Onda de IPOs no Brasil – é para se preocupar?

Com a forte onda de IPOs atual na B3, alguns investidores tem se preocupado que o aumento das ofertas irá levar a uma grande pressão de preços negativa na Bolsa. Nós não enxergamos dessa forma, e iremos explicar o porquê nesse relatório.


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Desde o início do ano, 16 empresas brasileiras fizeram suas ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) e estrearam na B3, Bolsa brasileira, movimentando mais de R$ 10 bilhões (tabela abaixo). Somado a isso, a fila de empresas que pediram autorização para negociar ações na bolsa de valores continua aumentando, com 41 companhias aguardando a autorização da CVM para realizarem seu IPO.

Se continuar nesse ritmo, 2020 pode se aproximar do histórico ano de 2007, quando a Bolsa brasileira registrou o recorde de 64 IPOs, que somaram R$55,6 bilhões à época. 2010 foi o ano da capitalização da Petrobras pelo governo, devido à cessão onerosa.

Nesse cenário, alguns investidores (principalmente no Fintwit) se preocupado que o aumento de IPOs irá levar a uma grande pressão de preços negativa na Bolsa. Nós não enxergamos dessa forma, e iremos explicar o porquê. O cenário atual é consideravelmente diferente do passado e apresentamos abaixo 3 fatores que nos levam a acreditar que essa entrada de novas empresas no mercado não é tão problemática quanto em janelas passadas de IPOs.

1) O Brasil possui pouquíssimas empresas listadas vs. outros países

Atualmente, o Brasil possui 429 companhias com ações disponíveis para negociação. Um ano atrás, esse mesmo número era de 326. Mesmo com a evolução, e ainda considerando o aumento desse número frente à atual onda de IPOs, a verdade é que o Brasil possui pouquissímas empresas listadas quando comparamos com outros países.

Na Inglaterra, o número se aproxima de 2.000 empresas, enquanto na Ásia, destaque para a China e o Japão, que possuem quase 4.000 companhias listadas. Liderando essa corrida temos os Estados Unidos, com um número que se aproxima a 5.000 empresas – veja o gráfico abaixo.

2) Hoje o mercado é muito mais líquido do que no passado

No início dos 1990, o mercado acionário brasileiro chegou a ter mais de 600 empresas, mas a Bolsa era dominada por estatais e a liquidez de boa parte das empresas era irrisória. Apesar do menor número de empresas hoje, a situação atual em relação à liquidez da Bolsa brasileira, ou seja, o volume negociado, é bem diferente do passado.

No ano de 2000, o volume médio de negociação diária na B3 era de R$0,6 bilhões. Hoje, esse mesmo valor já ultrapassa os R$25 bilhões, conforme ilustra o gráfico abaixo. Na comparação com o ano passado, vimos um aumento de +55% no giro diário.

Na nossa visão, dois fatores têm sido preponderantes nessa evolução do mercado de capitais no Brasil e eles estão diretamente relacionados. O primeiro deles é a taxa de juros, que alcançou o patamar mais baixo da história, quando a Selic chegou ao nível de 2% ao ano (gráfico mais à esquerda). O segundo, derivado do primeiro, é o aumento do número de investidores na Bolsa. Sem dúvida, esse cenário de juros baixos faz com que o investidor precise se arriscar mais para obter mais rentabilidade, o que faz o brasileiro migrar para a Bolsa. Consequentemente, quando olhamos para o número de investidores na B3, esse valor passou de 619,6 mil em 2017 para 2,99 milhões em 2020 (gráfico central), com o total de recurso alocado na Bolsa seguindo o mesmo movimento (gráfico mais à direita). 

3) A alocação em renda variável, tanto de investidores locais quanto estrangeiros, segue muito baixa

Em 2007, quando vimos um boom de IPOs, a alocação dos fundos de investimentos brasileiros em ações atingiu o valor recorde, em 21,7% (lembrando que a taxa Selic no período era de 11,25% ao ano). Atualmente, mesmo com os juros na mínima histórica, em 2% ao ano, vemos uma alocação dos fundos de investimento brasileiros em ações de apenas 11,5% – um aumento quando comparado à 2019, mas ainda abaixo da média histórica de 13,6% (gráfico à esquerda).

Em se tratando da alocação dos fundos de pensão em ações, a conclusão é semelhante: esse percentual hoje é de 18%, também abaixo do histórico de 21,3% (gráfico à direita).

Na nossa visão, considerando a Selic nos níveis atuais, estimamos que para os fundos de investimentos e de pensão atingirem retornos de CDI +2-3% ao ano, a alocação na Bolsa deveria ser de pelo menos 25%.

Do lado dos investidores estrangeiros, também vemos uma baixa alocação na Bolsa brasileira, diferentemente do que vimos em 2007. Treze anos atrás, o mercado vinha de um longo período de poucos lançamentos na Bolsa, enquanto que o PIB no Brasil cresceu 6,1% naquele ano e o capital estrangeiro mostrava bastante apetite pelas ações brasileiras. Hoje, o cenário é diferente. Em 2020, os investidores estrangeiros já retiraram R$88,9 bilhões* do mercado acionário brasileiro. Além disso, a participação do Brasil no índice de Mercados Emergentes (MSCI Emerging Markets), que já chegou a ser de quase 20% em 2007, se encontra hoje em seu menor nível (4,1%).

Dito isso, vemos que o cenário atual é consideravelmente diferente do passado e acreditamos que a entrada de novas empresas no mercado não é tão problemática quanto em janelas passadas de IPOs, e investidores devem se acostumar com essa realidade.

Com a recente queda da Bolsa dado o aumento de preocupações no Brasil e o elevado número de ofertas em uma mesma “janela”, já começamos a ver várias empresas anunciando o cancelamento ou postergação dos seus planos de abertura de capital. É natural que em um cenário assim os investidores sejam mais seletivos nas ofertas de ações. Porém, acreditamos que conviver com os IPOs recorrentes deverá ser a nova realidade do mercado brasileiro. Essa é uma boa mudança que trará mais oportunidades de investimento aos investidores e mais opções de financiamento produtivo para as empresas.

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