Resumo
No cenário internacional, o preço do petróleo voltou a superar 100 dólares por barril, após nova escalada do conflito no Oriente Médio. A alta tende a pressionar a inflação global adiante.
Nos Estados Unidos, os juros dos títulos do Tesouro seguiram em elevação, apesar da primeira operação ampliada de recompra realizada pelo governo. Do lado dos indicadores, a inflação ao consumidor acelerou em agosto, puxada pelo componente de energia, e o mercado de trabalho segue firme. Nesse contexto, o mercado passou a precificar cerca de 85% de chance de alta de juros pelo Fed (banco central americano) na próxima semana.
No Brasil, a deflação do IPCA de agosto refletiu o pagamento do bônus de Itaipu. Os núcleos vieram melhores do que o projetado, mas os preços de serviços seguem resilientes. Ademais, o governo anunciou novas medidas para os combustíveis, que podem reduzir a inflação no curto prazo.
No cenário político, os investidores acompanham as decisões do STF sobre as investigações do Banco Master e eventual impacto sobre as eleições de outubro.
Gráfico da Semana

Cenário Internacional
Preço do barril de petróleo supera 100 dólares com nova escalada do conflito no Oriente Médio
A cotação do petróleo do tipo Brent atingiu 108 dólares por barril nesta semana, o maior patamar desde maio. O movimento refletiu a nova escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã. Forças americanas atacaram petroleiros iranianos, enquanto o governo do Irã ameaçou estabelecer uma zona de exclusão no Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, os rebeldes houthis atingiram instalações de energia na Arábia Saudita e ampliaram o controle sobre a região do Estreito de Bab el-Mandeb, rota alternativa para o escoamento da commodity.
Os preços mais altos do petróleo tendem a pressionar a inflação ao redor do mundo nos próximos meses. Nesse contexto, o espaço para flexibilização monetária pelos principais bancos centrais pode ser menor do que o inicialmente esperado, especialmente se elevação das cotações se mostrar persistente ou gerar efeitos secundários sobre outros bens e serviços.
Primeira recompra ampliada do Tesouro americano falha em conter a alta dos juros longos
Os juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (Treasuries) voltaram a subir, apesar da intervenção do governo. O Tesouro realizou a primeira operação de recompra sob o programa ampliado anunciado em agosto, retirando do mercado até US$ 6 bilhões em títulos de 10 a 20 anos, o triplo das operações regulares. O montante, no entanto, ficou abaixo do que o mercado esperava, e os juros subiram logo após o anúncio. Os juros de 10 anos chegaram a 4,93%, o maior nível desde o fim de 2023, ao passo que os juros de 30 anos voltaram a se aproximar de 5,30%, o patamar mais elevado desde 2002.
Juros longos mais altos nos Estados Unidos tendem a manter as condições financeiras globais apertadas.
Inflação nos Estados Unidos reforça apostas em alta de juros pelo Fed
O índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos subiu 0,4% em agosto, em linha com as expectativas. No acumulado em 12 meses, a inflação permaneceu em 3,4%. A aceleração veio do grupo de energia: a gasolina avançou 3,9% no mês e respondeu por mais de um terço da alta do índice. O núcleo do CPI – que exclui itens com preços voláteis – subiu 0,3%, acima do esperado, embora tenha desacelerado de 2,5% para 2,4% no acumulado em 12 meses. A pressão de custos também apareceu na inflação ao produtor (PPI), que avançou 0,4% em agosto. Os preços do diesel subiram 24% no mês.
Do lado da atividade econômica, o mercado de trabalho segue firme. Os pedidos iniciais de auxílio-desemprego registraram 206 mil na semana passada, próximos das mínimas históricas.
Em conjunto, os dados reforçam o quadro de inflação persistentemente acima da meta de 2%, e de atividade resiliente. Assim, o mercado atribui probabilidade ao redor de 85% de elevação de 0,25 p.p. nos juros pelo Fed (banco central) na reunião de política monetária da próxima semana, o que levaria a taxa de referência para o intervalo entre 3,75% e 4,00%.
Banco Central da Europa eleva juros pela segunda vez no ano e revisa projeções de inflação para cima
Na mesma linha, o Banco Central da Europa (BCE) elevou a taxa de depósito em 0,25 p.p., para 2,50%, na segunda alta de juros deste ano. A decisão foi unânime e, segundo a presidente Christine Lagarde, “muito fácil”, diante do choque de energia decorrente do conflito no Oriente Médio, que levou a inflação da região para acima de 3%. O BCE agora projeta inflação média de 3,0% em 2026 e 2,5% em 2027. Lagarde evitou sinalizar os próximos passos, mas o tom do comunicado foi lido como mais duro pelo mercado, que passou a precificar ao menos uma alta adicional até o fim do ano.
Inflação na China acelera, mas demanda doméstica segue fraca
A inflação ao consumidor da China avançou para 0,8% no acumulado em 12 meses até agosto. O índice de preços registrou aumento de 0,4% contra julho, acima do esperado (0,3%) – trata-se da maior variação mensal desde fevereiro. A aceleração veio dos custos de transporte, pressionados pelos combustíveis mais caros, enquanto os preços de alimentos caíram pelo quinto mês consecutivo. Por sua vez, a inflação ao produtor avançou 3,8% em 12 meses, acima do esperado (3,6%), impulsionada pelas commodities e pela demanda de setores de alta tecnologia.
