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Bens de Capital: avaliando o impacto de um estresse prolongado

Um ambiente macroeconômico mais incerto pesa sobre a visibilidade de resultados

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Trazemos uma reflexão sobre os impactos indiretos do atual contexto geopolítico sobre as empresas de Bens de Capital. Preços mais elevados de combustíveis geram pressões imediatas de custo e contribuem para um ambiente mais inflacionário, aumentando a incerteza em torno da trajetória das taxas de juros. Ainda assim, os efeitos sobre a demanda por bens de capital tendem a ser de segunda ordem, com choques precisando persistir por vários meses para se traduzirem em impactos mais materiais sobre entrada de pedidos, execução de capex e revisões de resultados para companhias industriais.

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No universo de bens de capital, conflitos geopolíticos tendem a afetar os mercados antes de afetarem a demanda. Conflitos de curta duração podem reprecificar commodities e prêmios de risco, mas geralmente têm impacto limitado sobre a trajetória de demanda por bens industriais. Por outro lado, à medida que os conflitos se prolongam, a incerteza passa a ser um fator restritivo. Um framework útil para pensar em duração (e impactos sobre empresas industriais) é: (a) < 3 meses, efeitos majoritariamente financeiros e de valuation; (b) 3–6 meses, maior incerteza, decisões de investimento postergadas e guidances mais cautelosos; e (c) 6–9 meses (ou mais), volatilidade na carteira de pedidos, condições de financiamento mais restritivas e impactos mais relevantes nos resultados.

O aumento nos preços de petróleo, diesel e querosene de aviação impulsionado pelo conflito intensificou as pressões de custo ao longo dos segmentos de transporte aéreo e logística, dado que o petróleo permanece como um insumo central da base global de custos. Embora a oferta tenha sido afetada por disrupções e redirecionamentos, a IEA observa que os preços refletem sobretudo mercados de derivados refinados apertados e níveis historicamente baixos de estoques, sugerindo que a normalização pode levar tempo mesmo em um cenário de desescalada. Para a aviação, a inflação persistente do querosene pressiona a rentabilidade das companhias aéreas; ainda assim, para a Embraer (e fabricantes de aeronaves em geral, conforme discutido recentemente pela Bloomberg Intelligence), as entregas no curto prazo devem seguir sustentadas por backlogs robustos.

No transporte rodoviário, acreditamos que preços mais elevados de diesel podem ter efeitos assimétricos entre geografias. Na (i) América do Norte, a ACT destaca que mercados de frete apertados historicamente permitiram aos transportadores repassar uma parcela relevante da inflação de custos de combustível por meio de fretes mais altos, limitando a pressão de curto prazo sobre a economia das frotas. Já no (ii) Brasil, entendemos que o repasse tende a ser estruturalmente mais fraco e menos tempestivo, dado um mercado de transporte fragmentado, mercados spot competitivos e elevada sensibilidade política aos preços de combustíveis, com episódios passados mostrando defasagens entre a inflação do diesel e os ajustes nos fretes (frequentemente acionando intervenções governamentais ou risco de greves).

Globalmente, as tensões geopolíticas reforçam um ambiente mais inflacionário, elevando o risco de juros permanecerem mais altos por mais tempo, apesar do início de ciclos de afrouxamento em algumas regiões. No Brasil, essa incerteza persiste: embora o Copom tenha iniciado um ciclo cauteloso de redução, os riscos inflacionários seguem obscurecendo a trajetória da Selic terminal, mantendo condições financeiras restritivas. Nesse contexto, vemos maior probabilidade de uma recuperação mais lenta do que o esperado em setores cíclicos sensíveis a juros, à medida que custos elevados de financiamento postergam investimentos de renovação.

Valuation: onde a duração cria oportunidade. Vemos o cenário atual gerando assimetrias seletivas de valuation entre os subsetores de bens de capital. (i) Em aeroespacial e defesa, a recente baixa performance das ações abriu oportunidades pontuais, com a Embraer se destacando após uma desvalorização mais profunda do que a do setor como um todo. (ii) Em bens de capital ligados à energia, os conflitos em curso reforçam a segurança energética como prioridade, com a IEA destacando aceleração de investimentos em resiliência, reforço e redundância de redes, diante do aumento dos riscos à infraestrutura crítica. (iii) Em contraste, empresas expostas a veículos comerciais permanecem mais vulneráveis, já que a incerteza macro, os altos custos de combustível e condições de crédito restritivas continuam postergando a renovação de frotas e elevando o risco de novas revisões de resultados.

Em suma, seguimos mais construtivos com nomes que apresentam histórias de bottom‑up mais robustas e exposição limitada a revisões negativas de lucros, como EMBJ3 e POMO4, enquanto a WEGE3 permanece, em nossa visão, como uma alocação de interesse em portfólios em períodos de maior volatilidade.

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