplificar sua interpretação, direcionando a atenção para anomalias e informações relevantes. Dominguez acrescentou que as decisões práticas de curto prazo, como a necessidade de aumentar ou reduzir o uso de determinados insumos, devem orientar o desenvolvimento das próximas soluções. Para as startups, ressaltou ainda que demonstrar consistência e capacidade de permanecer no mercado é tão importante quanto apresentar uma boa solução.

Na gestão da operação, os participantes destacaram ganhos já obtidos com ferramentas como a telemetria, que permitiu à SLC reduzir significativamente a ociosidade de máquinas. A visão da Jacto é que maior eficiência no uso do maquinário não implica menor investimento, mas pode sustentar a continuidade da expansão agrícola. Nesse processo, os participantes reforçaram que a adoção de novas soluções deve vir depois do básico bem executado.

A nova infra do agro

Como o agro está sendo transformado pela inteligência artificial? Fabrício Orrigo, da Totvs, Guilherme Araujo, da Microsoft, e Daniel Scuzzarello, da Siemens, abordaram diversos aspectos da tecnologia no setor. Apesar de evoluções e aumento de produtividade nos últimos anos, a discussão apontou um descompasso entre a vontade de adoção de IA e o preparo das empresas.

Não se trata apenas de coletar dados. É preciso saber organizá-los de forma inteligente. “O agricultor deveria tratar o dado com o mesmo cuidado com que trata o solo”, afirmou Scuzzarello.

Para Araujo, a revolução da IA “não tem volta”, e as empresas que devem se destacar serão aquelas que vão colocar a IA no centro. Ele ressaltou, no entanto, que as pessoas são muito importantes nesse processo. É preciso conhecimento do negócio para fazer as perguntas certas. “A forma que trabalho hoje é muito diferente de nove meses atrás. A IA me torna mais humano, porque está me tirando o ônus de um trabalho operacional”, completou.

Pecuária sustentável: eficiência, rastreabilidade e o mercado de proteínas

A pecuária brasileira passou por uma revolução nos últimos anos e, em 2025, o Brasil se tornou o maior produtor e exportador de carne bovina do mundo, com cerca de 3,5 milhões de toneladas embarcadas e receita de US$ 18 bilhões. Cerca de 70% da produção abastece o mercado doméstico, e o restante segue para mais de 170 países, o que evidencia a eficiência e a rastreabilidade do setor. O Brasil exporta o dobro do segundo colocado, a Austrália, embora destine ao exterior só cerca de 30% do que produz. A China é o principal importador, com consumo de mais de 15 milhões de toneladas de carcaça, contra 10 milhões em 2015, e é suprida em grande parte pelo Brasil. Os EUA, antes exportadores, tornam-se importadores crescentes.

O cenário atual combina oferta restrita e demanda em alta: o rebanho está no menor nível em mais de 70 anos nas principais economias, enquanto a população global bate recorde, o que cria um déficit estrutural de carne bovina. Nesse contexto, os preços do boi estão elevados e mais voláteis, exigindo maior profissionalização do mercado. Há também riscos externos, como as exigências europeias de rastreabilidade e a salvaguarda de três anos criada pela China, que limita as importações a 1,1 milhão de toneladas e impede exportações brasileiras que poderiam superar 2 milhões. O Brasil, por sua vez, tem o maior rebanho comercial do mundo, e estados como o Mato Grosso, sozinho, estariam entre os maiores do planeta.

A principal oportunidade está na produtividade. O Brasil tem a menor taxa de desmame entre os grandes players e carcaças de pouco mais de 200 kg, ante cerca de 400 kg em outros países. Ganhos na cria, em genética, em peso médio e no giro da fazenda, com abate em idade menor, elevam a rentabilidade, e o peso médio dos animais abatidos já vem crescendo de forma constante. Como o gado tropical engorda sobretudo na estação chuvosa, o manejo ainda tem espaço para evoluir. Por ser o único grande produtor com tanto potencial de ganho, o Brasil está bem-posicionado para ajudar a suprir o déficit global de forma sustentável.

