Resumo
Nos Estados Unidos, a inflação medida pelo deflator do consumo (PCE) seguiu acima da meta em julho, e o PIB do 2º trimestre mostrou sinais de reaceleração. Ademais, o presidente do Fed (banco central), Kevin Warsh, adotou tom duro no simpósio de Jackson Hole. Com isso, o mercado passou a atribuir maior probabilidade a uma alta de juros em setembro, o que fortaleceu o dólar e pressionou as moedas emergentes.
Ainda no cenário internacional, o preço do petróleo recuou na semana, após o novo pacote de sanções dos Estados Unidos contra o Irã trazer poucos detalhes adicionais em relação ao que já era conhecido. Por sua vez, as negociações comerciais entre Estados Unidos e Canadá foram encerradas sem acordo, com elevação de tarifas de ambos os lados.
No Brasil, revisamos para baixo nossa projeção para a Selic no fim de 2026, diante de atividade e inflação abaixo do esperado. Passamos a projetar novo corte em setembro, seguido de reduções graduais nas reuniões restantes do ano. Na seara fiscal, a arrecadação federal registrou o melhor resultado para o mês de julho na série histórica, sustentada pelos preços elevados do petróleo.
Gráfico da Semana

Cenário Internacional
Inflação acima da meta e tom duro do Fed elevam apostas para alta de juros nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, a inflação ao consumidor medida pelo deflator do consumo (PCE, o indicador de inflação preferido do Fed, o banco central norte-americano) subiu 0,2% em julho. A variação anual permaneceu em 3,7%, acima das expectativas e da meta de 2%. O núcleo — que exclui itens de preços voláteis, como alimentos e energia — se manteve em 3,3%. Ademais, a semana contou com a segunda leitura do PIB do 2º trimestre. A atividade econômica norte-americana mostrou sinais de reaceleração: o consumo foi revisado para cima e os lucros corporativos registraram alta recorde.
Por fim, Kevin Warsh, presidente do Fed, adotou tom duro em seu primeiro discurso no simpósio de Jackson Hole. A autoridade afirmou que o banco central precisa estar confiante de que a inflação converge à meta “de forma clara e em velocidade suficiente”. Ressaltou ainda que as condições financeiras não estão restritivas. A mensagem elevou os juros dos títulos do Tesouro norte-americano de 2 anos em 0,10 p.p., a 4,33%. O conjunto de dados e o discurso levaram a um aumento na probabilidade de alta de juros na reunião de política monetária do Fed de setembro: o mercado passou a precificar mais de 50% de chance, ante cerca de 36% no início da semana.O movimento também fortaleceu o dólar e pressionou as moedas emergentes. No Brasil, por exemplo, a taxa de câmbio encerrou a semana próxima a 5,20 reais por dólar.
Preço do petróleo recua com sinais de menor risco de escalada militar no Oriente Médio, mas volatilidade segue elevada
O petróleo tipo Brent encerra a semana próximo de 88 dólares por barril, queda de cerca de 6% no período. O recuo se concentrou nas primeiras sessões, após o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciar um pacote de sanções para isolar o Irã da economia global. A reação refletiu, em parte, a percepção de que o plano trouxe poucos detalhes além do que já era conhecido. No final da semana, no entanto, a cotação voltou a subir, diante do impasse nas negociações entre Washington e Teerã e da manutenção das restrições na rota distante da normalidade. Ademais, os Estados Unidos ameaçaram sancionar bancos chineses ligados ao Irã.
Os preços do petróleo devem seguir voláteis adiante e podem continuar impactando as próximas leituras de inflação e a trajetória de juros ao redor do mundo.
Negociações comerciais entre Estados Unidos e Canadá fracassam e ambos os países elevam tarifas
As negociações entre Estados Unidos e Canadá foram encerradas sem acordo, revertendo os avanços sinalizados na semana anterior. Washington impôs tarifas de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares em importações canadenses, e o Presidente Donald Trump anunciou que, a partir de 1º de janeiro de 2027, automóveis, caminhões e autopeças do Canadá estarão sujeitos a alíquota de 50%, ante os 25% atuais. Em resposta, o governo de Mark Carney anunciou tarifas retaliatórias em mais de 700 produtos americanos, com alíquotas de 15%, 25% e 50%, em vigor a partir de 8 de setembro.
