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“O grande dinheiro está em coisas que as pessoas não querem fazer”, diz Howard Marks em live da XP

Confira o que um dos maiores investidores do mundo pensa sobre a crise do coronavírus.

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“O segredo para o sucesso do investimento a longo prazo não é um objetivo ocasional, é uma defesa de longo prazo, consciente dos riscos que você está assumindo e apenas fazendo isso com sabedoria.” – Howard Marks

O fundador da Oaktree Capital Management e um dos maiores investidores do mundo, Howard Marks, realizou uma live exclusiva com a XP na noite de segunda-feira (30). Durante a conversa, ele reafirmou sua convicção de que “o grande dinheiro, o dinheiro “fácil”, está em coisas que as pessoas não querem fazer, coisas que as pessoas tem medo de fazer, e isso significa investir em períodos de alto estresse”.

Para Marks, autor do livro “Dominando o Ciclo de Mercado”, geralmente os ciclos que observamos são resultados de mudanças econômicas e nos negócios. Recentemente, infelizmente, a mudança no ciclo se deu por conta do coronavírus. Trata-se de um evento que ninguém tinha como prever e que está promovendo uma grande desaceleração tanto na economia quanto nas finanças.

Isso porque o coronavírus faz com que as pessoas fiquem em casa, ou seja, não participem da economia da maneira intensa como o faziam antes. Marks faz uma analogia e afirma que é como se a economia estivesse em “coma”, a espera de uma cura. O que estaria mantendo essa economia viva são os estímulos das principais autoridades monetárias globais.

Para Marks, “Investidores estão assumindo que os planos dos governos vão funcionar. O pensador de segunda ordem não está tão confiante assim. Ainda estamos indo para um período problemático e eu não quero fazer premissas positivas” (no curto prazo).

Ele cita, por exemplo, a teoria monetária moderna, que veio ganhando adeptos nos últimos dois anos, mas da qual ele notoriamente discorda. “Durante a minha infância, a discussão sempre foi se ter dívidas valia a pena. Hoje, muitos acreditam que não há problema no governo ter dívidas ilimitadas contanto que se tenha uma moeda forte como o dólar. Mas isso não me parece correto.”

A grande questão, na visão do investidor, não é se o Fed continuará promovendo estímulos, pois ele já sinalizou que o fará. A questão é se o governo vai continuar dando suporte para que a economia sobreviva e quais serão os possíveis impactos negativos dessa política no médio prazo? Ele cita, por exemplo, a ameaça de hiperinflação nos próximos meses, diante do choque de oferta promovido pela pandemia combinado com a “chuva de dinheiro” devido aos estímulos monetários dos governos.

Marks acredita que trata-se de um cenário diferente daquele de catástrofe natural ou até mesmo do 11 de Setembro e da crise financeira global em 2008. Nessas ocasiões, a retomada econômica ocorreu de maneira relativamente rápida. Desta vez, no entanto, ainda sequer sabemos quando a quarentena acabará, e as pessoas podem vir a perder seus empregos caso a economia não volte rápido o suficiente.

“Quanto mais baixo fica o preço, mais compramos”

No meio tempo, Marks confirmou que seu fundo já começou a investir, comprando ativos que passaram a ser precificados de maneira irracional por conta das rápidas vendas após o início do surto. Nas palavras do investidor, “quanto mais baixo fica o preço, mais compramos”.

Ele menciona, por exemplo, a compra de título de crédito com taxas bastante interessantes, mas lembra que é sempre importante se adaptar à tolerância a risco de cada cliente. Ele cita como oportunidade, por exemplo, empresas em mercados emergentes com dívidas em dólar, que podem ter dificuldades no curto prazo mas devem ter resultados bons no longo prazo.

Além disso, acredita que as maiores oportunidades ficam nos setores que mais se desvalorizaram. Por exemplo, o setor de petróleo: em 2007, o barril atingiu US$ 150, em 2015 estava em US$ 110, mas hoje está a apenas US$ 19, o menor nível na história, possivelmente devido à uma queda exagerada diante dos eventos recentes.

Outro exemplo são os navios de cruzeiro. O setor foi muito penalizado diante das notícias sobre viajantes contaminados à bordo. Marks acredita, no entanto, que no longo prazo sua demanda deve se normalizar, assim como a de companhias aéreas e de hotéis. O investidor fala em uma demanda para essas duas últimas categorias a um nível de 75% da atual dentro de dois anos.

Os investidores sempre buscaram investir em bons negócios. Marks reforça, portanto, que a atitude chave é buscar investir em bons negócios que ainda não foram percebidos como bons pelos grandes investidores. Trata-se de um exemplo de “raciocínio de segunda-ordem”, como o investidor desenvolve em seu livro, “A coisa mais importante”.

Gestão de risco é a coisa mais importante

Pensando no nível macroeconômico, Marks acredita que o PIB global e os lucros das empresas do S&P 500 deverão observar a pior queda da história do mercado nos próximos meses. O ponto é que, se ele esperar até lá para investir, possivelmente será tarde demais, e os preços já não estarão tão baixos quanto estão hoje.

Falando em tarde demais, Marks reafirmou a importância da gestão de risco, que considera essencial para a obtenção de sucesso nos retornos no longo prazo. Para o investidor, que esteve no Brasil há dois anos, devem ter sucesso aqueles que, desde então, conseguiram gerir adequadamente o risco de seus portfolios. Marks cita, inclusive, a famosa frase de Warren Buffett: “só quando a maré baixa é que vemos quem estava nadando pelado.”

Em tempos de crise, mesmo um portfolio diversificado pode não ser o suficiente. Marks cita um ditado antigo de que “quando o mercado vai mal, a correlação de todos os ativos vai para 1, ou seja, todos vão mal simultaneamente”. Ninguém tinha como prever o coronavírus, a a melhor coisa a se fazer agora, em termos de ajuste de portfolio, é demandar bons retornos.

Todos os investidores estão mais preocupados. Por outro lado, quem tomar risco agora, pode ser muito bem remunerado. Por isso a Oaktree segue procurando por empresas que eles acreditam que estarão bem daqui dois, três anos, e que devem remunerar bem seus acionistas e credores.

“Se tiver uma boa gestão, o Brasil pode ir bem”

Quando perguntado se acredita que o Brasil está em um outro momento do ciclo, como afirmou Paulo Guedes recentemente, Marks afirma que não é nenhum especialista no país. Evidentemente, existem coisas que importam no Brasil mas não importante no resto do mundo e vice-versa. No entanto, ele reconhece que o Brasil possui vastos recursos naturais, e que “se tiver uma boa gestão, pode ir bem.”

Ao final, Betina Roxo, estrategista de ações da XP Investimentos, comentou que o livro de Marks “A coisa mais importante” é o mais recomendado pelos convidados do Stock Pickers, o podcast mais popular sobre mercado financeiro do Brasil. Marks afirmou que as lições lá descritas seguem atuais e que, além de seu próprio livro, recomenda outros dois: “Iludidos pelo acaso”, de Nassim Nicholas Taleb, e “A short history of financial euphoria”, de John Kenneth Galbraith, um herói pessoal do investidor.

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