Jalles Machado (JALL3): DNA orgânico no setor de Açúcar & Etanol; iniciamos com Compra

Estamos iniciando a cobertura da Jalles Machado (JALL3) com recomendação de Compra e preço-alvo de R$ 14 por ação.


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Fora do mundo da tecnologia, nos parece que poucos setores se recuperaram dos efeitos da pandemia tão rapidamente quanto o de açúcar e etanol (S&E, na sigla em inglês). Vale lembrar que uma usina nada mais é do que uma grande indústria que processa cana de açúcar para transformá-la de duas maneiras: (i) em etanol, que em geral é vendido para grandes distribuidoras de combustível; (ii) ou em açúcar, que pode ser vendido em sua versão bruta (chamada VHP) ou refinada. Ou seja, a cada safra, o usineiro tem que fazer a escolha e “virar a chave” e escolher se quer focar um pouco mais no açúcar ou um pouco mais no etanol. Confira a seguir nossa visão sobre esse balanço de produção entre as duas commodities atualmente.

Do lado do açúcar, espera-se que a demanda continue crescendo em função de dois principais fatores: (i) gradual retorno ao “normal” no caso das economias desenvolvidas, onde a vacinação tem ocorrido de maneira mais ágil, e também onde a demanda por açúcar orgânico vem crescendo de maneira bastante acelerada, em linha com a tendência global de procurar uma vida mais saudável; (ii) em função também da mudança de hábitos no caso das economias em desenvolvimento, tendência que já vinha se desenrolando pré-pandemia e que deve ser acelerada com a suspensão das restrições, sobretudo na Ásia.

Do lado do etanol, seu consumo também estaria se recuperando, impulsionado sobretudo pela alta do petróleo, que superou a marca dos 60 dólares por barril pela primeira vez desde 2019. Por enquanto, o principal desafio é o aumento da produção do etanol, uma vez que o açúcar tem oferecido melhor rentabilidade para as indústrias e vem ganhando a preferência dos usineiros. As negociações de contratos de carbono devem ajudar a equilibrar essa equação no futuro. Até agora, porém, os preços no Brasil não estão altos o suficiente para mudar as decisões de produção, conforme detalhamos mais para frente.

Além dos altos preços do petróleo e do açúcar em todo o mundo, os produtores brasileiros ainda contam com mais um impulso: o real desvalorizado frente ao dólar. O câmbio nos patamares atuais representa um incentivo extra para produtores brasileiros exportarem tanto açúcar, quanto etanol.

De qualquer forma, ainda não está claro se estamos no auge do ciclo de S&E – raramente conseguimos identificar o ápice de um movimento enquanto ainda estamos vivenciando-o. Por outro lado, a bonança no setor já estaria se prolongando o suficiente para renovar as esperanças dos usineiros, inclusive trazendo novos participantes para o mercado.

O que mais gostamos na Jalles

Nesse sentido, vemos com bons olhos as vantagens competitivas da Jalles Machado (JALL3), dentre elas:

  • Sua posição como a maior exportadora de açúcar orgânico do mundo, produto que apresenta preços muito vantajosos versus o açúcar cristal e o VHP (a versão commoditizada);
  • Sua caracterização como referência em termos de produtividade agrícola no cenário brasileiro de Açúcar & Etanol, utilizando tecnologias de ponta e focando na integração entre o segmento agrícola e o industrial;
  • O fato de mais de 1/3 de suas receitas virem de produtos não-commoditizados, se afastando do perfil tradicional das usinas e mitigando a volatilidade típica do setor.

Quais os principais riscos da tese

  • Por enquanto, a produção de açúcar orgânico está voltada principalmente para exportação, uma vez que o mercado doméstico ainda não está tão desenvolvido quanto o internacional e apresenta preços menos vantajosos;
  • Ainda no mercado doméstico, a venda de etanol da Jalles está fortemente concentrada em Goiás (cerca de 70% do total comercializado), o que é positivo em termos de potencial de crescimento, mas negativo em termos de dependência regional;
  • O setor de açúcar e etanol estaria passando por um momento único em sua história, devido a uma combinação de câmbio desvalorizado e preços elevados de açúcar e etanol. É possível que daqui para frente as margens não sejam tão boas quanto são hoje.

