Rotação e inflação


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Rotação, segundo o dicionário, significa: 1) movimento giratório em torno de um eixo fixo; revolução, giro. 2) repetição dos mesmos acontecimentos ou situações; ciclo, rodízio.

Você já deve ter ouvido falar da rotação entre setores que está ocorrendo nas Bolsas ao redor do mundo esse ano. Esse termo se refere ao movimento entre setores considerados de crescimento (“Growth”), que estão sendo preteridos em relação aos setores de valor (“Value”), de ações consideradas mais baratas. A definição rotação como ciclo e rodízio explica bem esse movimento.

Quais setores investir – crescimento ou valor?

As ações de crescimento são daquelas empresas de crescimento rápido, com múltiplos altos, de setores que vêm sendo os preferidos nos últimos anos, e principalmente após a pandemia, como o setor de tecnologia, e-commerce, fintechs, e outros.

Já as ações consideradas de valor são ações com múltiplos (como Preço/Lucro ou Preço/Valor Patrimonial) mais baixos, de setores muitas vezes mais maduros e ligados à economia real. Exemplos são as empresas dos setores de commodities, industriais, bancos e energia.

Desde Novembro-2020, após as notícias positivas das vacinas e a eleição de Joe Biden, as ações de “Valor” já tiveram uma performance 20% melhor que as ações de crescimento. Em 2021, a performance é 12% melhor para as ações de Valor. O gráfico abaixo mostra os índices de ações de Valor vs. Crescimento nos EUA do Russell 2000.

Nas últimas semanas, com o aumento da preocupação com a inflação no mundo após a publicação da inflação americana (CPI) acima do esperado e a aceleração do rali das commodities, esse movimento de rotação voltou a acelerar. Muitos investidores se perguntam se ainda dá tempo de investir nas ações de Valor, dado essa forte performance recente?

Fonte: Bloomberg, XP Investimentos

Porém. como vemos no gráfico abaixo desde 2008, as ações de Crescimento têm ganhado – de longe – na performance em relação às empresas de Valor. Desde 2008, o Russell 2000 Growth apreciou 322%, enquanto o Russell Value subiu “apenas” 104%. Ou seja, as ações de Crescimento estão com uma performance histórica mais de 3x superior as ações de Valor.

Em um mundo onde o crescimento econômico é robusto, o prêmio que se paga por empresas que tem crescimento é menor, pois se encontra crescimento em quase todos os setores. Já num mundo onde não há crescimento e os juros são muito baixos, como ocorreu nos últimos 10 anos, empresas que conseguem crescer passam a ter um prêmio cada vez maior em relação ao restante do mercado. Chamamos isso de prêmio de escassez (“scarcity premium”).

Ou seja, caso o mercado continue apostando nos setores de valor, o espaço para fechar o “gap” em relação à crescimento ainda é enorme, apesar da performance melhor nos últimos meses e semanas.

Fonte: Bloomberg, XP Investimentos

O value investing voltou a renascer?

Por conta dessa performance muito melhor das ações de crescimento nos últimos 12 anos, muitos “Value Investors” acabaram sendo considerados “obsoletos” por muitos novos investidores. Os “value investors” foram criados nessa escola que ficou famosa por Benjamin Graham, e ganhou notoriedade com investidores como Warren Buffett, Howard Marks, Peter Lynch, John Templeton, Jeremy Grantham, e muitos outros,

Isso porque muita gente dizia que o value investing não estaria adaptado ao mundo disruptivo das empresas de tecnologia, ao crescimento exponencial das empresas tecnológicas, que conseguem crescer muito rápido com pouco capital investido.

Quer um exemplo? Caso uma empresa de bebidas cresça muito as suas vendas, em algum momento ela chegará ao limite da sua capacidade de produção, e precisará investir bilhões na construção de uma nova fábrica, contratação de novas pessoas, novos caminhões, centros de distribuição, e encontrar novos consumidores e mercados.

Já uma empresa de software, por outro lado, pode criar um novo software, e caso ela venda 1 cópia desse software, ou 1 milhão de cópias do software, não precisará de muito capital adicional para escalar o business. O retorno marginal do negócio cresce de forma quase que exponencial, pois o “cost to scale” (custo de escalar) é declinante.

As fases do “business cycle” indicam preferência pelos setores de valor

Uma outra forma de olhar a rotação de setores atual é através do famoso “business cycle”, que relaciona os melhores setores e ativos para se investir durante ciclos econômicos. Como mostra o gráfico abaixo, da Fidelity, em um começo de ciclo, como estamos em 2021, os setores que historicamente têm melhor performance são bancos, materiais, real estate, consumo discricionário e industriais. Isso condiz com a performance que temos visto em 2021, com as únicas diferenças com o ciclo atual sendo tecnologia entre as melhores performances e energia entre as mais fracas – estamos vendo o oposto em 2021.

Business cycle graph
Fonte: Fidelity

Mas e o Brasil com isso?

O Brasil tem uma grande exposição aos setores considerados de Valor, com 55% do Ibovespa sendo representado pelos setores de commodities e o setor financeiro. Caso essa rotação global continue, o Brasil tem tudo para se beneficiar dessa rotação e continuar atraindo fluxos de investidores globais. Como mostramos no relatório Gráfico da semana: As commodities nas Bolsas globais, o Brasil é um dos países que têm mais exposição ao setor de commodities entre as principais bolsas do mundo.

Além disso, para os investidores estão buscando maior exposição internacional, faz sentido aumentar exposição a setores, ou regiões, mais expostas aos setores de valor. A Europa é uma das regiões que mais tendem a se beneficiar dessa rotação (como o EURP11), pois o seu índice tem uma concentração nos setores de Consumo, Bancos, Petróleo e Farmacêuticas. Isso não quer dizer que o setor de tecnologia é um setor ruim de se investir, mas provavelmente esse setor não deva estar na liderança da performance caso essa rotação continue ganhando tração em 2021.

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