Em linhas gerais, os dados indicam que as pressões deflacionárias perderam força, mas a recuperação da demanda doméstica segue frágil. A economia chinesa continua dependente das exportações. Com relação à política econômica, a inflação mais firme reduz a pressão por cortes de juros adicionais no curto prazo, dando ao Banco do Povo da China (PBoC) espaço para avaliar o efeito das medidas já adotadas. Eventuais novos estímulos à economia tendem a vir pelo lado fiscal, com foco no consumo e no setor imobiliário.
Enquanto isso, no Brasil…
IPCA de agosto recua com bônus de Itaipu, mas preços de serviços seguem resilientes
O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto, ligeiramente abaixo das projeções. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses desacelerou de 4,44% para 4,22%. Como esperado, a queda foi determinada pelo pagamento do bônus de Itaipu nas contas de energia elétrica, que puxou os preços administrados para baixo. Os preços livres ficaram estáveis, com a queda maior do que a projetada em alimentação no domicílio compensada por bens industriais mais altos, sobretudo cigarros, após o aumento do IPI. A média dos núcleos – que excluem itens com preços voláteis – veio marginalmente abaixo do esperado e seguiu em trajetória de desaceleração. Os serviços subjacentes e os intensivos em mão de obra, no entanto, aceleraram na margem e permanecem em patamar bem acima do compatível com a meta de 3,0%.
Em síntese, o resultado trouxe um índice cheio benigno e núcleos melhores do que o esperado, mas sem melhora clara nos serviços. A surpresa baixista concentrou-se em itens voláteis e no efeito temporário da energia elétrica, que deve ser revertido em setembro com o fim do bônus. Ademais, a alimentação no domicílio deve deixar de contribuir para a queda da inflação nos próximos meses. Mantemos nossas projeções de IPCA em 5,0% para 2026 e 4,2% para 2027. Para detalhes, acesse IPCA de agosto: núcleos ainda apresentam melhora, mas inflação de serviços segue pressionada.
Governo anuncia novas medidas para conter pressão sobre os preços de combustíveis
O governo anunciou novas medidas tributárias e de subvenção para os combustíveis, que podem reduzir o IPCA em até 0,17 p.p., segundo nossas estimativas.
Na gasolina, com o fim da MP 1358/2026, a subvenção de R$ 0,44/L será substituída por uma redução de R$ 0,63/L em PIS/Pasep e Cofins, levando a alíquota de R$ 0,79/L para R$ 0,16/L até 9 de outubro. Estimamos impacto de aproximadamente -0,11 p.p. no IPCA, distribuído entre setembro e outubro. No etanol hidratado, a zeragem dos tributos federais, atualmente em R$ 0,19/L, deve provocar queda de cerca de 5% nos preços ao consumidor, com impacto estimado de -0,03 p.p. Além disso, permanece em discussão uma subvenção adicional ao etanol. No diesel, a nova MP deverá criar subvenção adicional de R$ 1,00/L, que poderia reduzir os preços nas bombas em cerca de 12,6% e retirar outros 0,03 p.p. do IPCA, caso não haja reajuste da Petrobras.
O impacto efetivo, porém, dependerá da política de preços da companhia, especialmente diante do elevado diferencial entre os preços domésticos e internacionais. Há também um risco fiscal associado às subvenções, inclusive porque parte do desembolso futuro relacionado ao etanol não possui trava explícita.
Receita de serviços fica estável em julho
O volume real de receitas do setor de serviços ficou estável em julho, marginalmente abaixo das expectativas, pelo segundo mês consecutivo. Na comparação anual, a alta foi de 0,9%, em linha com o esperado. A abertura, no entanto, foi melhor do que o índice cheio sugere: quatro das cinco principais atividades avançaram na margem, e a surpresa negativa concentrou-se nos serviços de informação e comunicação, após um resultado excepcionalmente forte em junho.
Olhando à frente, seguimos vendo uma tendência de crescimento modesto para o setor de serviços. Por um lado, o mercado de trabalho ainda apertado deve continuar sustentando a demanda das famílias – os serviços prestados às famílias cresceram em quatro dos últimos cinco meses em termos anuais. Por outro lado, os juros elevados e o peso crescente do serviço da dívida das famílias permanecem como ventos contrários relevantes. Projetamos que as receitas totais do setor de serviços cresçam cerca de 2,0% em 2026, após alta de 2,9% em 2025.
Eventos ligados ao STF seguem no radar
No cenário político, a semana foi marcada pelos eventos no Supremo Tribunal Federal (STF), em torno das investigações sobre o Banco Master. O presidente da Corte, Edson Fachin, adotou uma série de medidas para reorganizar a condução dos processos. Entre elas, levar a plenário na próxima semana (dia 15) a deliberação sobre os desdobramentos.
Os investidores acompanham de perto as decisões do STF sobre as investigações relacionadas ao Banco Master e suas implicações políticas, em particular os efeitos sobre as eleições presidenciais de outubro. Pesquisas mostram um quadro de empate técnico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.
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Destaques da próxima semana
No cenário internacional, o destaque da próxima semana será a decisão de juros do FOMC, comitê de política monetária dos Estados Unidos. Os bancos centrais da Inglaterra e do Japão também anunciarão suas decisões de política monetária. Na China, o destaque está para a publicação das estatísticas de atividade econômica de agosto.
No Brasil, as atenções estarão voltadas ao Copom, que deverá promover mais um corte de 0,25 p.p. na taxa Selic, levando-a a 13,75%. Além disso, o IBGE divulgará os dados de vendas no varejo de julho, que devem seguir tendência de moderação. Por fim, será publicado o IBC-BR de julho – indicador mensal de atividade econômica do banco central – para o qual projetamos nova contração na comparação mensal. Veja as nossas projeções abaixo.

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