Onde podemos ser positivamente surpreendidos

  • Logística: as duas usinas da Jalles ficam próximas a ferrovias, o que pode vir a reduzir custos logísticos, tanto para o mercado interno quanto para o mercado externo no médio prazo;
  • CBIOs: esperamos uma tendência de alta nos preços dos Créditos de Carbono, que podem se tornar uma receita significativa para a empresa ainda no curto prazo;
  • Eficiência operacional: nosso modelo não considera a compra de nenhuma usina por parte da Jalles Machado; por outro lado, é sabido que um M&A estaria nos planos da empresa.

Iniciando com Compra: esperamos que o desconto versus a São Martinho (SMTO3) diminua

Estamos iniciando a cobertura da Jalles Machado (JALL3) com recomendação de Compra e preço-alvo de R$ 14 por ação: estamos confiantes com a capacidade da empresa de entregar resultados saudáveis ​​no longo prazo.

Ou seja, enxergamos um potencial de alta de mais de 80% versus o preço atual da ação e de mais de 50% considerando o preço da oferta pública inicial da empresa – vale lembrar que, desde o IPO em março, o preço das ações caiu cerca de 16%, performando significativamente abaixo do Ibovespa, que caiu aproximadamente 4%.

Nosso preço-alvo é baseado na metodologia do Fluxo de Caixa Descontado (DCF, na sigla em inglês) e assume um custo ponderado de capital (WACC) de 10%, juntamente com um crescimento na perpetuidade de 4%, todos em reais e em termos nominais. Também incorporamos as projeções do time de Economia da XP, incluindo uma taxa SELIC de longo prazo de 6%, juntamente com uma inflação de 3,3% a partir de 2023.

De acordo com nossas estimativas, JALL3 é negociado a 3x EV/EBITDA 2021, bem abaixo de sua concorrente listada mais comparável, a São Martinho (SMTO3), que é negociada a cerca de 5,3x – na média do consenso, desde o início do ano. Adicionalmente, vemos a Jalles sendo negociada a 6x EV/EBIT 2021, representando um desconto de aproximadamente 40% em relação ao múltiplo de consenso para SMTO para o mesmo período. Vale lembrar que muitos investidores preferem olhar para EV/EBIT ao invés de EBITDA no caso das usinas de Açúcar e Etanol em função do papel relevante que a depreciação (D&A) exerce no resultado das empresas do setor.

Nesse contexto, esperamos que o desconto da Jalles versus a São Martinho seja reduzido olhando para frente, uma vez que estamos confiantes com a capacidade da empresa goiana de entregar resultados saudáveis ​​no longo prazo. Também entendemos que a Jalles vem fazendo um excelente trabalho em transmitir seu apelo premium dentre os participantes do setor de Açúcar e Etanol, principalmente devido à sua liderança no mercado de açúcar orgânico global.

Por fim, também acreditamos que existe um gatilho interessante de curto prazo, qual seja, a divulgação dos resultados 4° trimestre de 2021 (4T21) em junho. Esperamos uma reação positiva do mercado aos resultados do ano-safra 2020/21, pois entendemos que deve ser uma das melhores safras da história da empresa e isso ainda não estaria sendo precificado pelo mercado.

Entenda como o nosso preço-alvo varia conforme os preços do Açúcar & do Etanol

Conforme destacamos na seção de riscos acima, o setor de açúcar e etanol estaria passando por um momento único em sua história, devido a uma combinação de câmbio desvalorizado e preços elevados de açúcar e etanol. Por isso, realizamos um teste de sensibilidade, para entender como o nosso preço-alvo varia conforme os preços do Açúcar e do Etanol variam.

No nosso cenário base, adotamos 15,8 cents por libra-peso para o VHP para 2021/22 e R$ 2,49 por metro cúbico para o etanol hidratado, chegando em um preço-alvo de R$ 14 por ação. No pior dos casos (canto superior esquerdo), o preço alvo iria para R$ 12,50; no melhor dos casos (canto inferior direito), o preço iria para R$ 15,20.


O que é a Jalles Machado (JALL3)?

A Jalles Machado é uma usina de cana de açúcar localizada em Goiás que produz principalmente etanol e açúcar (tanto refinado quanto orgânico), mas que também produz levedura, sanitizantes e energia elétrica.

