PIB do 1º Trimestre de 2021 – (Muito) Acima das Expectativas Iniciais

Os principais indicadores de atividade econômica ficaram acima das expectativas no início do ano, apesar da piora da pandemia e da interrupção de medidas de estímulos governamentais. O PIB do primeiro trimestre, a ser divulgado na próxima terça-feira (01/06), deve refletir esta resiliência da atividade. Nossa projeção para 2021 permanece em 4,1% (publicada no começo de maio), mas com viés de alta.


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Estimamos crescimento acima de 1% para o PIB do primeiro trimestre

Os resultados do PIB do primeiro trimestre devem confirmar o bom desempenho da atividade doméstica no começo do ano (ver estimativas na tabela abaixo). Esperamos crescimento de 0,8% para o PIB total na comparação com igual período de 2020. Já em relação ao último trimestre do ano passado, nossas estimativas indicam elevação de 1,1%, descontadas as influências sazonais.   

Detalhes das nossas projeções

Pelo lado da Oferta, todos os setores agregados devem ter crescido na margem (1T21 frente ao 4T20, com ajuste sazonal). Segundo nossas contas, o PIB da Agropecuária expandiu 4,7% nesta métrica, impulsionado pelo aumento expressivo da safra de soja em grão (mais de 60% da produção da cultura são contabilizados nos primeiros três meses do ano). O PIB da Indústria deve apresentar elevação de 0,6%, com recuperação em praticamente todos os subsetores. Na verdade, esperamos recuo da Indústria de Transformação na margem (-0,4%), mas vale ressaltar a forte base de comparação deixada pelos resultados do último trimestre de 2020. Em termos interanuais, calculamos crescimento de 5,2% para este componente. Com base na Pesquisa Industrial Mensal (PIM), destacamos o aumento da produção de bens de capital no 1T21 (alta de 3,9% ante o 4T20), que contrabalançou o frágil desempenho da fabricação de bens de consumo duráveis no período (-4,5%) – afetada sobretudo pela contração do setor automotivo. Ainda em relação ao PIB da Indústria, cabe mencionar a recuperação da Construção Civil. Embora a massa de renda real do setor permaneça em patamares muito deprimidos, puxando seu PIB para baixo, a produção de insumos típicos da construção exibiu alta acentuada no trimestre passado (1,5% ante o 4T20 e 15,4% ante o 1T20).

Por sua vez, calculamos que o PIB de Serviços tenha crescido 0,5% entre o 1T21 e o 4T20 (recuo de 0,6% em relação ao 1T20). Os subsetores de serviços tiveram desempenhos distintos no período, segundo nossas estimativas. Como destaque positivo, os Serviços de Transporte e Armazenagem mostraram recuperação importante na margem, em linha com o bom desempenho da indústria. Além disso, os Serviços de Informação e Comunicação, Serviços de Intermediação Financeira e Atividades Imobiliárias e Aluguéis seguiram em rota de expansão. Como esses setores apresentaram resultados sólidos no final de 2020, as leituras do 1T21 devem apresentar crescimento moderado ante o 4T20, mas expressivo em termos interanuais (ou seja, frente ao 1T20). No primeiro caso, chama a atenção a tendência altista do grupo de Tecnologia da Informação (TI), a qual foi potencializada durante a pandemia (possivelmente devido à expansão de novas rotinas profissionais, com destaque ao trabalho remoto). Os Serviços de Administração, Saúde e Educação Públicas também devem ter crescido na margem, mas seguem em níveis muito aquém da normalidade. 

Por outro lado, os subsetores de Comércio e Outros Serviços devem apresentar resultados fracos no 1T21, ainda que acima das estimativas originais. Esperamos queda de 1,6% no primeiro caso, em comparação ao 4T20 (e ligeira alta de 0,4% ante o 1T20). A nosso ver, a redução substancial da massa de renda ampliada disponível na virada do ano, causada principalmente pela interrupção de medidas governamentais de enfrentamento à pandemia (transferências do auxílio emergencial como principal fator), acabou sendo parcialmente compensada pela utilização da poupança circunstancial formada ao longo do ano passado. No caso de Outros Serviços, esperamos ligeiro aumento de 0,4% em relação ao 4T20, mas tombo de 6,1% frente ao 1T20, já que os serviços prestados às famílias foram severamente impactados pelas restrições de distanciamento social – intensificadas a partir de meados de fevereiro – para contenção do contágio da COVID-19.

A propósito, no que diz respeito à ótica da Demanda, o Consumo das Famílias deve ter encolhido no 1T21 – estimamos declínios de 0,6% ante o 4T20 e 2,5% ante o 4T20. Por sua vez, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) deve apresentar sinais adicionais de recuperação. O aumento significativo do consumo aparente de bens de capital e da produção de insumos típicos da construção civil estão por trás da nossa expectativa de crescimento de 10,8% para a FBCF entre o 1T21 e o 1T20; apesar disso, os investimentos devem exibir ligeira queda (-0,5%) em comparação ao 4T20, dada a base de comparação muito elevada (o componente registrou expansão ao redor de 20% no último trimestre de 2020). O Consumo do Governo também deve exibir elevação ante o 4T20, mas os níveis seguem deprimidos. Por fim, acreditamos que tanto as exportações quanto as importações experimentaram aumentos relevantes na margem. Os resultados do setor externo continuam bastante voláteis, mas há tendência de crescimento: a recuperação robusta da economia global (com termos de troca favoráveis ao Brasil) deve puxar as vendas externas, enquanto a normalização da economia doméstica tende a reforçar a retomada das importações, após aguda contração no ano passado.

