Resumo
A probabilidade de alta de juros pelo Fed nas próximas reuniões caiu nesta semana, após dados mais fracos de inflação nos Estados Unidos. Ainda assim, a inflação segue acima da meta de 2%, e a recente recuperação do petróleo, em meio a declarações conflitantes sobre o controle do Estreito de Ormuz, pode voltar a pressionar os preços nos próximos meses.
No Brasil, a maior percepção de risco pressionou os principais ativos locais, levando à depreciação da taxa de câmbio, ao recuo do Ibovespa e à elevação dos juros futuros.
Com relação aos indicadores econômicos, o IPCA de julho interrompeu a sequência recente de surpresas baixistas. No entanto, o desvio ficou concentrado em itens mais voláteis, enquanto as medidas de tendência continuaram favoráveis. A atividade econômica mostrou moderação em junho, em linha com nossa visão de desaceleração gradual da demanda doméstica ao longo deste ano.
Na seara política, o Congresso aprovou o Projeto de Lei Complementar dos combustíveis. O texto foi ampliado e passou a incluir benefícios setoriais. Em contrapartida, foi adicionado um gatilho para limitar o crescimento das despesas obrigatórias em 2027. Por fim, foram divulgados os planos de governo de Flávio Bolsonaro e Lula.
Gráfico da Semana

Cenário Internacional
Declarações conflitantes sobre o controle do Estreito de Ormuz pressionam o preço do petróleo
O preço do petróleo voltou a subir nesta semana, refletindo o aumento das tensões em torno do Estreito de Ormuz. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que os americanos têm controle total da região e que o bloqueio marítimo seria um “muro de aço” contra a passagem de embarcações iranianas. Por sua vez, o comandante iraniano Hossein Taeb declarou que o estreito segue sob comando do Irã e que a situação não deve se normalizar enquanto as condições para um acordo entre as nações não forem atendidas.
As declarações conflitantes aumentaram a percepção de que o conflito pode se prolongar, com potencial de gerar novos impactos sobre as cadeiras globais de oferta. Nesse contexto, o preço do petróleo segue em patamar próximo a 88 dólares por barril e acumula alta de cerca de 7% na semana.
Dados mais fracos de inflação reduzem expectativas de elevação dos juros pelo Fed
A inflação nos Estados Unidos (CPI) permaneceu relativamente contida em julho. O dado avançou 0,1% no mês, em linha com as expectativas, levando a inflação acumulada em 12 meses a 3,4%. O núcleo de inflação – que exclui itens com preços voláteis – subiu 0,2%, sinalizando pressões subjacentes ainda moderadas. Na mesma direção, a inflação ao produtor ficou estável em julho, também abaixo da expectativa, enquanto o índice acumulado em 12 meses desacelerou de 5,5% para 4,7%. A queda nos preços de bens, especialmente de combustíveis, compensou a alta nos serviços.
Em conjunto com a recente fraqueza do mercado de trabalho, os dados mais benignos de inflação reduziram as apostas em uma alta de juros pelo Fed (banco central) em setembro. O mercado passou a precificar 68% de probabilidade de manutenção da taxa no atual patamar (entre 3,50% e 3,75%). Ainda assim, a inflação segue acima da meta de 2%, e a recente recuperação dos preços do petróleo — ainda não integralmente refletida nos indicadores de julho — pode voltar a pressionar os índices nos próximos meses.
Enquanto isso, no Brasil…
Ativos brasileiros se depreciam após maior percepção de risco no Brasil
A percepção de risco em relação ao Brasil aumentou ao longo da semana e pressionou os principais ativos locais. A taxa de câmbio, que iniciou o período próxima a 5,10 reais por dólar, encerrou a semana ao redor de 5,25 reais por dólar. O Ibovespa acumulou queda de 4%, próximo aos 165 mil pontos. A curva de juros também se deslocou para cima, com altas entre 0,30 p.p. e 0,40 p.p. em todos os vértices.
O aumento das incertezas geopolíticas e fiscais pressionou os ativos brasileiros no curto prazo e deve seguir no radar dos mercados.
Inflação avança em julho puxado por itens voláteis, abertura segue benigna
O IPCA avançou 0,07% em julho, acima do esperado. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,64% para 4,44%. A leitura interrompeu a sequência recente de surpresas baixistas, mas o desvio ficou concentrado em itens mais voláteis, principalmente alimentação no domicílio e higiene pessoal. As medidas de tendência continuaram mais favoráveis: a média móvel de três meses anualizada e dessazonalizada da média dos núcleos de inflação (grupos que excluem itens com preços voláteis) recuou de 4,90% para 4,56% e a difusão caiu de 54% para 50%. A principal fonte de cautela permanece nos serviços intensivos em trabalho, cuja inflação segue acima de 7%, refletindo a resiliência da demanda doméstica e as condições ainda apertadas do mercado de trabalho. Por ora, mantemos nossas projeções de IPCA em 5,1% para 2026 e 4,2% para 2027. Para detalhes, acesse “IPCA de julho: Surpresa altista impulsionada por itens mais voláteis”.