A indústria é composta por duas usinas, a Usina Otávio Lage (UOL) e a Usina Jalles Machado (UJM), ambas próximas a cidade de Goianésia e distantes cerca de 40km uma da outra. Tal proximidade proporciona grande eficiência logística, especialmente no caso do transporte de matéria-prima de uma unidade para a outra conforme as necessidades de moagem de cada uma.

Usina Jalles Machado (UM)
Usina Otávio Lage (UOL)

Do lado operacional, a Jalles é uma das melhores empresas do setor, com alguns dos menores níveis de custo de produção segundo a consultoria FG/A. Um dos fatores que ajudaria a explicar tal eficiência no controle de gastos é que 100% dos canaviais são operados pela própria empresa por meio de parceria agrícola (arrendamento). Vale lembrar que, além da modalidade de cana-própria, uma usina também pode processar cana fornecida por terceiros, o que é muito comum no polo canavieiro no Sudeste.

Hoje, a Jalles é a segunda maior produtora de açúcar orgânico do mundo, sendo a maior exportadora global do produto. Essa linha de negócios é muito importante para a empresa, uma vez que se trata de um setor de alto crescimento que apresenta uma rentabilidade superior ao do açúcar em sua versão commodity (VHP), além de uma volatilidade menor.

Nesse sentido, diversificação de receita é o nome do jogo: para a Jalles, produtos não commoditizados já representam cerca de 35% da receita da empresa, conforme nossas expectativas para 2021.

Olhando para a frente, entendemos que o principal desafio da Jalles é aumentar sua capacidade de produção, considerando que hoje a empresa já opera com quase 100% de utilização de sua capacidade instalada. Ainda que não consideremos fusões e aquisições (M&A) nas nossas projeções, entendemos que a Jalles poderia seguir o caminho do M&A para conseguir expandir sua produção.

Nesse caso, uma série de precauções teriam de ser tomadas: entendemos que qualquer potencial alvo de aquisição teria de passar por um cuidadoso processo de diligência, sobretudo no que tange à qualidade do seu canavial; adicionalmente, entendemos que, caso a Jalles venha a operar fora de Goiânia, ela precisará de um estudo aprofundado da dinâmica de mercado da nova região.


Glossário: Entenda o básico do setor de açúcar e álcool

Açúcar VHP

Açúcar Refinado

Açúcar Orgânico

Etanol Anidro

Etanol Hidratado

ATR

Esse é o açúcar bruto; quando o açúcar é exportado, geralmente ele é transportado nesse formato. Seu nome vem da sigla em inglês para “Polarização Muito Alta”, o que indica que ele contém alto teor de sacarose em sua composição.

Esse é o açúcar que passou pelo processo de refino químico e que costuma ser vendido em pacotes de 1kg nos supermercados. Durante seu processamento, ele perde grande parte de suas características nutricionais, no entanto.

O açúcar orgânico não leva nenhum ingrediente artificial em sua produção, do plantio à industrialização. Ao invés de usar agrotóxicos, eventuais pragas na cana de açúcar são tratadas com elementos naturais como mariposas, por exemplo.

Esse é o etanol em sua versão praticamente pura, com mais de 99% de álcool. Essa é a versão que é misturada na gasolina, conforme determinação do governo, com o objetivo de baratear o combustível e reduzir sua emissão de poluentes.

Esse é o etanol em sua versão misturada com a água (cerca de 95% de álcool e 5% de água). Essa é a versão que é vendida nas bombas de combustível espalhadas pelo país e que pode ser utilizada no caso dos carros flex.

Essa é a sigla para Açúcar Total Recuperável, ou seja, a quantidade de açúcar (em quilogramas) que de fato sai da cana colhida (em toneladas). Nessa conta, por exemplo, é excluído o bagaço da cana, que pode ser reutilizado de outras formas.


Confira os 4 principais gráficos para entender a tese de Jalles

A Jalles Machado marcou a volta do agronegócio à Bolsa brasileira, sendo a primeira oferta pública no setor desde 2013. Números sólidos e boa governança são essenciais para qualquer empresa listada, mas nos parece que no agro isso é particularmente importante, por se tratar de um setor exposto a níveis significativos de volatilidade.

