Aconteceu nesta quinta-feira (30/07/26) o evento “Inside LatAm: Brasil 2026 – Além das eleições: política, confiança e crédito no Brasil”, promovido pela Moody’s, reunindo investidores, emissores e especialistas do mercado para debater os principais temas que devem moldar o crédito brasileiro nos próximos anos. Entre os assuntos discutidos estiveram as perspectivas para o rating soberano e os impactos do cenário atual para empresas, bancos e mercados de capitais.
Confira a seguir alguns destaques do evento!
1. Perspectivas para o rating soberano do Brasil: política, credibilidade e os próximos passos
William Foster | Senior Vice President da Moody’s
O painel discutiu os principais fatores que sustentam a classificação soberana do Brasil, os desafios para a consolidação fiscal e os elementos que podem determinar a evolução do rating do país nos próximos anos. William Foster destacou que o principal foco das agências continua sendo a capacidade de estabilização fiscal e controle da trajetória da dívida pública.

Fatores que sustentam o perfil de crédito brasileiro
Ao analisar os fundamentos do rating soberano brasileiro, William Foster destacou que o país possui importantes atributos estruturais que ajudam a sustentar a classificação Ba1 da Moody’s.
Segundo o executivo, uma das principais fortalezas do crédito brasileiro é sua economia ampla e diversificada, o que contribui para maior resiliência em períodos de volatilidade econômica. Foster lembrou ainda que o crescimento econômico brasileiro tem surpreendido positivamente nos últimos anos frente às expectativas do mercado.
Outro fator positivo destacado foi a estrutura da dívida pública. Cerca de 95% do endividamento soberano está denominado em moeda local, reduzindo a exposição a choques cambiais e a riscos associados ao financiamento externo. O país também conta com elevadas reservas internacionais e um sistema bancário caracterizado por sólidos indicadores de capitalização e liquidez.
Por outro lado, Foster observou que o principal desafio de longo prazo continua sendo elevar o crescimento potencial da economia, atualmente estimado em menor patamar quando comparado a países com classificações próximas ao grau de investimento.
Fatores de acompanhamento para o crédito
Do lado dos desafios, Foster destacou a combinação entre elevada rigidez orçamentária, alta sensibilidade ao ciclo de juros e fragmentação política – fatores que, segundo o executivo, reduzem a capacidade dos governos de promover ajustes capazes de melhorar a dinâmica da dívida pública. Essa rigidez tem se acentuado com a crescente relevância das despesas obrigatórias e das emendas parlamentares, além das pressões previdenciárias associadas ao envelhecimento populacional, que seguem como um desafio estrutural de longo prazo.
O executivo observou ainda que cerca de metade da dívida pública está exposta a taxas flutuantes, o que faz com que períodos prolongados de juros elevados – frequentemente necessários para manter a inflação dentro da meta – se traduzam em custos fiscais relevantes.
Ao discutir as perspectivas futuras, Foster afirmou que a evolução da credibilidade fiscal dependerá, em grande medida, da capacidade da próxima administração de avançar em novas medidas mesmo diante de um Congresso fragmentado. Entre os fatores monitorados pela Moody’s, destacam-se o fortalecimento do arcabouço fiscal, a efetividade das regras de controle de gastos, a contenção dos mecanismos automáticos de expansão das despesas e a criação de maior flexibilidade orçamentária.
Afinal, o que poderia levar a um upgrade ou downgrade soberano?
Foster reforçou que a trajetória fiscal permanece como o principal determinante da avaliação soberana brasileira.
Um eventual upgrade dependeria da formação de um consenso político mais amplo entre Executivo e Congresso, capaz de viabilizar reformas estruturais do lado dos gastos. Entre as medidas destacadas, estão a redução das vinculações de receitas, a revisão dos mecanismos de indexação dos benefícios sociais ao salário mínimo e novos avanços nos programas de seguridade social.
Segundo Foster, também haveria espaço para uma melhora na classificação de risco a partir de reformas macroeconômicas voltadas a ampliar a efetividade da política monetária, uma vez que essas mudanças reduziriam a dependência de taxas de juros elevadas para o controle da inflação.
