Juros Baixos: Quais Empresas e Setores se Beneficiam deste Cenário?

A iminência de um novo corte na taxa básica de juros brasileira, a Selic, sempre levanta questionamentos sobre como ficam os investimentos. E, para explicar quais setores e empresas da Bolsa de Valores tendem a se beneficiar do cenário de juros baixos por mais tempo no Brasil, preparamos este conteúdo especial.


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Podcast Investorcast: especialistas Marcos Ross, Camilla Dolle e Felipe Dex debatem com o editor Gabriel Fortes a relação entre Selic baixa e os investimentos.

A iminência de um novo corte na taxa básica de juros brasileira, a Selic, sempre levanta questionamentos sobre como ficam os investimentos. E, nesta quarta-feira (30 outubro), teremos mais um anúncio do Comitê de Política Monetária (Copom), que deve reduzir os juros a um patamar inferior aos 5,5% a.a. atuais.

Este é apenas um dos pilares da mudança estrutural – do ponto de vista dos investimentos – que o Brasil está vivendo. A aprovação da reforma da Previdência é outro, e já apontado como a melhor notícia econômica de longo prazo dos últimos anos no país.

Atrelada à continuidade das reformas – tributária e administrativa – e também ao cenário de juros baixos, mudar a maneira de investir é fator chave para buscar boas rentabilidades.

A porta está aberta para que os investidores, que sempre optaram pela renda fixa mais conservadora, acessem outros mercados. Um deles é a renda variável, para o qual seguimos otimistas.

Nesse sentido, uma pergunta que temos recebido de forma recorrente é como o tema de juros baixos por mais tempo impacta os investimentos na Bolsa. Por isso, para explicar quais setores e empresas tendem a se beneficiar desse cenário, preparamos este conteúdo especial.

No geral, o principal impacto é a redução no custo de dívida das companhias. E, para mensurar esse efeito, é preciso analisar: (1) a parcela da dívida cujo custo é atrelado à Selic; e (2) o patamar de endividamento, que pode ser medido pelo indicador “Dívida Líquida em relação ao EBITDA”.

Por ordem de grandeza, os setores da nossa cobertura mais beneficiados são locação de veículos, shoppings, elétrico e varejo. Por outro lado, vemos impacto reduzido para os setores de mineração e siderurgia, papel e celulose e alimentos e bebidas.

Para mais detalhes, consolidamos nossa análise por setor destacando as empresas mais impactadas abaixo.

Locação de Veículos

Dentro do setor de locação de veículos, mais de 90% das dívidas das companhias são pós-fixadas e atreladas à Selic. Além disso, dado o momento positivo do setor, as empresas estão crescendo mais e, dessa forma, operando com níveis mais altos de alavancagem.

Dentro do universo de cobertura, que compreende Localiza, Unidas e Movida, o índice de alavancagem varia entre 2,7 e 3,0 vezes Dívida Líquida / EBITDA. Isso as torna sensíveis a oscilações na taxa básica de juros. Estimamos que um corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic resulte em um incremento médio próximo de 10% no preço-alvo dessas companhias. Considerando a trajetória esperada para a taxa Selic em 2020, esperamos uma redução superior a 1,0 ponto percentual no custo médio da dívida em relação a 2019 (tudo mais constante).

Shoppings

Quanto ao setor de Shoppings, as empresas Iguatemi e Multiplan apresentam respectivamente 85% e 70% de suas dívidas atreladas à Selic e uma alavancagem média de cerca de 2,5 vezes Dívida Líquida / EBITDA. Já a brMalls apresenta cerca de 42% de dívida atrelada à Selic e índice de alavancagem menor, de ~1,9 vezes.

No geral, o setor possui alta sensibilidade à variação da taxa de juros, porém opera a níveis de alavancagem abaixo da média histórica devido ao menor crescimento, sendo a maior parte das recentes emissões voltada à gestão dos passivos. Contudo, considerando um corte de 0,5 ponto percentual no custo de dívida das companhias, vemos um incremento médio de aproximadamente 6,5% em nossos preços-alvo.

