Durante décadas, o lançamento de foguetes foi um monopólio governamental, dominado por consórcios de defesa e agências espaciais com orçamentos inflados e cadência baixíssima. A lógica se baseava na ideia de que cada lançamento custava uma fortuna, o foguete era descartado, e a conta ia para o contribuinte. Porém, a SpaceX quebrou esse paradigma de forma radical ao provar que foguetes poderiam “dar ré”, e ser reutilizados múltiplas vezes após o pouso. A empresa reduziu drasticamente o custo marginal de um lançamento, comprimindo-o em ordens de magnitude que o mercado ainda não sabia como precificar. Com o Starship (veículo espacial totalmente reutilizável) entrando em operação comercial em 2026, a capacidade de carga por lançamento deu um salto, e a SpaceX passou a ditar também o próprio ritmo da economia orbital, com operações que abrangem desde satélites Starlink às missões lunares da NASA e contratos de defesa.
A SpaceX estreou na Nasdaq em junho de 2026, avaliada em US$ 1,77 trilhão, no maior IPO da história. O valuation da estreia, porém, era equivalente a 115x receita de 2025. A esse múltiplo, o mercado não estava comprando apenas Starlink (único segmento lucrativo), mas apostando simultaneamente que o Starship sairá da fase de testes para operação comercial em escala, que a divisão reverterá US$ 6,4 bi de prejuízo operacional, que a Starlink multiplicará sua base de assinantes por cinco até o final da década, e que as apostas em IA se tornarão rentáveis. Ou seja: o preço do IPO pedia que todas as teses da companhia se materializem sem falhas de execução, com uma estrutura de governança sem precedentes, em que o fundador concentra 85,1% do poder de voto e ocupa simultaneamente os cargos de CEO, CTO e chairman.
Confira nossa visão sobre o IPO de SpaceX e o que ele representa: Temporada de mega IPOs
As ações da companhia estrearam com uma valorização extraordinária, subindo mais de 30% nos primeiros pregões e elevando a capitalização de mercado da companhia acima da marca de US$ 2 trilhões em questão de dias. O entusiasmo, porém, durou pouco. O mercado se encheu de investidores apostando na mesma direção, muitos deles compradores por obrigação, devido à mecânica dos índices na qual a SpaceX foi logo incluída, não por convicção fundamentalista. O que se seguiu foi uma correção que, em retrospecto, parece a materialização dos riscos que já estavam desenhados desde o anúncio do IPO.
Os contratos de cessão de capacidade computacional de xAI (braço de inteligência artificial da SpaceX, adquirido do X, antigo Twitter, meses antes da operação) com Anthropic e Google, ancoram US$ 26 bilhões de receita anualizada, mas levantam dúvidas quanto à estratégia da companhia e seu posicionamento na cadeia de IA. A Starlink, que precisaria multiplicar sua base de assinantes por cinco até o fim da década, começou a mostrar compressão de ARPU (receita por usuário) mais rápida do que o esperado, e o Starship, que consumiu mais de US$ 15 bilhões em P&D antes de gerar receita relevante, segue sem a cadência de lançamentos que o valuation de US$ 1,77 trilhão embutia como premissa.
Mesmo depois da correção (-8,3% desde o preço do IPO e -20,2% desde o preço de estreia das negociações), a ação ainda carrega um valuation que embute uma execução operacional excelente, então a dúvida não é sobre o que a companhia já construiu, dado que Musk tem feitos que nenhum competidor conseguiu replicar, mas sim sobre a durabilidade e o espaço para continuidade desse ciclo de expectativas. O mercado vê nos próximos balanços o teste para saber se o valuation reflete uma mudança estrutural duradoura na economia espacial ou apenas o pico de euforia de uma janela de IPOs muito antecipada. Com a ação de SPCX negociando a múltiplos que não toleram desvios de rota e a estrutura de lockup liberando novas fatias a cada trimestre, a margem para surpresas negativas é baixa.
Em paralelo, há ainda a discussão de uma fusão com a Tesla. Elon Musk já descreveu o movimento publicamente como uma combinação de sinergias óbvias e cuja arquitetura de governança, com o fundador controlando ambas as companhias, torna tecnicamente viável a qualquer momento, principalmente após uma notícia do Wall Street Journal revelar que a Tesla estuda vender sua operação na China, incluindo uma fábrica de veículos elétricos, para facilitar uma fusão com a SpaceX. Assi, o movimento reduziria exposição a riscos geopolíticos e simplificando questões regulatórias que poderiam travar a combinação dos ativos de Musk, uma vez que SpaceX é uma importante fornecedora do Departamento de Defesados EUA, a tornando alvo de escrutínio mais rígido.
