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Como lidar com momentos de volatilidade extrema?

Além da queda acentuada nos preços de ativos, a volatilidade também segue muito elevada nos mercados. Discutimos o que fazer e como lidar com tantas incertezas.

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Volatilidade: vo·la·ti·li·da·de
1 Qualidade do que é volátil.
2 FÍS-QUÍM Propriedade que têm certas substâncias sólidas ou líquidas de se transformar em vapor, mesmo à temperatura ambiente.
3 ECON Medida da estabilidade de um índice econômico ou do preço de uma ação, título ou mercadoria.

2022 tem sido um ano difícil para os preços de ativos no mundo. O índice MSCI World – que mede a performance das Bolsas no mundo – cai 16,5% até agora, enquanto o índice S&P 500 nos EUA já cai 15,5% no ano. O S&P 500 está caindo há 6 semanas seguidas, e tem o seu pior início de ano desde 1939 (fonte: CNN).

Não só o investidor de Bolsa está sofrendo. A forte alta de taxas de juros no mundo também traz grandes perdas ao investidor de renda fixa. Lembre-se que o preço de um título de renda fixa é inversamente proporcional à taxa de juros. As taxas de juros sobem, os títulos caem. Por exemplo, o ETF que investe em títulos do Tesouro americano acima de 20 anos de prazo (ticker: TLT) já cai 21% esse ano, dada a forte alta de juros nos EUA.

Dessa forma, o famoso portfólio 60/40 nos EUA, que investe 60% em renda fixa e 40% em renda variável, tem o seu pior início de ano na história (fonte: Barrons).

Por que os preços de ativos sofrem tanto em 2022?

A razão para tanta fraqueza para os preços de ativos tem tudo a ver com a mudança de regime que o mundo está vendo, como escrevemos no Xpresso recente “Mudança de regime no mundo, e por que isso é relevante?”.

Enquanto, nos últimos anos, os Bancos Centrais (BC) foram os “super-heróis” dos mercados, prontos para salvar a todos com mais injeção de liquidez e juros cada vez menores, agora o jogo mudou. A maior inflação dos últimos 40 anos no mundo desenvolvido forçou os BCs a focarem exclusivamente em trazer a inflação de volta para as metas.

Porém, trazer a inflação de 8% para 2% não será uma tarefa fácil. A deflação da economia passará inevitavelmente por juros mais altos, que levarão à contração de demanda, desaceleração econômica e aperto nas condições financeiras. Ou seja, o risco de recessão econômica é real.

E é isso que os mercados estão precificando. Um cenário de juros maiores por mais tempo, inflação ainda alta, e um risco de recessão cada vez maior. Soma-se a esse cenário uma guerra, choque de preços nas commodities, disrupção nas cadeias de logística e suprimento por conta dos lockdowns na China, e temos essas fracas performances no mercado de ações e renda fixa.

A volatilidade também segue extrema

Além da queda pronunciada dos preços de ativos, a volatilidade também segue muito elevada, o que era de se esperar, dado o tamanho das incertezas.  O VIX, índice de volatilidade da Bolsa Americana, também conhecido como o índice do “medo”, se encontra próximo de 30%, e vem se mantendo em um nível elevado esse ano. A média do VIX esse ano é de 27,5%, quase 10 pontos percentuais acima da média dos últimos 10 anos de 17,8%.

Isso é um sinal claro que os investidores estão mais cautelosos em relação ao futuro, e com um grau de incerteza maior, demandando mais opções para proteger as suas carteiras.

Para se ter uma idéia do que isso significa, uma volatilidade anualizada de 30% significa que o mercado espera que os preços das ações tenham uma variação média diária de 1,89%. Ou seja, o mercado deve subir ou cair 1,89% na média, todos os dias, o que parece bastante.

Índice de Volatilidade da Bolsa Americana – VIX

Fonte: Yahoo Finance

Além da volatilidade anual estar elevada, medida pelo VIX, também temos visto uma acentuada volatilidade durante a sessão de negociação. O gráfico abaixo mostra a variação de preços para o índice Nasdaq nos últimos 5 dias. É visível o tamanho da volatilidade de preços durante o mesmo dia de negociação, o que significa que os investidores estão bastante incertos com o cenário adiante.

Gráfico diário do Nasdaq – últimos 5 dias

Fonte: Yahoo Finance

Cautela ainda se mostra necessária

Como falamos na última semana, O Urso ataca novamente, vários indicadores mostram que o mercado de ações lá fora possa estar oversold (“sobre-vendido”) no curto prazo. Olhamos por três óticas (preço, valuation e sentimento) que mostram que o mercado possa ter uma recuperação de preços após fortes quedas. Essa semana, os índices nos EUA caíram entre 2-3%, mas começaram a ensaiar uma recuperação na sexta feira, com altas entre 2-4%.

Porém, acreditamos que a cautela ainda se mostra necessária. O combate à inflação está apenas começando pelos BCs, o que levará ao aumento das taxas de juros e retirada dos estímulos econômicos. Como vimos durante o período de liquidez abundante e juros zero, era difícil lutar contra o Fed e os Bancos Centrais. Agora essa máxima também é verdade, e é preciso cautela maior em um cenário em que os BCs estão tentando deflacionar a economia global.

Esse cenário está elevando o risco de recessão econômica, o que também pode colocar pressão adicional nos preços de ativos. Enquanto o mercado até agora caiu por conta de uma compressão de múltiplos (redução no indicador Preço/Lucro), uma recessão pode trazer contração dos Lucros das empresas, que ainda seguem em patamares bastante sólidos.