Nesse sentido, enxergamos a Jalles como um exemplo a ser seguido: a empresa tem balanços auditados desde 1987, além de contar com uma equipe de Relações com Investidores desde 2014. Como traduzimos isso em números? Antes de mais nada, vale fazermos dois pequenos lembretes sobre a contabilidade do setor de açúcar e álcool:

Assim como a maior parte das empresas do agro, a Jalles registra seus números com base no ano safra, que é diferente do nosso ano calendário tradicional: o ano safra 20/21, por exemplo, vai de março de 2020 até março de 2021.

No setor, muitos investidores preferem olhar o EBIT ao invés do EBITDA, uma vez que grande parte dos gastos com canavial são registrados como Depreciação, ou seja, o EBITDA acaba sendo um número incompleto no caso das usinas.

Isto posto, confira nossas principais estimativas para a temporada 20/21 nos gráficos abaixo:

  • Esperamos uma receita líquida de R$ 1,1 bilhão, um aumento de 19% versus a safra anterior, impulsionada sobretudo pela alta dos preços do açúcar e do etanol em 2020;
  • Conforme já divulgado pela empresa, a moagem da safra 20/21 fechou em torno de 5,3 milhões de toneladas, o maior nível já registrado pela empresa.
  • Esperamos um crescimento significativo do CAPEX industrial em 2021/22, em função do plano de expansão da capacidade de moagem previsto pela empresa para a próxima safra.
  • Em função da conjuntura favorável atual, esperamos que a margem EBIT chegue em 36% na safra 20/21, aumentando até 42% em 21/22 e depois passando por uma normalização.
  • Por fim, a dívida bruta deve aumentar ligeiramente nos próximos anos, mas entendemos que a alavancagem deve se manter em níveis saudáveis devido ao caixa reforçado pelo IPO.

3 principais linhas de negócio da Jalles: Etanol, Açúcar e Outros

O etanol representa cerca de 50% da receita bruta da Jalles, sendo que cerca de 40% vem da sua versão hidratada e os outros 10% na versão anidro.

Em 2020, a pandemia trouxe grande incerteza para o segmento, uma vez que o fluxo de automóveis teria sido fortemente prejudicado. Por outro lado, no segundo semestre, à medida em que houve recuperação na demanda e aumento do preço do petróleo, o cenário para o etanol melhorou.

Olhando para frente, entendemos que o açúcar deve seguir preponderando no mix de produção em função de seu patamar de preços atrativos, mantendo o volume do etanol em níveis reduzidos. Entretanto, esperamos uma alta nos preços do etanol para a safra de 21/22, compensando o menor volume e mantendo a receita praticamente estável versus 2020.

Já o açúcar representa cerca de 43% da receita bruta da Jalles, dividido entre 23% açúcar orgânico, 18% açúcar cristal e 2% em sua versão commodity, o VHP.

Na safra 20/21, como os preços do açúcar estiverem excepcionalmente altos, o açúcar atingiu cerca de 50% do mix de produção da Jalles; para a próxima safra, esperamos que o açúcar atinja 60% da receita bruta total, dividido entre 39% cristal, 20% orgânico e apenas 1% para o VHP.

Pensando em preços, na nossa visão, o prêmio do açúcar orgânico sobre o cristal deve ser menor em 21/22 do que no ano anterior. Vale lembrar que grande parte dos contratos comerciais da próxima safra, sobretudo no caso do açúcar orgânico, já foram definidos este ano, ou seja, seus preços já estão travados.

Por fim, os 7% finais da receita da Jalles vem de outras linhas de produtos, inclusive álcool-gel, alimentos orgânicos e levedura.

Tais produtos, junto com o açúcar orgânico, permitem que a Jalles sustente uma de suas principais vantagens competitivas: o fato de que mais de um terço de sua receita vem de produtos não commoditizados. Isso é importante porque, como o açúcar e o etanol são commodities negociadas globalmente, elas costumam ter bastante volatilidade.

Uma safra recorde de cana na Índia, por exemplo, pode fazer com que os preços do açúcar no Brasil despenquem. Produtos não commoditizados, como álcool-gel, biscoitos e levedura, ajudam a estabilizar os resultados da Jalles. Outro ponto relevante é que tais linhas de produto costumam ter níveis de rentabilidade elevados, contribuindo positivamente para a margem consolidada.