Elétricas

O setor elétrico, em média, possui 42% de suas dívidas atreladas à taxa Selic. As companhias do setor normalmente operam com alavancagem elevadas (entre 2,0 e 4,0 vezes Dívida Líquida / EBITDA). Isso se deve à dinâmica operacional do setor: as companhias captam recursos via dívida para financiar a construção de novos empreendimentos ou a aquisição de outras empresas, e os financiamentos vão sendo pagos com a geração de caixa dos próprios ativos.

Assim, os primeiros que se beneficiariam de um corte de juros são nomes alavancados e com boa parte de suas dívidas atreladas à Selic, como Copel, AES Tietê, Equatorial e Cemig. Finalmente, notamos que a queda da taxa de juros aumenta a atratividade das empresas que pagam dividendos elevados, principalmente nos segmentos de transmissão (como TAESA e CTEEP) e geração de energia (como AES Tietê e Engie Brasil). Nossa análise de sensibilidade mostra que um corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic leva a um incremento de 3-6% nos nossos preços-alvo.

Varejo

Para o setor de varejo, entre 75% e 100% das dívidas das empresas da nossa cobertura são atreladas à Selic. Porém, as companhias são pouco alavancadas, com indicadores de Dívida Líquida / EBITDA que variam de 0,3 a 2,5 vezes. Além disso, uma particularidade do setor é a prática do desconto de recebíveis. Por meio dela, as companhias antecipam as vendas realizadas a prazo (como por exemplo, as parceladas no cartão de crédito) transformando esse montante a receber no futuro em entrada imediata de caixa. Esse processo é feito através de instituições financeiras (principalmente grandes bancos), que em contrapartida cobram uma taxa atrelada à Selic.

Portanto, o cenário de juros mais baixos para as varejistas implica em menores despesas financeiras com empréstimos e financiamentos bem como com a antecipação de recebíveis. Nossa análise de sensibilidade sugere que Lojas Americanas, B2W, Via Varejo e Magazine Luiza são as mais impactadas, seja por endividamento mais elevado e/ou maior saldo de recebíveis, com incremento de 3-4% no preço-alvo para cada corte de 0,5 ponto percentual na Selic.  

Mineração e Siderurgia

No setor de mineração e siderurgia, os níveis de dívida pós fixada e atrelada à Selic chegam a patamares mais elevados, como no caso da Usiminas, com 75% de sua dívida assim caracterizada. Porém, dentro do universo de cobertura, o impacto do corte de juros é pequeno. A empresa mais sensível é a CSN, novamente por conta de seus níveis mais altos de alavancagem: estimamos que um corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic resulte em um incremento de cerca de +1,7% no preço alvo da empresa. Por outro lado, a empresa menos sensível é a Vale, graças ao seu baixo volume de dívida atrelado à Selic, bem como ao seu baixo nível de endividamento como um todo: a redução dos juros não produz alterações significativas no nosso preço alvo. Para Usiminas e Gerdau, estimamos impactos de +0,7% e +0,4%, respectivamente.

Papel e Celulose

No setor de papel e celulose, apenas 25% da dívida das companhias são pós-fixadas e atreladas à Selic. Dentro do universo de cobertura, a Suzano é a empresa com o menor percentual da dívida indexada à Selic. No entanto, ela é mais sensível à oscilação da taxa de juros, dada sua alavancagem maior do que a da Klabin. Ainda assim, o incremento no preço-alvo da Suzano ao estimarmos um corte de 0,5 ponto percentual é pequeno, apenas +0,4%. No caso da Klabin, o impacto é ainda menor, em +0,3%.

Alimentos e Bebidas

Por fim, no setor de alimentos e bebidas, dentro da nossa cobertura o destaque vai para BRF, com uma variação no preço alvo de +0,9% para cada redução de 0,5 ponto percentual na Selic – impacto ainda pequeno quando comparado a outros setores. Para JBS e Marfrig, os efeitos não são materiais porque ambas as empresas possuem pouquíssima dívida em reais (R$) – a maior parte é dolarizada (US$). No caso da Ambev, embora a companhia possua dívida em reais, a maior parte segue taxas fixas, fazendo com que ela também não seja afetada significativamente pela redução dos juros.

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