O Que Esperar dos Próximos Trimestres?

As divulgações dos dados de atividade econômica relativos ao 2º trimestre têm sido relativamente favoráveis. Os índices de mobilidade (circulação) vêm melhorando de forma contundente desde meados de abril, levando à retomada do comércio varejista e dos serviços prestados às famílias. Tais atividades devem ter crescido no mês passado, compensado parcialmente as perdas observadas em março. E os meses seguintes também tendem a registrar números positivos.

Projetamos expansão de 1,3% para as vendas reais do varejo ampliado no 2T21 em comparação ao 1T21, após ajuste sazonal (com base em dados da Pesquisa Mensal do Comércio – PMC). Para as receitas reais do setor de serviços (classificação da Pesquisa Mensal de Serviços – PMS), esperamos alta de 1,0% na mesma base comparativa. Em nossa opinião, a nova rodada de pagamento do auxílio emergencial e a antecipação do pagamento de benefícios previdenciários (13º salário do INSS) ajudarão a sustentar a demanda interna no 2T21. Neste sentido, a confiança dos consumidores deve seguir em tendência de alta – após queda profunda em março, o índice exibiu números positivos nas leituras de abril e maio, aproximando-se dos patamares vistos antes da “segunda onda da COVID-19”.

Por sua vez, a produção industrial deve apresentar contração no trimestre corrente (nossa projeção preliminar é -1,4%), dada a herança estatística negativa deixada pelos resultados de março e por recuo adicional do setor secundário em abril. Os níveis de produção do setor automotivo continuam fracos, em grande medida devido à escassez de matérias-primas relevantes. Já os setores com maior sensibilidade à demanda externa devem se beneficiar da firme retomada da economia global, o que, combinado aos estoques de bens finais ainda insuficientes em algumas cadeias produtivas, sinaliza recuperação da indústria nos próximos meses.

Com base nesses fatores, prevemos crescimento de 10,7% para o PIB do 2T21 frente a igual trimestre de 2020. Em comparação ao 1T21, entretanto, projetamos queda de 0,6%. Ainda há muitas incertezas em torno do desempenho do PIB no trimestre atual. As principais pesquisas mensais do IBGE (ex: PIM-PF; PMC; PMS) relativas a abril ainda não foram publicadas, e as estatísticas mais recentes da COVID-19 emitiram sinais mistos. 

Cuidado com o ajuste sazonal

Algumas dúvidas também são referentes aos métodos de dessazonalização, já que o quadro pandêmico deve ter impactado os fatores sazonais no período recente. Por falar em ajuste sazonal, é importante ponderar que, após a divulgação dos números do PIB de determinado trimestre, os valores dessazonalizados dos períodos anteriores podem sofrer alterações relevantes. Tais mudanças tendem a ocorrer em maior magnitude em momentos de “quebras” nas séries temporais (como no cenário atual), o que demanda cautela adicional nos cálculos de carrego estatístico (carryover) e em eventual extrapolação dos resultados mais recentes.

Olhando mais à frente

Acreditamos que o PIB voltará a crescer perto de 1% no 3T21 (nossa estimativa atual é 0,8% ante o 2T21, já expurgados os efeitos da sazonalidade). Para o último trimestre do ano, por sua vez, antevemos uma taxa de crescimento mais modesta (0,3%, segundo cálculos atuais). Consequentemente, nosso cenário básico indica expansão de 4,1% para o PIB de 2021.

Como alguns indicadores de atividade surpreenderam positivamente as estimativas nas últimas semanas, atribuímos um viés de alta a esta projeção de crescimento anual do PIB. Porém, reiteramos que muitos riscos permanecem no radar. Destacamos (i) as incertezas sobre a dinâmica da COVID-19 no país (surgimento de nova variante do vírus, atrasos na entrega de insumos para a fabricação das vacinas, oscilações no ritmo de aplicação das doses, etc.); (ii) eventual persistência (e maior grau de disseminação) da escassez de matérias-primas em cadeias industriais representativas; e (iii) a pressão altista da inflação corrente.     

O ritmo se mantém em 2022?  

Por fim, reforçamos nosso cenário de crescimento moderado do PIB em 2022 – prevemos alta de 2,0%. Os efeitos defasados do aperto da política monetária ao longo dos próximos trimestres (vemos a taxa Selic chegando a 5,50% a.a. no final deste ano), os patamares ainda elevados de desemprego (projetamos taxa de desocupação de 13,4% no final de 2021 e 11,8% no final de 2022) e a maior percepção de riscos fiscais e políticos em ano eleitoral são fatores explicativos importantes do nosso cenário central para a atividade econômica no ano que vem.

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