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Micron: Companhia divulga resultados do 2T26

Confira aqui a divulgação dos resultados

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Investindo sem fronteiras

Antes dos números: Por que memória virou um dos principais assuntos do mercado

Durante anos, empresas de memória foram vistas como cíclicas e relativamente previsíveis: quando sobrava chip, o preço caía, e quando faltava, subia. Porém, o surgimento da inteligência artificial quebrou essa lógica, assim como as projeções de demanda do setor. Os data centers de IA consomem memória em uma escala sem precedentes, e os fabricantes redirecionaram boa parte da produção para os chips mais sofisticados e caros usados nessas aplicações. Com isso, faltou memória para o resto do mercado e os preços dispararam, sendo possivelmente a escassez de 2026 como a mais severa em 15 anos. Assim, chips de memória deixaram de ser uma commodity barata e virou um ativo estratégico e muito lucrativo.

HBM x RAM: Boa parte do rali das companhias de memória está relacionada ao aumento da demanda por HBM, um tipo específico de chip customizado usado em conjunto GPUs de alto desempenho, necessárias para o treinamento de modelos de IA. A principal diferença entre a memória RAM convencional (como a DDR5) e a HBM (High Bandwidth Memory) está na arquitetura e na velocidade de transferência de dados: enquanto a RAM tradicional utiliza chips dispostos horizontalmente na placa-mãe e conectados ao processador por trilhas longas, a HBM empilha os chips de memória verticalmente em três dimensões e os posiciona extremamente próximos ao processador no mesmo encapsulamento. Essa proximidade e o empilhamento permitem que a HBM utilize canais de comunicação imensamente mais largos, alcançando uma largura de banda drasticamente superior com menor consumo de energia. O uso de HBM em chips de IA é necessário porque os modelos de IA (especialmente os Grandes Modelos de Linguagem, ou LLMs) processam volumes gigantescos de parâmetros simultaneamente; sem a velocidade da HBM para alimentar o processador com esses dados, as unidades de processamento de IA sofreriam com “gargalos”, perdendo eficiência ao permanecerem ociosas à espera das informações necessárias para o treinamento e a inferência dos modelos.

Quando comprar a Ásia virou comprar memória: Esse boom mudou o próprio perfil das bolsas asiáticas. Na Coreia e em Taiwan, um punhado de gigantes de chips, como Samsung, SK Hynix e TSMC, passou a dominar de tal forma os índices, que comprar esses mercados virou, na prática, uma aposta concentrada em memória e inteligência artificial. Samsung e SK Hynix sozinhas chegaram a representar mais de 40% do índice coreano, e as empresas de memória respondem por cerca de 70% da alta da bolsa da Coreia em 2026. O fenômeno é tão grande que essas companhias já pesam quase um quarto do principal índice de mercados emergentes, a ponto de forçar gestores a reduzir posições por excesso de concentração. Esse fenômeno explica a divergência das bolsas emergentes, sendo parte dos motivos pelos quais a bolsa brasileira ficou para trás.

Assim, as ações do setor viveram uma valorização extraordinária, multiplicando de valor ao longo do último ano. A própria Micron renovou máxima histórica há poucos dias, e já ultrapassa a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado. O entusiasmo, porém, deixou o setor caro e o mercado lotado de investidores apostando na mesma direção, formando um cenário propício para uma correção brusca, e foi o que aconteceu no início desta semana. O fenômeno começou com um recuo das empresas de tecnologia americanas na segunda e ganhou força na terça, quando a Ásia teve um dia de pânico, com queda de quase 10% na bolsa coreana, o maior recuo em pontos da sua história, com Samsung e SK Hynix recuando mais de 12% cada. Vale atribuir o movimento a dois fatores distintos:

(i) Boa parte da queda tem relação com o próprio sucesso recente. A bolsa coreana subiu impulsionada por muita alavancagem, o que torna as quedas mais violentas quando há uma mudança de humores. Some-se a isso um ambiente de juros menos favorável (o Fed sinalizou um tom mais duro) e alertas dos próprios reguladores coreanos sobre o sobreaquecimento do setor. Nada disso muda os lucros das empresas ou os fundamentos, apenas explica a volatilidade.

(ii) O risco real é o mercado começar a duvidar de que os gastos bilionários das grandes empresas de tecnologia com IA vão se sustentar. O ponto mais delicado é que grande parte da alta das fabricantes de memória foi devido ao seu poder de ditar preços em contratos de longo prazo. Porém, esses contratos funcionam como uma “opção”, na qual o cliente tem o direito de comprar àquele preço, mas não a obrigação. A narrativa de quebra da ciclicidade também é questionada, com a possibilidade de consolidação em HBM, hoje chips altamente customizados e com preços mais elevados, que possibilitam maior diferenciação e poder de precificação. Além disso, os preços altos já começam a espantar a demanda fora do mundo de IA (há projeção de queda de cerca de 13% nas vendas globais de smartphones em 2026). Dessa forma, ainda não está claro se a demanda dos data centers, sozinha, sustenta esses preços e as essas cotações das companhias ligadas ao ciclo.

É por isso que a Micron segue no centro das atenções. Mesmo depois da queda, as ações do setor seguem com forte valorização no ano, então a dúvida não é sobre um retorno ao nível de preços do passado, e sim sobre a durabilidade e espaço para continuidade do ciclo de alta. O mercado vê neste balanço o teste decisivo para saber se a alta da memória reflete uma mudança estrutural duradoura ou apenas mais um pico de ciclo. Com a ação em máximas e o mercado de opções precificando uma oscilação de cerca de 17% após o resultado, a margem para surpresas negativas é baixa.