Análises e reações dos mercados dos resultados do 2º trimestre de 2026 das empresas americanas. Confira tudo aqui.
SpaceX (Ticker: SPCX) – Resultados do 2T26
Como as ações reagiram?
📉As ações da SPCX caem cerca de -5,4% após o fechamento (às 17:00 de NY)
Destaques:
- Receita: US$ 7,8 bi (estimado US$ 6,8 – surpresa de +14,8%✅️)
- Lucro por ação ajustado: US$ -0,09 (estimado US$ -0,24 – surpresa de +61,9% ✅️)
A SpaceX reportou resultados bons, com surpresas positivas na receita (+14,7%) e no lucro por ação (+61,9%). A receita atingiu US$ 7,8 bi, o prejuízo líquido foi reduzido para US$ 541 mi, e o EBITDA ajustado disparou para US$ 3,5 bi. A empresa encerrou o trimestre com US$ 100 bi em caixa e receitas futuras já assinadas de US$ 47,5 bi, após captar US$ 85,7 bi no IPO e emitir US$ 25 bi em títulos com grau de investimentos.
O grande destaque foi o segmento de AI, que se tornou o principal motor de crescimento da companhia. A receita atingiu US$ 2,6 bi (+247% A/A), impulsionada por US$ 14,1 bi em acordos de serviços de computação na nuvem contratados no trimestre. A capacidade computacional saltou de 0,4 GW para 1,4 GW, e o segmento atingiu um EBITDA ajustado de US$ 1,1 bi. Além disso, o anúncio da aquisição da Cursor por US$ 60 bi (que a empresa espera que seja finalizada no 3T26) e o lançamento do Grok 4.5 posicionam a SpaceX como competidor relevante em Enterprise AI.
O segmento de Connectivity também teve bom desempenho, com crescimento de receita de 66% A/A, base de assinantes Starlink dobrando para 12 milhões, ARPU estável em US$ 66, e mais de US$ 6,0 bi em contratos com o governo dos EUA. A receita do segmento Space cresceu +29% A/A para US$ 962 milhões, com avanços notáveis do Starship V3 (espaçonave de próxima geração em desenvolvimento), incluindo pouso de precisão e implantação de satélites.
Do lado negativo, a SpaceX ainda opera com prejuízo líquido (US$ 541 mi), reflexo do enorme investimento em P&D que totalizou US$ 3,5 bi no trimestre. O capex foi de US$ 18,4 bi, sendo US$ 15,8 bi apenas no segmento de AI, visando construção acelerada do Colossus II (mega data center para IA). O fluxo de caixa operacional de US$ 3,5 bi no semestre cobre apenas uma fração do investimento, gerando forte dependência de financiamento externo. O segmento Space continua deficitário, com prejuízo operacional de US$ 542 mi e EBITDA negativo. Em Starlink, o ARPU (receita por usuário) caiu 22% em 12 meses, pressionando a margem do único segmento rentável da companhia.
O 2T26 trouxe resultados operacionalmente positivos, nas não o suficiente para uma leitura construtiva da tese ou com capacidade de justificar os valuations atuais. Starlink, único negócio lucrativo, enfrenta desaceleração do crescimento de assinantes e não atingiu as expectativas do mercado. O negócio de AI queima US$ 1,3 bilhão por trimestre e a empresa roda com um capex de US$ 18,4 bilhões, enquanto não gera 20% desse valor em fluxo de caixa operacional. Assim, o discurso de “disciplina de capital” reiterado pelo Bret Johnsen, CFO da companhia, não parece estar sendo integralmente cumprido. A empresa entrega crescimento, mas o valuation já precifica décadas de sucesso que ainda precisa ser provado, e a pressão sobre seus números tende a ficar cada vez maior.
Data da divulgação: Terça-feira (04/08/2026), após o fechamento do mercado
Setor: Tecnologia
Descrição: A Space Exploration (SpaceX), constituída em 2002, com sede em Starbase, Texas, fornece serviços de banda larga via satélite nos Estados Unidos, Irlanda, Canadá e internacionalmente. Ela opera por meio de três segmentos operacionais: Espaço, Conectividade e IA. O segmento de espaço projeta, fábrica e lança foguetes reutilizáveis para fornecer acesso ao espaço, o segmento de conectividade da empresa opera uma rede de dados e comunicações de banda larga por meio de diversos satélites Starlink em órbita baixa da Terra, e o segmento de IA fornece soluções para clientes e consumidores corporativos.
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