Relatório trimestral de inflação do primeiro trimestre de 2020

Relatório rico, mas sem grandes novidades quanto à postura de política monetária do BC O Banco Central divulgou nessa manhã o Relatório Trimestral de Inflação do 1T20. Acreditamos que o documento não trouxe informações suficientes para mudarmos nosso entendimento de que o BC entregará mais um corte de 0,5 ponto percentual (p.p.) em reunião extraordinária […]


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Relatório rico, mas sem grandes novidades quanto à postura de política monetária do BC

O Banco Central divulgou nessa manhã o Relatório Trimestral de Inflação do 1T20. Acreditamos que o documento não trouxe informações suficientes para mudarmos nosso entendimento de que o BC entregará mais um corte de 0,5 ponto percentual (p.p.) em reunião extraordinária em abril.

Alguns dos principais destaques do documento são:

1) Revisão do PIB de 2020 de 2,2% para 0,0%. A alteração da projeção foi associada, principalmente, aos impactos econômicos decorrentes da pandemia de coronavírus. Além disso, o BC alega que os resultados abaixo do esperado em indicadores econômicos no final de 2019 e início de 2020 também afetaram a projeção negativamente. Numa ótica trimestral, o BC acredita que haverá recuo acentuado do PIB no segundo trimestre, seguido de retorno “relevante” nos últimos dois trimestres do ano.

Cabe observar aqui que aproximadamente 50% dessa revisão deveu-se ao impacto negativo do coronavírus (-1 p.p., ver mais abaixo). Os demais 50% devem-se à desaceleração da atividade econômica no 4T19 e 1T20 e à outras razões, que não são exploradas no documento.

Pelo lado da oferta: o setor de agropecuária não será afetado e, por isso, a projeção de crescimento de 2,9% foi mantida. Além disso, chama a atenção que a indústria será mais atingida pela crise do que o setor de serviços na visão do BC. O crescimento do PIB do setor industrial passou de 2,9% para -0,5%, ao passo que o PIB do setor de serviços passou de 1,7% para 0,0%.

Pelo lado da demanda: destaque para a desaceleração pronunciada dos Investimentos (de 4,1% para -1,1%) e do Consumo das famílias (de 2,3% para 0,8%).

2) Efeitos do coronavírus sobre a economia brasileira. O Banco Central divulgou as estimativas de impacto da pandemia sobre o PIB brasileiro e inflação calculadas por instituições financeiras e consultorias e que foram compiladas pelo questionário pré-Copom entre os dias 6 e 11 de março.

Com relação ao PIB, o impacto médio foi de aproximadamente -0,5 p.p. e o impacto mais negativo foi de -1,1 p.p (dentre 54 instituições). Com relação à inflação, o impacto médio foi de -0,3 p.p. e o impacto mais negativo foi -0,5 p.p.

Além disso, com base em outros dois exercícios, a instituição entende que o impacto poderia ser de -1 p.p. em 2020. O primeiro buscou mostrar como o crescimento da economia brasileira é impactado pelo crescimento da economia da China e do mundo exceto China.

Aqui cabe uma observação nossa: as projeções da Bloomberg para a economia chinesa possuem uma certa defasagem. A abertura da mediana mostra que muitas instituições não estão atualizando rotineiramente seus números, o que sugere que a estimativa do BC pode estar subestimada.

O segundo buscou verificar a sensibilidade do PIB brasileiro com relação a variáveis financeiras, tais como taxa de câmbio, índices de bolsa de valores e preços de commodities. Ambos exercícios apontaram para um impacto de -1,0 p.p.

3) Potência da política monetária. Após sofrer muitos questionamentos sobre o assunto, o BC divulgou dois estudos sobre a potência da política monetária. No primeiro, a sensibilidade das taxas de juros de crédito a movimentos na taxa de juros Selic foi analisada. No segundo, comparou a resposta da inflação a choques na taxa de juros utilizando um modelo semiestrutural para dois períodos amostrais diferentes. Os exercícios mostram que as operações de crédito com recursos livres, o hiato do produto e a inflação são mais sensíveis à taxa de juros.

4) Perspectivas para inflação. Não trouxe grandes novidades em relação ao comunicado emitido após a reunião e à ata do COPOM.

Assim, seguimos com o entendimento de que o Banco Central cortará mais 0,5 ponto percentual em uma reunião extraordinária em abril. Um corte extra de 0,5 p.p. na reunião convencional de maio não está descartado, mas dependerá, em grande medida, da evolução da atividade econômica, das condições financeiras e da postura do congresso na área fiscal.

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