Mercosul no cenário global

A safra chega a um cenário crítico. O diesel está ~R$ 1 mais caro, o que corrói a recuperação da soja (R$ 140 no MT). Os pedidos de recuperação judicial no agro estão perto de 500 (+22%), e o endividamento do produtor está em 15% contra a média de 2%. O Brasil importou menos fertilizante e pagou mais, e a CNA admitiu que “é difícil ser esperançoso”.

A autossuficiência em fertilizantes em 10 anos é improvável. O nitrogenado esbarra na falta de infraestrutura para o gás do pré-sal, e o projeto de potássio na Amazônia, capaz de suprir ~60% da demanda, segue travado no Ibama. Na Argentina, a carga tributária continua pesando, mas o país vive uma inflexão, com dólares de Vaca Muerta e da mineração.

O tema central foi a China, que há cerca de 5 anos não aprova novos transgênicos de Brasil, Argentina e EUA, enquanto aprova sua própria biotecnologia em dois anos. Segundo os painelistas, as variedades travadas poderiam levar o milho brasileiro de ~150 para 180–200 milhões de toneladas. Sem elas, o produtor acaba usando mais defensivos. A CNA vê um atraso deliberado da China para desenvolver tecnologia própria. A Abramilho defende pressão mais firme, mas o superávit comercial com a China limita o tom do governo.

Com a Europa, segundo eles, a lei antidesmatamento foi tratada como protecionismo com verniz ambiental. O Brasil consegue comprovar a conformidade, e o gargalo é diplomático. A mensagem final foi que o Mercosul precisa se unir rápido e pensar como bloco. Para o próximo governo, o setor pede estabilidade e responsabilidade fiscal: “que nos atrapalhem menos”.

Integração de cadeias produtivas e geração de valor

Hoje, é preciso olhar além da fazenda e considerar toda a cadeia, incluindo a logística.  A forma de agregar valor aos produtos agrícolas é a agroindustrialização, processo já em curso no Brasil. A produção de soja cresce, e com ela o farelo; o milho avança, impulsionado pelo etanol e pelo DDG; e proteínas e ração acompanham o movimento. Isso ocorre porque as indústrias são integradas, algo semelhante ao que acontece nos EUA com o biodiesel. Nesse contexto, a inteligência artificial é vista menos como fonte de respostas e mais como ferramenta para ir além: ao cruzar dados de satélite com informações de cada fazenda, ela permite avaliar rapidamente danos de eventos como secas e tufões, que as imagens sozinhas nem sempre captam, e apoiar decisões como a localização de novas fábricas para reduzir custos. Em outras palavras, a IA serve para enxergar a cadeia inteira.

Entre os principais gargalos está o produtor, que ainda não percebeu o valor que a indústria pode lhe trazer. A expansão dos grãos foi puxada pela demanda externa, e agora é preciso industrializar mais as commodities, sem perder relevância no mercado internacional. O mercado de energia, por exemplo, busca atributos específicos, como menores emissões. A Embrapa tem papel central, com dados climáticos usados para planejar o plantio e simular cenários extremos, como o El Niño, mas ainda precisa mostrar ao produtor que esses dados podem gerar mais valor e remuneração.

Para que isso avance, a informação deve chegar de forma prática, pois o produtor não quer IA nem dados, quer saber o que fazer, como “agora é a hora de plantar”. A indústria tende a liderar essa transição, por buscar inovação para reduzir custos e por atender mercados que exigem rastreabilidade, como a China. Isso demandará que o produtor, historicamente pouco disposto a compartilhar dados, passe a fazê-lo, desde que haja incentivo e ganho claros. Esse compartilhamento é uma via de ganho para todos e integra a agricultura preditiva, que reduz custos. Dado o volume de milhões de toneladas produzidas, mesmo melhorias moderadas podem ter impacto significativo.

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