A linha de saneantes foi impulsionada em 2020 devido à pandemia, com forte aumento das compras de álcool de limpeza e em gel, por exemplo. Nas nossas projeções, realizamos uma normalização das receitas em 2021, ajustando-as de volta aos níveis históricos; ainda assim, nossa perspectiva segue positiva para o segmento.


Nossa visão sobre a indústria de Açúcar & Etanol

Produção de Açúcar: Brasil é o maior produtor com 23% de participação

Após algumas safras com produção em queda no Brasil (2018/19 e 19/20) e na Índia (19/20), a safra atual (20/21) deve fechar com 9,9% de aumento na produção mundial, principalmente devido aos dois países, com Brasil aumentando 40,6% e Índia 16,8%, enquanto a Europa recua 5,6%. A produção dos top 10 países aumentou, em média, 12,1% em relação à safra anterior, mas o principalmente destaque é o recorde previsto para o Brasil de 42,1 mi t. Brasil e Índia juntos respondem por 42% da produção mundial, atualmente, recorde histórico.

A demanda está recuperando após incertezas decorrentes da pandemia de Covid19, entretanto, o forte crescimento econômico e diante de mudanças de hábitos na Ásia devem colocar mais pressão no mercado. Apesar da perspectiva de aumento na produção, o consumo total também será maior e os estoques globais contraíram nessa safra, principal motivo para as recentes altas nos preços do açúcar.

A perspectiva para a safra de 21/22 é de oferta crescendo mais do que a demanda, mas o excedente será insuficiente para mudar o cenário de oferta e demanda global e a perspectiva é de preços elevados para o próximo ciclo. Atrasos na colheita do Brasil e também na distribuição de subsídios da Índia podem adicionar mais volatilidade a essa equação.

Preços do Açúcar: recuperação da demanda leva preços a patamares historicamente altos, favorecidos pelo câmbio

Seguindo a tendência de alta em curso desde o 2º semestre de 2020, os preços do açúcar ultrapassaram o patamar de US$ 18 cents/lb na bolsa de Nova York pela 1ª vez desde 2017. Apesar das inúmeras incertezas no início da pandemia, conforme o consumo se adaptou aos novos canais de venda a demanda recuperou. Enquanto países desenvolvidos projetam demandas decrescentes frente à perda de apetite para o açúcar, os países em desenvolvimento mais do que compensam devido à demanda aquecida.

O clima trouxe desafios em 2020, com a La Niña trazendo temperaturas altas e falta de chuva em várias partes do país, principalmente no Centro-Oeste e Sudeste, o que afetou a produtividade dos canaviais e, com isso, as projeções de menor produção em um cenário de oferta e demanda ajustado inflacionaram o mercado.

Soma-se a isso a desvalorização do Real frente ao Dólar desde o começo de 2020, o que levou produtores a venderem uma parte mais relevante de suas safras: estima-se, hoje, que mais de 60% da safra 21/22 já foi vendida. Com o câmbio favorável, mesmo com preços altos o açúcar brasileiro segue competitivo no mercado mundial e produtores brasileiros aproveitam boas margens. Entretanto, vale destacar que nem todas as indústrias conseguem capturar esse ambiente mais favorável em função de restrição de caixa e impossibilidade de acessar as ferramentas de mercado futuro.

Produção de Etanol: recuperando apesar do momento mais favorável ao açúcar

A produção de etanol do Brasil deve recuar cerca de 10% nesta safra, uma vez que a queda na demanda durante o 1º semestre de 2020 ao mesmo tempo em que os preços de açúcar mostraram recuperação mudaram o mix das usinas para mais açucareiro. O mesmo cenário é esperado para a safra de 21/22, mas enquanto os preços do açúcar seguem historicamente altos, os preços da gasolina voltaram a subir frente a constantes altas nos preços do petróleo, portanto não há espaço para redução na produção.

