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PIB do primeiro trimestre de 2024: Um bom começo para um ano de incertezas

O PIB cresceu 0,8% no primeiro trimestre de 2024, praticamente em linha com o esperado pelo mercado, não devendo suscitar reações imediatas, especialmente nos mercados.

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O PIB do Brasil cresceu 0,8% no primeiro trimestre de 2024. A alta foi impulsionada principalmente pelo forte consumo das famílias e por um início de retomada dos investimentos privados. A economia deve seguir crescendo no ano, mas incertezas como os impactos da tragédia no Rio Grande do Sul seguem no radar. Entenda o resultado, o que esperar adiante e como o PIB pode impactar seus investimentos.

De acordo com os dados divulgados pelo IBGE (nosso principal instituto de pesquisa nacional), o PIB brasileiro cresceu 0,8% no primeiro trimestre de 2024.

Isso significa que a soma de tudo o que produzimos de bens e serviços na economia brasileira variou perto de 1% no período entre janeiro e março de 2024, quando comparado ao resultado registrado entre outubro e dezembro de 2023. Já se compararmos com o primeiro trimestre do ano passado, o PIB registrou alta de 2,5%.

O resultado positivo veio depois de dois trimestres em que a economia ficou praticamente estável, após recuperação sólida da queda registrada na pandemia da Covid-19.

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Por que o PIB cresceu no primeiro trimestre de 2024?

O resultado do trimestre veio praticamente em linha com o esperado pelo mercado, não devendo suscitar reações imediatas, especialmente nos mercados. Nossa projeção era de um crescimento de 0,6%, tendo a surpresa (para cima) vindo de nossa estimativa para o impacto de impostos indiretos sobre o consumo no PIB total.

De maneira geral, a economia nesse começo de 2024 foi impulsionada principalmente pelo consumo das famílias e pela retomada de investimentos, de um lado; e pelo sólido desempenho do setor de serviços e agropecuário, de outro.

Olhando para o lado da oferta (ou seja, da produção), o setor de serviços foi protagonista, com a retomada do crescimento nesse início de ano. O setor terciário da economia cresceu 1,4% em comparação com o último trimestre de 2023 – um ritmo superior ao observado no fim do ano passado. A retomada reflete principalmente a forte demanda das famílias, com destaque para o comércio varejista e consumo de serviços como restaurantes, cabelereiros e planos de saúde.  

É importante lembrar que o setor de serviços é o principal responsável pela composição do nosso PIB, respondendo por 70% da nossa produção por meio de serviços que vão desde transporte até borracheiros, cinemas, bares, eventos e bancos – sendo também o setor que mais emprega no país. Assim, a performance do setor tem bastante impacto sobre a economia do país como um todo.

Já a agropecuária (ou setor primário) registrou forte crescimento de 11,3%,após queda expressiva no último trimestre (de 7,4%). Apesar de o crescimento no setor seguir abaixo do ritmo registrado em 2023, os primeiros meses desse ano foram marcados pela forte produção pecuária (especialmente de bovinos) e por uma safra de soja ainda sólida.

Vale lembrar que a primeira metade de 2023 foi caracterizada por safras recordes de grãos, o que impulsionou o PIB agropecuário no período e impactou a comparação com os trimestres subsequentes.

A produção industrial, por sua vez, trouxe resultados mistos ao registrar queda de 0,1%. Por um lado, a indústria de transformação (que inclui a produção automotiva e a têxtil, por exemplo) se recuperou de quedas recentes crescendo 0,7% no período, com destaque para a produção de bens de capital (máquinas e equipamentos) e de bens de consumo duráveis – como eletrodomésticos e veículos.

Por outro lado, os setores de construção civil, utilidades públicas (como saneamento e energia elétrica) e indústria extrativa registraram quedas no período. A indústria extrativa, em particular, encolheu pela primeira vez desde o primeiro trimestre de 2022, depois de acumular expansão de aproximadamente 15% nos últimos sete trimestres.

Enquanto isso, considerando a análise do lado da demanda – ou seja, aqueles que “puxam” o PIB demandando por todos esses bens e serviços produzidos – o grande propulsor da economia no primeiro trimestre do ano foi o consumo das famílias.

O componente registrou alta de 1,5% no período (quase 4,5% na comparação anual), refletindo expansão no consumo tanto de bens quanto de serviços. A boa performance é explicada especialmente pela forte elevação da renda disponível das famílias (renda após os impostos), que cresceu 4,5% acima da inflação nos primeiros três meses de 2024.

