O rio corre para o mar


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Você com certeza já ouviu a expressão “Não reme contra a maré”. Para quem já praticou surfe ou canoagem no mar sabe bem o que isso significa. Esforço demais para pouco resultado.

Nos mercados, existe uma expressão que tem um significado parecido, e diz “Don’t fight the FED” (“Não lute contra o FED – Federal Reserve”). No mercado, você provavelmente fará muito esforço e terá poucos resultados se tentar lutar contra o Banco Central americano, que tem na sua mão o poder de imprimir dólares quando assim achar necessário.

Desde o começo da crise atual, em março de 2020, os três principais Bancos Centrais do mundo – o Federal Reserve americano, o Banco do Japão (BOJ), e o Banco Central europeu (ECB) – expandiram os seus balanços em +US$7,6 trilhões, iniciando em US$15,6 trilhões em fevereiro de 2020 e chegando a cifra de US$23,2 trilhões em abril de 2021, um aumento de +33%. Como efeito de comparação, esse montante de US$7,6 trilhões representa 9% do PIB Global. Em 2021, em apenas 3,5 meses, já foram injetados nos mercados mais +US$579 bilhões em dinheiro novo por esses mesmos Bancos Centrais (BCs).

Nesse mesmo período, de março-2020 até abril-2021, o valor do mercado acionário global cresceu +US$32 trilhões, de US$79 trilhões para US$120 trilhões atualmente, ou um aumento de +29%.

Esses crescimentos simultâneos não são uma mera coincidência. As intervenções expressivas dos BCs desde o início da crise foram fundamentais para estabilizar os mercados e trazê-los de volta para uma tendência de alta. Assim, as condições financeiras voltaram a se estabilizar, as empresas puderam vir a mercado captar recursos (via emissão de ações ou dívida), conseguiram sobreviver à crise, e as intervenções dos governos diretamente nas empresas (também conhecido como “bail-out”) não foram necessárias, como aconteceu em 2008.

Balanço dos Bancos Centrais vs. Valor de mercado ações globais – US$ Bilhões

Fonte: Bloomberg, XP Investimentos

O que dever acontecer quando esses estímulos acabarem?

A pergunta mais frequente entre os investidores é o que deve acontecer quando essa política de impressão de moeda por parte dos BCs mudar. Essa é uma preocupação legítima, mas mais importante que isso é se perguntar o que pode fazer essa política mudar? No curto e médio prazo, o principal risco a se monitorar é o da inflação.

A volta da inflação pode forçar os BCs a retirarem esses estímulos dos mercados, e serem forçados a subir as taxas de juros antes do esperado. O mercado ainda não parece estar totalmente preparado para esse risco de juros mais altos, como vimos recentemente com a alta dos juros de longo prazo das Treasuries americanas.

Além disso, ao invés de nos preocuparmos excessivamente com o que pode acontecer no futuro, precisamos no presente estar posicionados para nos beneficiar dessa “maré”. Posições excessivas em caixa nesse momento são um exemplo de remar contra a maré, por conta dos juros reais negativos no mundo. Na maioria dos países, os juros nominais hoje são mais baixos que a inflação. No Brasil, por exemplo, a Selic está em 2,75% e a inflação em 6,10% (IPCA de março-2021). Ou seja, os retornos em termos reais após descontada a inflação, estão negativos.

Como remar a favor da maré

Como já estamos escrevendo há algum tempo, o cenário global continua muito favorável para o preço de ativos. A economia global deve crescer quase +6% em 2021, e a liquidez global deve continuar elevada, com a contínua injeção de dinheiro pelos BCs. Nesse cenário, os ativos que mais tendem a se beneficiar são os Ativos Reais, ou seja, são aqueles que os Bancos Centrais não conseguem imprimir. Alguns exemplos desses ativos são:

  • Ações – quando compramos uma ação, estamos investindo diretamente no capital social de uma empresa e nos tornamos sócios daquela companhia. Os índices de ações globais estão nos recordes de preço (“All time High”), não apenas pelas intervenções dos BCs, mas também pela forte recuperação econômica em 2021 e reabertura econômica.
  • Imóveis – preços de imóveis e terras estão subindo no mundo todo. Hoje, não é preciso comprar um imóvel para participar dessa alta, e os fundos imobiliários e fundos de terras estão ganhando cada vez mais investidores e popularidade.
  • Commodities – A grande maioria das commodities está subindo fortemente nos últimos 6 meses (soja, milho, minério, boi, ouro, petróleo e várias outras). O cenário de recuperação econômica robusta com grande liquidez no mundo é muito favorável para os preços das commodities.
  • Criptos – boa parte da razão da alta recente do Bitcoin se deve a sua oferta limitada e restrita ao máximo de 21 milhões de BTC (hoje existem cerca de 18,6 milhões em circulação), ao passo em que moedas fiduciárias, criadas pelos Bancos Centrais, têm uma oferta infinita. Isso fez com que muitos investidores passassem a olhar para o Bitcoin como uma reserva de valor, inclusive empresas (como a Tesla) e investidores institucionais. As outras criptomoedas também têm subido fortemente, impulsionadas também por um cenário de liquidez em excesso.

Abaixo um exemplo ilustrativo do retorno acumulado nos últimos 12 meses de alguns desses ativos, desde quando os Bancos Centrais passaram a atuar de uma forma mais contundente nos mercados. Porém, é muito importante frisar que: 1) retornos passados não são garantia de retornos futuros, e 2) os últimos 12 meses se iniciam em um período de preços em níveis bastante deprimidos durante a crise, o que faz por inflar os retornos passados na janela de 12 meses.

Retornos acumulados nos últimos 12 meses

Fonte: Bloomberg, FIPE, XP Investimentos

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