Para a safra de 21/22 no Brasil o mercado espera uma disputa pelo ATR, sobretudo quando se observa a perda de competitividade do etanol hidratado vs. a gasolina na bomba. Com a taxa de câmbio atual, entretanto, a importação de etanol para ajustar esse cenário é praticamente inviável, enquanto a exportação segue favorecida. As mudanças recentes na política da Petrobrás deixaram as indústrias mais céticas quanto ao cenário, mas ainda em terreno positivo.

Outro ponto importante deve-se à pressão crescente na maioria dos governos para aumentar o uso de etanol no mix energético, com isso ajudando a derrubar o consumo dos combustíveis fósseis. Alguns países já começaram a antecipar metas de adição do etanol, sendo a Índia um deles e com potencial impacto significativo no mercado mundial, uma vez que é o 2º maior produtor de açúcar do mundo.

Preços do Etanol: recuperação gradual impulsionados pelo petróleo

Frente à demanda em recuperação e também devido à perspectiva de manutenção na produção de petróleo pelos membros da OPEP, a expectativa é de preços acima dos US$ 60/barril (referencial Brent) no curto-prazo, o que seria uma previsão melhor do que o esperado pelo setor, sobretudo frente às altas recentes do açúcar que indicam que a produção das usinas seguirá mais açucareira.

Os estoques de etanol estão mais baixos do que o esperado para essa época do ano, o que sinaliza que algumas indústrias possam começar a safra 21/22 antes do previsto. A oferta total de etanol anidro deve ser suficiente para atender a demanda da gasolina, mas o cenário para o etanol hidratado deve ser mais apertado, portanto seguirá pouco competitivo na maioria dos Estados.

Em fevereiro, consumidores de apenas 4 Estados escolheriam etanol no lugar da gasolina, uma vez que apenas quando o preço do etanol hidratado está abaixo de 70% vale a troca. Por outro lado, a perspectiva de melhora na logística ferroviária brasileira pode favorecer o abastecimento da região Norte e Nordeste, fato que poderia ajudar a melhorar essa equação. Entretanto, o planejamento tributário e de basis (diferencial SP vs. outros Estados) é uma ferramenta ainda complexa.

Cenário 21/22: perspectiva positiva; ATR deve subir 20% A/A

A maioria das indústrias conseguiu finalizar a safra 20/21 antes do previsto, portanto os estoques de etanol para a entressafra foram estratégicos para sustentar a demanda doméstica. A oferta de etanol de milho vem crescendo em importância, sobretudo na entressafra da cana-de-açúcar, porém ainda longe de impactar o setor de maneira significativa. Com isso, o cenário de oferta ajustada à demanda segue, sobretudo frente à demanda crescente a preços do petróleo nos patamares atuais.

O preço do ATR está previsto em R$ 0,92/kg para a safra de 21/22, 19,5% mais alto apesar da perspectiva de aumento na produção, de acordo com o IAC. A pressão para início antecipado da colheita deve manter produtores otimistas, sobretudo frente ao Real desvalorizado neste começo de 2021.

As projeções de produção ainda podem mudar devido à falta de chuva em 2020, sobretudo no último trimestre, mas clima não foi uma variável estável ao longo de 2020. Além disso, a maioria das usinas não utiliza sistemas de irrigação, algo mais comum apenas nas regiões onde o regime de chuvas é deficitário.

RenovaBio: aumentos nos preços frente ao maior interesse no tema ESG deve favorecer os resultados

O objetivo do RenovaBio, projeto que faz parte da Política Nacional de Biocombustíveis, é de aumentar o uso de biocombustíveis na matriz energética brasileira ao estabelecer objetivos de redução na emissão de carbono, além de fornecer linha adicional de receita às usinas de etanol e de biodiesel.

Cada tonelada de carbono sequestrada do meio ambiente (ou que evite a emissão por combustíveis fósseis) pode ser comercializada na B3. A estrutura do mercado ainda não está madura, uma vez que inúmeras usinas ainda estão em processo de certificação, portanto a expectativa é de aumento na oferta total.

Do lado da compra, entretanto, as distribuidoras de combustível já possuem metas a serem cumpridas para neutralizarem suas pegadas de carbono. Em 2020, a maioria das indústrias atingiu a meta estabelecida, sendo que as que não performaram o objetivo foram multadas.