Ata do Copom reforça postura dependente dos dados
O Banco Central divulgou nesta semana a ata da última reunião do Copom, reforçando a necessidade de manter uma postura suficientemente cautelosa para evitar efeitos de segunda ordem dos atuais choques de oferta. Ao mesmo tempo, o documento reconheceu uma desaceleração gradual e relativamente disseminada da atividade, além da melhora recente da inflação, mantendo abertas as possibilidades para as próximas reuniões e reforçando uma condução dependente dos dados. Em nossa avaliação, os choques globais de oferta, a resiliência da demanda doméstica e as expectativas de inflação ainda desancoradas podem justificar uma pausa na calibragem dos juros. Contudo, caso os próximos dados confirmem uma desaceleração mais rápida da atividade e da inflação, o Copom poderá dar continuidade aos cortes graduais. Mantemos nossa projeção de Selic em 14,00% ao final de 2026 e 11,50% em 2027. Para detalhes, acesse “Ata do Copom reforça postura dependente dos dados”.
Atividade mostra moderação em junho
As receitas reais do setor de serviços ficaram estáveis em junho. No 2º trimestre, o setor avançou 0,4% em relação ao 1º trimestre, revertendo a contração observada no início do ano. O resultado ficou acima das expectativas, que apontavam para queda no período. A composição, contudo, foi menos favorável: apenas uma das cinco grandes atividades de serviços registrou alta na comparação mensal. No varejo, houve avanço de 0,5% em junho, mas o setor encerrou o 2º trimestre em contração.
O consumo das famílias perdeu fôlego no 2º trimestre de 2026. Esse desempenho é consistente com nossa visão de desaceleração gradual da demanda doméstica ao longo deste ano. Ainda assim, não interpretamos os últimos dados de atividade como o início de uma desaceleração mais intensa. A renda real disponível segue em alta, sustentada por um mercado de trabalho ainda apertado e por transferências fiscais crescentes. Além disso, o amplo pacote de estímulos do governo deve continuar apoiando o consumo no curto prazo. O contraponto vem da política monetária contracionista e do elevado endividamento das famílias, que pesam sobre os segmentos mais sensíveis ao crédito — justamente aqueles que tiveram desempenho mais fraco no trimestre passado.
PLP dos combustíveis amplia benefícios e prevê contenção de gastos
O Congresso aprovou o Projeto de Lei Complementar dos Combustíveis (PLP 114/2026), que agora segue para sanção presidencial. A proposta original previa o uso de receitas extraordinárias do petróleo para reduzir tributos sobre combustíveis, mas o texto aprovado foi ampliado e passou a incluir novas destinações de recursos e benefícios setoriais.
Entre as principais mudanças, o projeto passou a contemplar benefícios para produtores de etanol e para a agroindústria, ampliação de despesas com Defesa, antecipação de R$ 3 bilhões do Fundo Social para saúde e educação e mecanismos de subsídio a fertilizantes, minerais críticos e à Copa do Mundo Feminina. Como contrapartida, a equipe econômica incluiu um gatilho para limitar o crescimento das despesas obrigatórias em 2027. A estimativa do governo é de redução de cerca de R$ 10 bilhões nas despesas do próximo ano, dos quais aproximadamente R$ 6 bilhões decorreriam do menor crescimento do piso da saúde.
Governo avalia resposta às tarifas dos Estados Unidos
O governo brasileiro iniciou um processo que poderá resultar na adoção de medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos, em resposta às tarifas comerciais impostas pela gestão Donald Trump. Segundo o time de Política da XP, porém, esta é apenas a primeira etapa de uma análise mais longa, que pode se estender por até nove meses caso todos os prazos sejam utilizados. Interlocutores do governo indicam que o movimento busca, sobretudo, pressionar os Estados Unidos a retomar o diálogo, mais do que sinalizar uma intenção efetiva do Palácio do Planalto de aplicar contramedidas no curto ou médio prazo.
Planos de governo de Flávio Bolsonaro e Lula são divulgados
Os planos de governo dos principais candidatos à Presidência, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), foram divulgados nesta semana. No caso do candidato do PT, o documento sinaliza continuidade do arcabouço fiscal, sem abordar a possibilidade de redução do limite de crescimento de despesas atual (2,5%). Uma diminuição desse teto para 1,5% estaria sendo debatida pela equipe econômica, segundo a imprensa, mas tal redução demandaria reformas estruturais, conforme abordamos no relatório “Reduzir limite de despesas no arcabouço demanda reformas estruturais”.
O programa de Lula também inclui mudanças no sistema de emendas parlamentares, regulação das redes sociais e aprovação do fim da escala 6×1. No campo externo, Lula reafirma a intenção de se opor a qualquer tentativa de subordinação do Brasil a outros regimes políticos em meio ao cenário geopolítico mais conturbado.
No caso do candidato do PL, o documento promete obtenção de superávits primários, estabelecimento de regra clara para controle de gastos e a estabilização da pública no menor prazo possível, mas não entra em detalhes sobre quais medidas trariam esses resultados. O plano também trata de revisões das exceções à reforma tributária e de dar mais transparência às emendas parlamentares. Além disso, o programa propõe uma reforma do Judiciário, medidas voltadas às mulheres e ao combate ao crime organizado.
Clique aqui para receber por e-mail os conteúdos de economia da XP
Destaques da próxima semana
No cenário internacional, o destaque será a divulgação da ata da última reunião do FOMC, nos Estados Unidos. Na China, os indicadores de atividade econômica de julho serão publicados no fim de semana, enquanto o banco central (PBoC) definirá as taxas de empréstimos de curto e médio prazo. Também serão conhecidos os índices PMI de agosto das principais economias, sondagens empresariais que visam captar o pulso da atividade econômica.
No Brasil, a agenda de indicadores será mais leve. Teremos apenas a divulgação do IBC-BR de junho pelo Banco Central e o IGP-10 de agosto pela FGV. Veja as nossas projeções abaixo.

Se você ainda não tem conta na XP Investimentos, abra a sua!
