PIB deverá crescer 1,7% em 2022

Revisamos para baixo nossas expectativas de crescimento do PIB. A piora das condições financeiras e os efeitos da crise hídrica são os principais fatores por trás das alterações.


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  • O PIB do Brasil ficou praticamente estável no 2º trimestre, resultado abaixo das expectativas. Apesar disso, esperamos que a economia doméstica retome a trajetória de crescimento no 2º semestre, impulsionada pela recuperação dos serviços prestados às famílias e normalização gradual dos serviços públicos.
  • O menor carrego estatístico deixado pelos resultados do último trimestre nos levou a revisar, embora sutilmente, a projeção de expansão do PIB em 2021, de 5,5% para 5,3%.
  • Mais importante do que isso, destacamos o surgimento de alguns ventos contrários à atividade econômica brasileira. O aumento da percepção de risco fiscal, incertezas no campo político e inflação alta pioraram as condições financeiras de forma significativa nas últimas semanas. Além disso, os efeitos da crise hídrica exercem pressão baixista sobre produção e consumo.
  • Neste contexto, revisamos também nossa projeção de crescimento do PIB em 2022, de 2,3% para 1,7%.
  • Observamos que o novo cenário base não incorpora racionamento de energia elétrica propriamente dito (redução forçada do consumo), o que, se materializado, puxaria o PIB do ano que vem ainda mais para baixo. Persistência da pressão inflacionária e desaceleração mais intensa da demanda global representam outros riscos importantes para o quadro da atividade econômica brasileira.

PIB do 2º trimestre abaixo das expectativas

O PIB do Brasil ficou praticamente estável no 2º trimestre de 2021 em comparação ao trimestre imediatamente anterior (-0,05%), resultado inferior à nossa expectativa (0,3%) e ao consenso de mercado (0,2%). Pela Ótica da Oferta, a recuperação do setor de Serviços foi o destaque positivo (embora a um ritmo mais suave do que o esperado), na esteira dos avanços na campanha de imunização contra a Covid-19 e aumento da mobilidade, o que compensou o fraco desempenho da Agropecuária e da Indústria de Transformação no período. Em relação ao último, custos com matérias-primas bastante pressionados e escassez de insumos em algumas cadeias manufatureiras (indústria automotiva como principal exemplo) vêm pesando sobre os níveis de produção, quadro que não deverá ser revertido em breve.

Pela Ótica da Demanda, as Exportações registraram aumento substancial no 2º trimestre, impulsionadas pela demanda externa sólida. Por outro lado, o Consumo das Famílias andou de lado no período, como reflexo da inflação elevada e dos níveis ainda deprimidos da massa salarial.

A despeito da surpresa baixista trazida pelos resultados do 2º trimestre, esperamos recuperação importante do PIB na segunda metade do ano, puxada sobretudo pela retomada dos serviços prestados às famílias e normalização gradual dos serviços públicos. Por ora, estimamos alta de 0,8% para o PIB do 3º trimestre. Isto posto, o menor efeito de carrego estatístico deixado pelos números do último trimestre nos levou a revisar nossa projeção para o crescimento do PIB de 2021, de 5,5% para 5,3%.

Ventos contrários ao cenário da atividade econômica

Mais importante neste momento, destacamos o surgimento de alguns ventos contrários ao cenário da atividade local. Em primeiro lugar, o aumento da percepção de risco fiscal, incertezas políticas e inflação alta pioraram substancialmente as condições financeiras ao longo das últimas semanas. Por exemplo, as taxas de juros reais ex-ante (taxa Swap Pré x DI de 1 ano descontada à expectativa de inflação 12 meses à frente, um indicador relevante para a dinâmica da atividade econômica após dois a três trimestres) saltaram de cerca de 2,2% no final de junho para 3,6% atualmente. Em nosso cenário básico anterior, acreditávamos que as taxas de juros reais atingiriam 3% no início do próximo ano.

Se as atuais condições de mercado persistirem, essas taxas podem chegar a 5% em janeiro de 2022. Embora esperemos alguma descompressão nos próximos meses, as taxas de juros reais devem ficar em níveis mais elevados do que prevíamos originalmente.

Além disso, a crise hídrica (e o subsequente aumento do custo da energia elétrica) exerce pressão negativa sobre os níveis de produção e consumo na economia brasileira. Os impactos são sentidos por meio da redução da massa de renda real disponível às famílias (menor poder de compra), elevação dos custos da indústria e perdas na produção agrícola.

Considerando a deterioração das condições financeiras, os efeitos da crise hídrica e o menor carrego estatístico a ser deixado pelo PIB deste ano, revisamos também nossa projeção para o crescimento do PIB no ano que vem, de 2,3% para 1,7%.

O novo cenário base não incorpora racionamento de energia elétrica propriamente dito (redução forçada do consumo), mas reconhecemos a probabilidade crescente deste cenário alternativo, que puxaria o crescimento do PIB de 2022 ainda mais para baixo. A persistência da pressão inflacionária (possivelmente implicando uma política monetária mais dura do que o esperado) e eventual desaceleração mais intensa da demanda global (riscos associados à disseminação da variante Delta da Covid-19) representam outros riscos importantes para o quadro da atividade doméstica.

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