A escalada amplia os riscos para cadeias produtivas altamente integradas, sobretudo no setor automotivo. Como parte relevante das autopeças utilizadas nos Estados Unidos é de origem canadense, a tarifa tende a elevar custos de produção e preços ao consumidor americano. Do lado canadense, a exposição é maior, já que o país destina cerca de três quartos de suas exportações de bens ao mercado americano.
Enquanto isso, no Brasil…
Uma pausa no ciclo deixou de ser o cenário mais provável
Revisamos nossa projeção para a taxa Selic no fim de 2026 de 14,00% para 13,25%. As leituras recentes de atividade e inflação vieram abaixo das nossas expectativas e sugerem que a desaceleração econômica e a desinflação estão se materializando antes do previsto. Indicadores de alta frequência têm mostrado fraqueza mais disseminada, enquanto criação de empregos, renda e concessões de crédito começam a perder força. Do lado da inflação, os núcleos do IPCA estão agora ligeiramente abaixo de 4%, ante cerca de 5% alguns meses atrás. Nesse contexto, esperamos novo corte de 0,25 p.p. em setembro, seguido por reduções graduais nas reuniões restantes do ano. Mantemos, porém, nossa projeção de 11,50% para a Selic no fim de 2027, o que significa uma convergência mais rápida para esse patamar, e não uma mudança na visão de médio prazo.
Para detalhes, acesse Revisão do Copom: Uma pausa no ciclo deixou de ser o cenário mais provável.
Inflação volta a surpreender para baixo em agosto
O IPCA-15 – prévia da inflação mensal – recuou 0,40% entre julho e agosto, abaixo das expectativas, levando a inflação em 12 meses de 4,52% para 4,24%. A deflação foi fortemente influenciada pelo Bônus de Itaipu, que reduziu as contas de energia elétrica dos consumidores residenciais em 6,25%, efeito temporário que deverá ser revertido em setembro. Ainda assim, a composição foi favorável e a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada (um indicador de tendência) da média dos núcleos de inflação, que excluem itens com preços voláteis, seguiram em recuo e voltaram a ficar abaixo de 4%. O principal ponto de atenção permanece nos preços de serviços.
Projetamos inflação de 5,1% para 2026 e 4,2% para 2027. Para detalhes, acesse IPCA-15 de agosto: núcleos de inflação melhoram, mas riscos permanecem
Mercado de trabalho segue apertado, mas emprego formal perde fôlego
A taxa de desemprego recuou de 5,4% para 5,3% no trimestre móvel até julho, em linha com nossas expectativas e próxima das mínimas históricas. Em contrapartida, o CAGED registrou criação líquida de 58,6 mil empregos formais em julho, bem abaixo das expectativas, com desaceleração disseminada entre os setores. Os dados apontam moderação do emprego e da renda, e não reversão do quadro de mercado de trabalho apertado. Mantemos nossa projeção de criação líquida de 960 mil empregos formais em 2026, com riscos inclinados para um resultado mais fraco, e nossas projeções de crescimento do PIB de 2,0% em 2026 e 1,0% em 2027 seguem com viés de baixa.
Arrecadação federal apresenta o melhor resultado para o mês de julho na série histórica
A arrecadação federal atingiu R$ 289,3 bilhões em julho, alta real de 9,0% ante o mesmo mês do ano passado, representando o melhor resultado para o mês na série histórica. Apesar dos sinais de desaceleração da atividade, especialmente nas receitas de PIS/Cofins, o desempenho foi sustentado pelos preços mais elevados do petróleo, que impulsionaram IRPJ/CSLL e a tributação sobre exportações de petróleo bruto, responsável por R$ 3,2 bilhões no mês. As receitas previdenciárias também permaneceram resilientes. À frente, esperamos desaceleração gradual da arrecadação com a moderação do petróleo e da atividade, embora projetemos R$ 3,188 trilhões em receitas em 2026, alta real de 5,6% sobre o ano passado.