Micron (Ticker: MU) – Resultados do 2T26

Como as ações reagiram?

📈As ações da MU sobem cerca de +15% após o fechamento (às 16:45 de NY)

Destaques:

  • Receita: ⬆️Subiu 345,7% A/A para US$ 41,5 bi (estimado US$ 35,7 bi – surpresa de +16,2%✅️)
  • Lucro por ação ajustado: ⬆️Subiu +1214,7% A/A para US$ 25,11 (estimado US$ 20,49 – surpresa de +22,5% ✅️)
  • Margem bruta: ⬆️Subiu para 84,9% ante 39,0% no ano anterior (estimado 81,9% – surpresa de +3 p.p. ✅️)
  • Margem operacional: ⬆️Subiu para 81,2% ante 26,8% no ano anterior (estimado 77,9% – surpresa de +3,3 p.p. ✅️)

A Micron reportou resultados bons, com surpresas positivas na receita (+16,2%) e no lucro por ação (+22,5%). Os números do trimestre mostraram que a companhia segue como uma das principais beneficiárias do ciclo de investimentos em inteligência artificial, principalmente devido à escassez de chips de memória. A receita no trimestre totalizou US$ 41,5 bilhões, crescimento mais de 340% A/A, e o LPA ajustado, por sua vez, veio em US$ 25,11, contra US$ 1,91 no mesmo período do ano passado.

O resultado foi impulsionado por uma combinação de volume e preço. A margem bruta ajustada saltou para 85%, contra 39% em ano antes, representando uma expansão de quase 26 p.p. que reflete o ambiente de oferta apertada em memória DRAM e NAND (os dois principais tipos de chip de memória da empresa). Com isso, o lucro operacional ajustado atingiu US$ 33,7 bilhões (vs. consenso de US$ 27,9 bi), com margem operacional de 81,2%. A geração de caixa também foi extremamente forte, com fluxo de caixa operacional de US$ 25,4 bilhões (vs. US$ 4,61 bi no ano anterior) e fluxo de caixa livre de US$ 18,3 bilhões, mesmo com US$ 7,1 bi de capex líquido no trimestre, mostrando que a empresa tem investido pesado em capacidade, mas sem comprometer a conversão de caixa.

Entre as unidades de negócio o destaque foi a demanda ligada a data centers. A divisão de Cloud Memory faturou US$ 13,77 bi (vs. estimativa de US$ 10,69 bi) e a Core Data Center US$ 11,52 bilhões (vs. estimativa de US$ 6,8 bi). Juntas, as duas respondem por cerca de 60% da receita, com margens operacionais de 78% e 83%, respectivamente. Além disso, o crescimento foi generalizado entre as demais unidades, com a escassez e a alta dos preços de memória indo além de data centers para smartphones, PCs e automóveis. No lado dos produtos, a empresa destacou que sua memória HBM4 (high-bandwidth memory, variedade voltada a sistemas de IA) já está em produção de alto volume, com a geração seguinte (HBM4E) prevista para 2027.

Apesar dos excelentes resultados, o ponto que mais chamou atenção foi o guidance para o próximo trimestre. A empresa projeta receita de US$ 50,0 bilhões (+- US$ 1,0 bilhão), cerca de 15% acima do consenso, com margem bruta de aproximadamente 86% (vs. estimativa do consenso de 83,6%) e LPA ajustado de US$ 31,00 (+- US$ 1,00), bem acima dos US$ 25,31 esperados. A gestão da companhia enquadrou o resultado e a perspectiva como reflexo do “valor estratégico da memória na era da inteligência artificial” e enfatizou os Strategic Costumer Agreements (acordos plurianuais com clientes que, segundo a empresa, devem aumentar a durabilidade e a previsibilidade do desempenho financeiro).

Dessa forma, vemos que o resultado e principalmente o guidance reforçam que a Micron está no centro de um ciclo de enorme rentabilidade puxado pela demanda de IA, com expansão de margens raramente vista no setor e geração de caixa que sustenta tanto o investimento em capacidade quando a desalavancagem. Os acordos plurianuais com clientes, se cumpridos, melhoram a visibilidade da companhia, dando mais previsibilidade a uma indústria historicamente cíclica. Como riscos, destacamos que o desempenho atual depende fortemente da continuidade do ciclo de capex em IA e de um ambiente de preços de memória excepcionalmente alto, apesar de esperarmos continuidade do alto volume de vendas no curto/médio prazo.

Setor: Tecnologia (ETF: XLK, Technology Select Sector SPDR Fund)

Descrição: A Micron é uma empresa que desenvolve soluções de memória e armazenamento de dados. Ela atua em quatro principais áreas: a CNBU atende mercados como computadores, servidores, nuvem, gráficos e redes, com produtos de memória e soluções relacionadas; a MBU é focada em produtos de memória e armazenamento para smartphones e outros dispositivos móveis; EBU, que atende os setores automotivo, industrial e de consumo, também com produtos de memória e armazenamento; e a SBU trabalha com SSDs e outras soluções de armazenamento voltadas para empresas, nuvem, computadores pessoais e consumidores. A empresa foi fundada em 1978 e sua sede fica em Idaho, nos EUA.

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