É importante ressaltar, entretanto, que apesar das perspectivas positivas, atualmente os preços dos CBIOs (contratos de carbono) estão na casa de US$ 6/t, muito abaixo do registrado em outros países onde os preços variam de US$ 20 até US$ 100/t. Todo o mercado de carbono ainda está amadurecendo no mundo.


Análise ESG: Plantando as sementes

Em geral, a indústria de Açúcar e Etanol (S&E, na sigla em inglês) é um setor sensível na perspectiva ESG. Em nossa visão, o pilar Ambiental é o fator mais importante na análise, embora o Social e Governança não estejam distantes. Em relação à Jalles, apesar de a empresa fazer parte de um setor muito sensível em termos do pilar E, vemos a companhia bastante comprometida com a agenda ESG, dado os diversos programas da companhia que visam minimizar os impactos adversos de suas operações de cana-de-açúcar na biodiversidade, como o mapeamento do uso do solo de sua propriedade e a área de preservação permanente (APPs), o monitoramento da flora e da fauna, as emissões de gases do efeito estufa (GEEs) e o uso da água. Na frente S, a Jalles possui programas positivos, com destaque para as mais de 14 ações sociais com comunidades locais em 2019. Por fim, no pilar G, destacamos a boa governança da Jalles, porém vemos espaço para melhorias tanto na independência como na diversidade no Conselho de Administração da empresa.

Clique aqui para ler nosso relatório completo com a análise ESG do setor de S&E, bem como da Jalles
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O investimento em ações é indicado para investidores de perfil moderado e agressivo, de acordo com a política de suitability praticada pela XP Investimentos Ação é uma fração do capital de uma empresa que é negociada no mercado. É um título de renda variável, ou seja, um investimento no qual a rentabilidade não é preestabelecida, varia conforme as cotações de mercado. O investimento em ações é um investimento de alto risco e os desempenhos anteriores não são necessariamente indicativos de resultados futuros e nenhuma declaração ou garantia, de forma expressa ou implícita, é feita neste material em relação a desempenhos. As condições de mercado, o cenário macroeconômico, os eventos específicos da empresa e do setor podem afetar o desempenho do investimento, podendo resultar até mesmo em significativas perdas patrimoniais. A duração recomendada para o investimento é de médio-longo prazo. Não há quaisquer garantias sobre o patrimônio do cliente neste tipo de produto. O investimento em opções é preferencialmente indicado para investidores de perfil agressivo, de acordo com a política de suitability praticada pela XP Investimentos. No mercado de opções, são negociados direitos de compra ou venda de um bem por preço fixado em data futura, devendo o adquirente do direito negociado pagar um prêmio ao vendedor tal como num acordo seguro. As operações com esses derivativos são consideradas de risco muito alto por apresentarem altas relações de risco e retorno e algumas posições apresentarem a possibilidade de perdas superiores ao capital investido. A duração recomendada para o investimento é de curto prazo e o patrimônio do cliente não está garantido neste tipo de produto. O investimento em termos é indicado para investidores de perfil agressivo, de acordo com a política de suitability praticada pela XP Investimentos. São contratos para compra ou a venda de uma determinada quantidade de ações, a um preço fixado, para liquidação em prazo determinado. O prazo do contrato a Termo é livremente escolhido pelos investidores, obedecendo o prazo mínimo de 16 dias e máximo de 999 dias corridos. O preço será o valor da ação adicionado de uma parcela correspondente aos juros – que são fixados livremente em mercado, em função do prazo do contrato. Toda transação a termo requer um depósito de garantia. Essas garantias são prestadas em duas formas: cobertura ou margem. O investimento em Mercados Futuros embute riscos de perdas patrimoniais significativos, e por isso é indicado para investidores de perfil agressivo, de acordo com a política de suitability praticada pela XP Investimentos. Commodity é um objeto ou determinante de preço de um contrato futuro ou outro instrumento derivativo, podendo consubstanciar um índice, uma taxa, um valor mobiliário ou produto físico. É um investimento de risco muito alto, que contempla a possibilidade de oscilação de preço devido à utilização de alavancagem financeira. A duração recomendada para o investimento é de curto prazo e o patrimônio do cliente não está garantido neste tipo de produto. As condições de mercado, mudanças climáticas e o cenário macroeconômico podem afetar o desempenho do investimento.

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