Governo amplia medidas de apoio a exportadores em meio ao cenário geopolítico incerto
O governo ampliou as medidas de apoio aos exportadores afetados pelas tarifas dos Estados Unidos e pelo cenário geopolítico. O Conselho Interministerial do Plano Brasil Soberano aprovou R$ 13,5 bilhões em linhas de financiamento, sendo R$ 5 bilhões para empresas atingidas pelas novas tarifas americanas, R$ 3,5 bilhões para companhias expostas aos países do Golfo Pérsico e R$ 5 bilhões para setores estratégicos. Além disso, medidas provisórias prorrogaram o drawback suspensão por até um ano e abriram R$ 7 bilhões em crédito extraordinário para novas linhas do programa, enquanto outros R$ 3,152 bilhões foram destinados a subvenções à produção e importação de combustíveis.
Liminar suspende cobrança do imposto de exportação sobre petróleo e adiciona incerteza fiscal
O Gecex-Camex prorrogou por mais 60 dias a alíquota de 12% do Imposto de Exportação sobre petróleo bruto, tributo criado para custear as subvenções ao setor de combustíveis, mas a Justiça Federal do Distrito Federal concedeu liminar que suspende a cobrança das empresas associadas à ABEP e alcança também eventuais novas normas do órgão, o que retira efeito prático da prorrogação. Como o tributo arrecadou R$ 7,982 bilhões entre janeiro e julho, a suspensão representa risco relevante para as receitas do ano. A equipe econômica avalia haver espaço para reversão, mas, em nossa avaliação, o episódio adiciona incerteza ao resultado fiscal. Na mesma toada, a subvenção de R$0,44 à gasolina que expiraria na última terça-feira foi estendida até 9 de setembro.
Tesouro revisa o Plano Anual de Financiamento da dívida pública
O Tesouro Nacional revisou o Plano Anual de Financiamento da dívida pública, elevando a faixa esperada de participação dos títulos indexados à Selic de 46%-50% para 49%-53% do estoque da Dívida Pública Federal em 2026. A mudança reflete o ambiente de maior volatilidade, juros elevados e prêmios de risco mais altos, que aumentaram a preferência dos investidores por títulos de menor duração e menor sensibilidade às oscilações das taxas. A projeção para o estoque total da DPF permaneceu entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. A revisão reduz a dependência de emissões prefixadas mais longas, mas aumenta a sensibilidade do custo da dívida à trajetória da Selic.
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Destaques da próxima semana
No cenário internacional, o foco estará na divulgação dos dados de trabalho nos Estados Unidos, com destaque para o Nonfarm Payroll, que mostrará a criação de vagas de emprego. Ademais, o livro bege do Fed (banco central) trará mais detalhes sobre a situação econômica americana. Na Zona do Euro, os dados de inflação detalharão a dinâmica dos custos em meio à volatilidade das cotações do petróleo. Por fim, serão divulgados os PMIs, sondagens que buscam captar o pulso da atividade das principais economias mundiais.
No Brasil, as atenções do mercado estarão voltadas à divulgação do PIB do 2º trimestre de 2026. Projetamos alta de 0,4% ante o 1º trimestre, após um forte início de ano. A maioria dos setores perdeu dinamismo, reforçando a tese de desaceleração gradual da economia. Também serão conhecidos o resultado primário do setor público e a produção industrial referentes a julho, além da balança comercial de agosto. No campo político, a próxima semana será a última com sessões no Congresso antes da eleição. Na pauta, estarão a medida provisória que extingue a “taxa das blusinhas”, que precisa ser aprovada até 8 de setembro para não perder a vigência, e a votação, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, da PEC do fim da escala 6×1 — cuja análise em plenário deve ficar para depois das eleições. Veja as nossas projeções abaixo.

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