O Brasil – no relativo – continua bem

Como temos repetido, quase como uma vitrola quebrada, o Brasil segue bem, no relativo em relação à outros mercados. Enquanto as Bolsas despencam lá fora esse ano, o Ibovespa sobe +13% em dólares e +2% em Reais no ano. Sim, o índice caiu de 120 mil pontos para próximo de 100 mil pontos recentemente, mas comparado ao tamanho da queda das Bolsas mundo afora, dá para ver que o Brasil está se saindo melhor que as Bolsas em outros países. Nós seguimos otimistas com a Bolsa e os ativos brasileiros. Veja o Raio XP da Bolsa para ler a última atualização da nossa visão.

Alguns motivos estão por trás dessa boa performance do Brasil. Os principais são:

1) grande exposição aos setores que investidores querem no momento, que são protegidos em relação à alta da inflação e juros. Esses setores são commodities e bancos, que representam 66% da nossa Bolsa,

2) valuation atrativo: os ativos brasileiros seguem muito baratos, negociando com um forte desconto em relação às médias históricas. A Bolsa brasileira está atualmente negociando a 6,8x Lucro esperado para os próximos 12 meses, um desconto de 42% em relação à média histórica de 11,7x nos últimos 10 anos.

3) altas taxas de juros: o fato do Brasil ter saído na frente em relação ao aumento das taxas de juros – a Selic hoje se encontra em 12,75% e os juros reais futuros (IPCA+) estão em 5,75% – faz com que o Brasil passe a atrair fluxo de investidores para o mercado de renda fixa. Além disso, as altas taxas de juros também ajudam a fortalecer o Real em relação ao Dólar. No ano, o Real já apreciou 9,3%, tendo a 2ª melhor performance entre todas as moedas emergentes.

Como lidar com a alta volatilidade?

Pensando nesse cenário de incertezas elevadas e alta volatilidade, preparamos algumas dicas de como o investidor deve lidar com esse período.

  1. Não tente ser herói: não compre um ativo apenas porque ele “caiu demais”. Essa análise é extremamente superficial e perigosa, pois traz uma série de vieses com ela, como o viés da ancoragem e o viés da recência, onde os investidores miram os preços recentes de um ativo e não as perspectivas futuras daquele ativo. Um ativo que caiu 90%, por exemplo, é um ativo que caiu 80%, parecia “atrativo” para muita gente, e depois caiu mais 50%.
  2. Cuidado com alavancagem: se alavancar no mercado em momentos de quedas de preço recentes é sempre tentador, dada a perspectiva de ganhos maiores, caso o investidor acerte a tendência de preço. Mas a alavancagem também pode quebrar o investidor, e tirá-lo do mercado como consequência. Cuidado ao usar alavancagem, principalmente num cenário de maior volatilidade e incertezas.
  3. Cuidado com os “ralis de bear market”: uma tendência de baixa no mercado pode trazer uma série de movimentos bruscos de alta no caminho, que possam parecer que o mercado já alcançou um fundo. Por exemplo, durante o crash da internet em 2000, o Nasdaq teve 16 ralis durante o período, com uma média de performance de +22,7%. Porém, durante toda a queda, o índice acabou caindo 78% até chegar em um fundo em 2002. Portanto, ao invés de tentar adivinhar o “fundo” nos mercados, melhor é manter a sua estratégia durante os períodos de maior turbulência.
  4. Mantenha caixa: em qualquer cenário de mercado é importante manter caixa, tanto para cobrir a reserva de emergência, quanto para poder aproveitar as oportunidades que aparecem no meio do caminho. No Brasil atualmente, manter um caixa mais alto que o normal não é uma má ideia, pois a rentabilidade da renda fixa pós fixada está próxima de 13% ao ano. Nos países onde os juros ainda são muito baixos, manter um caixa elevado tem um custo de oportunidade maior, mas não no Brasil.
  5. Olhe produtos que tenham proteção à perdas: o momento de alta volatilidade e riscos em alta também são bons momentos para buscar estratégias em Bolsa que tenham uma proteção em caso de queda de preços, como por exemplo em estratégias de opções, notas estruturadas e COEs.
  6. Invista em ativos de alta qualidade: durante uma queda forte de preços nas Bolsas, os bons ativos tendem a cair em sintonia com ativos de qualidade pior. Isso abre uma oportunidade clara para investidores com horizonte de longo prazo de adicionar ativos de alta qualidade que estão sendo negociados à um patamar de preços atrativos.
  7. Não tente acertar “a bola da vez”: o investidor que está constantemente mexendo em toda a sua carteira tentando acertar qual ativo terá a melhor performance naquele momento corre dois riscos claros. Além do custo de transação aumentar, esse investidor corre o risco de estar sempre atrasado, e investindo no melhor ativo do momento no pico de preços. A melhor estratégia é manter a alocação ideal para o seu perfil de investidor, que trará retornos melhor no longo prazo e diminuição da volatilidade da carteira.
  8. Mantenha a calma e o horizonte de longo prazo: talvez a dica mais relevante, porém a mais difícil de implementar em momentos de turbulência. Conseguir manter a calma e mirar um horizonte de longo prazo é a melhor estratégia a seguir. Caso você esteja muito ansioso com tanta volatilidade, elevar o caixa com investimentos na renda fixa pós-fixada também é uma opção.

Tenha uma ótima semana, e bons negócios!

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