Na direção oposta, um downgrade poderia ser motivado pela combinação entre um crescimento econômico consistentemente inferior ao esperado e uma consolidação fiscal menos efetiva do que o previsto. Esse cenário tenderia a comprometer a confiança dos investidores e a resultar em indicadores mais fracos de endividamento e de capacidade de pagamento.
2. Risco de refinanciamento em um cenário macroeconômico desafiador no Brasil
Lucas Viegas | Senior Analyst de Financial Institutions da Moody’s, Maria Claudia Komamura | Associate Director da Moody’s, Sergio Borejo | CFO do Banco ABC, Mateus Ferreira | CFO da Auren, Antonio Carlos Garcia | CFO e Diretor de RI da Azul
O painel reuniu representantes de instituições financeiras, empresas e da Moody’s para discutir os impactos do ambiente de juros elevados sobre refinanciamento, acesso ao crédito, mercado de capitais e perspectivas de crescimento. Ao longo da conversa, os participantes destacaram como empresas e bancos vêm adaptando suas estruturas de capital, reforçando a importância da gestão de passivos, da governança corporativa e da diversificação de fontes de financiamento em um cenário ainda desafiador.

Janela de mercado reduziu pressões imediatas de refinanciamento
Ao abrir a discussão sobre riscos de refinanciamento, o painel destacou que muitas companhias aproveitaram a janela favorável observada em 2025 para alongar seus vencimentos, reduzindo concentrações de dívida no curto prazo e empurrando parte relevante das amortizações para 2028 e 2029.
Apesar desse movimento, os participantes apontaram que alguns segmentos continuam demandando maior atenção. Segundo eles, os setores de transportes, energia elétrica e saúde concentram atualmente mais nomes com riscos de refinanciamento dentro do universo acompanhado pela Moody’s.
Os participantes ponderaram que o mercado não tem observado uma pressão generalizada de refinanciamento neste momento. No entanto, ressaltaram que o atual cenário econômico pode levar a processos de reprecificação de passivos à medida que empresas retornem ao mercado para renovar suas dívidas.
Os painelistas também reforçaram que a gestão proativa da estrutura de capital tem sido um dos principais fatores de mitigação de riscos no atual ciclo.
Mercado de capitais amplia relevância como fonte de financiamento
Ao discutir a evolução do sistema financeiro brasileiro, o painel destacou que o crescimento do mercado de capitais é uma tendência estrutural e veio para ficar, ampliando de forma consistente as alternativas de financiamento disponíveis para as empresas.
Nesse contexto, ganharam destaque as debêntures incentivadas, apontadas como um dos principais instrumentos utilizados pelas companhias na estruturação de suas estratégias de financiamento. Em menor escala, também foi mencionada a utilização de debêntures voltadas ao mercado institucional, reforçando a diversificação de fontes de captação como uma tendência que vem se consolidando entre os emissores.
Governança ganha peso crescente nas decisões de crédito
Outro tema recorrente no debate foi a relevância da governança corporativa para o acesso a financiamento. Sob a perspectiva dos credores, Sergio Borejo foi direto ao afirmar que transparência é condição necessária para a perenidade das relações de crédito.
Komamura acrescentou que os temas relacionados à governança vêm ganhando peso crescente dentro dos comitês de rating da Moody’s. Segundo a executiva, a análise da política financeira das companhias tornou-se um elemento crucial para compreender como cada empresa administra seu capital ao longo dos diferentes ciclos econômicos.
Redução dos juros pode destravar investimentos e crescimento
Ao discutir perspectivas para os próximos anos, os participantes convergiram na avaliação de que uma eventual queda dos juros deverá estimular investimentos e atividade econômica.
Em síntese, o painel reforçou que as empresas brasileiras entraram no atual ciclo de juros elevados em posição mais favorável do que em períodos anteriores, após aproveitarem as janelas recentes de refinanciamento para alongar seus passivos. Apesar de riscos ainda presentes em determinados players, os participantes destacaram que a combinação entre gestão financeira disciplinada, diversificação de funding e boas práticas de governança continua sendo o principal diferencial para preservar o acesso ao crédito e capturar oportunidades quando as condições de mercado voltarem a se tornar mais favoráveis.
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