A alta da renda das famílias, por sua vez, reflete uma série de fatores, dentre os quais: um mercado de trabalho aquecido (desemprego no menor patamar em quase dez anos); maiores programas de transferência de renda; e a decisão do governo de quitar o pagamento de precatórios no fim do ano passado (com famílias recebendo montantes devidos pelo governo por decisões judiciais).

Em bom português: famílias viram crescer sua renda (depois de impostos) no período, e se utilizaram desse impulso para consumir mais bens e serviços.

Ainda do lado da demanda, o crescimento dos investimentos também se destacou, apontando para o início de uma retomada nesse importante fator de crescimento. A boa performance no período veio na esteira principalmente da maior produção de caminhões – diante de uma mudança regulatória (já esperada) que afetou o setor – mas o crescimento visto no consumo de bens de capital também aponta em direção positiva.

Finalmente, o setor externo contribuiu negativamente para o PIB, uma vez que as importações cresceram em maior magnitude do que as exportações. Diferente do que vimos no último trimestre, as exportações no início desse ano mantiveram-se praticamente estáveis, enquanto as importações registraram forte alta (de 6,5%), explicando o que classificamos como “contribuição negativa” para o PIB.

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O que esperar adiante?

Como vimos, o ano de 2024 começou com o “pé direito”, com a economia impulsionada principalmente pelo consumo das famílias e pela retomada gradual do investimento – na esteira de maiores benefícios fiscais, do efeito da queda de juros e de um mercado de trabalho aquecido.

Olhando adiante, entretanto, esperamos que a economia perca ímpeto gradualmente, embora deva seguir em terreno positivo. O enfraquecimento esperado é explicado por uma série de fatores, dentre os quais vale destacar:

  • Os impactos da tragédia climática no Rio Grande do Sul: projetamos que o desastre natural no estado reduzirá a taxa de crescimento do PIB em 1p.p. no segundo trimestre de 2024 (na comparação com o segundo trimestre de 2023), e algo entre 0,2 e 0,3p.p. do crescimento anual da nossa economia.
  • A redução do impulso fiscal: embora não esperemos a redução de benefícios fiscais, a acomodação de maiores transferências tende a impactar o consumo, além de não haver espaço para antecipações como vistas na primeira metade do ano, como do 13° salário, ou de precatórios (pagos no fim de 2023).   
  • O efeito do fim da queda dos juros: diante de incertezas tanto globais quanto domésticas, entendemos que o Banco Central deve encerrar o ciclo de reduções da taxa Selic (nossa taxa básica de juros) em breve – mantendo a taxa em patamar contracionista, ou seja, que encarece o crédito com o objetivo de controlar a alta de preços.

Assim, projetamos que o PIB do Brasil crescerá 2,2% em 2024. Para 2025, entendemos que o país registrará crescimento de 1,7%.

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Como o PIB impacta o dia a dia e os investimentos?

Trazendo para o dia a dia do brasileiro, o resultado do PIB reflete mais o passado do que o presente, uma vez que traz números referentes ao trimestre anterior ao que estamos vivendo.

Assim, para o investidor, o resultado do PIB não deve ser visto como motivo para grandes mudanças na estratégia de investimentos.

Não porque os movimentos da economia medidos pelo PIB não afetem ações de empresas listadas na bolsa ou no mercado de renda fixa e outros ativos financeiros, como o dólar e fundos imobiliários.

Pelo contrário! Os rumos da economia no Brasil e no mundo são o cenário e a verdadeira base sobre a qual se sustenta o mercado financeiro e nossos investimentos. Assim, o indicador não deixa de ser um bom termômetro, ajudando também no planejamento social e financeiro olhando para frente.

Mas, na ausência de grandes surpresas, o resultado do PIB costuma confirmar expectativas sobre o estado da economia – levando, no máximo, a ajustes pontuais de projeções econômicas.

Assim, as principais recomendações de investimento devem seguir as mesmas: manter uma reserva de emergência para eventuais imprevistos pessoais; atentar-se aos objetivos e horizontes de investimento (quando você acredita que precisará do seu dinheiro investido?); e nunca esquecer da diversificação dos investimentos entre ativos e geografias – o bom e velho “não colocar todos os ovos na mesma cesta”. 

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