O Banco do Brasil apresentou um resultado claramente acima do esperado no 2T26, com lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, 15% acima da nossa estimativa, apoiado por um Custo do Risco melhor que o esperado e bom controle das despesas operacionais. No entanto, consideramos que a qualidade subjacente do trimestre permanece mista. Embora o banco continue aumentando as reservas antes das perdas e melhorando a cobertura no Agro, as tendências de crédito permanecem desafiadoras em toda a carteira, especialmente em Pessoas Físicas, na qual a deterioração impulsionada pelos cartões acelerou de forma significativa, a formação de NPLs novos mais que dobrou T/T e os índices de cobertura enfraqueceram. A carteira Corporativa também parece menos saudável do que os NPLs reportados indicam, com menor constituição de provisões e redução dos saldos de Estágio 2, apesar de alguns focos de estresse em PMEs. Apesar do NII resiliente, da sólida geração de tarifas e do controle disciplinado de custos continuarem importantes fatores de compensação, acreditamos que a forte deterioração da qualidade dos ativos, a fraca geração de capital e um guidance cada vez mais desafiador deixam pouca margem para erros no 2S26. Assim, embora o trimestre tenha sido melhor do que se temia, não acreditamos que altere de forma relevante a tese de investimento.
Crescimento mais lento em um cenário macroeconômico desafiador. O crescimento da carteira de crédito foi modesto no 2T26, com a carteira expandida aumentando 0,6% T/T, sustentada pelo Corporativo (+2,7% T/T), enquanto o Agro permaneceu praticamente estável (+0,8%) e Pessoas Físicas contraiu 1,2% T/T. Sob a perspectiva de mix, a carteira Corporativa continua migrando para produtos de menor risco, com os empréstimos para investimento crescendo 12,6% A/A, enquanto as exposições de capital de giro (-11,6%) e renegociação de dívidas (-29,4%) recuaram, e aproximadamente 40% da carteira de PMEs agora está coberta por garantias do FGO/FGI. As tendências subjacentes de crédito, porém, continuam desafiadoras. As divulgações do Agro apontam para um grande volume de exposições em extensão ou programas de tratamento especial, incluindo R$ 66,5 bilhões em operações rurais com extensão legal de prazo e R$ 39,3 bilhões no BB Regulariza Agro. Em Pessoas Físicas, os cartões ainda cresceram 15,1% A/A, ante expansão de 5,5% no faturamento dos cartões, sugerindo que o crescimento passou a ser cada vez mais impulsionado por financiamento, e não por gastos transacionais, o que implica um mix de risco menos favorável.
Uma fonte de resiliência. O NII atingiu R$ 27,5 bilhões, em linha com nossas estimativas e estável sequencialmente. A composição melhorou, com o NII de Clientes aumentando 2,2% T/T, para R$ 23,5 bilhões, em função de spreads de clientes mais fortes, de 8,36%, ante 8,21%, enquanto o NII de Mercado caiu 10% T/T, reduzindo a dependência de receitas de tesouraria. A dinâmica de captação também melhorou, com menor dependência de letras de crédito do Agro e aumento dos depósitos a prazo, cujo custo caiu para 72,2% da taxa básica, ante 75,8% um ano antes. No 1S26, o NII cresceu 12,1% A/A, acima do limite superior do guidance, e continua sendo uma das tendências mais favoráveis do perfil de resultados. A ressalva é que o spread bruto e o spread ajustado pelo risco estão se movendo em direções opostas: o spread de clientes ajustado pelo risco ficou em 1,73% no 2T26, ante 2,26% um ano antes.
Ainda o principal debate de investimento. A qualidade do crédito continua sendo a principal preocupação, apesar do custo de crédito informado ter vindo melhor que o esperado. O custo do risco caiu 2% T/T, para R$ 18,5 bilhões, e ficou 5% abaixo da nossa estimativa, mas a melhora foi impulsionada por maiores recuperações (+51% T/T) e menores descontos concedidos, em vez de uma normalização abrangente, já que a despesa bruta esperada com perdas aumentou 13,5% T/T, para R$ 18,8 bilhões. Também destacamos que os R$ 14,2 bilhões em baixas no trimestre, equivalentes a 1,1% da carteira, estão mantendo o índice reportado de NPL sob controle, enquanto os NPLs iniciais do grupo subiram para 7,66%, ante 6,51% no 1T26.
- Pessoas Físicas foi a principal fonte de preocupação no trimestre. Os NPLs acima de 90 dias subiram significativamente, para 8,4%, ante 6,8%, enquanto a cobertura caiu para 125,8%, ante 147,9%. A formação de novos NPLs mais que dobrou sequencialmente, para R$ 11,8 bilhões, equivalente a 3,27% da carteira, com cobertura de 65,9%. Esta também é a única carteira do grupo em que a cobertura do Estágio 3 caiu, para 66,4%, ante 69,1%. Os cartões foram o principal ponto de pressão, com os NPLs mais que dobrando T/T, para 14,6%. De acordo com nossa reconstrução, os cartões responderam por aproximadamente R$ 5,1 bilhões dos R$ 5,4 bilhões de aumento nos NPLs acima de 90 dias. Em outras palavras, quase toda a deterioração do trimestre veio de 19,6% da carteira. O contexto é de uma carteira que cresceu 15% A/A, ante aumento de apenas 5,5% no faturamento dos cartões, com uma base recorrente de utilização 3% menor e participação das operações que geram juros subindo para 22,2%, ante 15,4% no 2T25. Na carteira de crédito consignado, o segmento defensivo da carteira, a inadimplência aumentou de 1,7% para 2,7%, enquanto o consignado privado continuou crescendo.
- No Agro, a cobertura de Estágio 3 subiu para 79,1%, as reservas sobre operações adimplentes aumentaram quase 30% T/T, para cobertura de 3,4% do Estágio 1, e as provisões totais do Agro agora equivalem a 99,3% dos saldos combinados de Estágio 2 e Estágio 3. Os indicadores antecedentes, entretanto, permanecem desafiadores, com os NPLs iniciais subindo para 9,0%. Embora a formação de novos NPLs tenha melhorado sequencialmente, consideramos prematuro assumir um ciclo de normalização sustentável.
- A qualidade do crédito Corporativo também merece acompanhamento. Os NPLs reportados continuam baixos, em 3,2%, e melhores do que há um ano. As provisões de Estágio 1 foram reduzidas em 25% T/T, levando a cobertura para 0,3%, enquanto as provisões de Estágio 2 caíram 32%, em um trimestre em que a carteira cresceu 2,7% e os atrasos iniciais aumentaram marginalmente. Os saldos de Estágio 2 recuaram 18,7% T/T, apesar do aumento do Estágio 3, e 56% do saldo de Estágio 3 não apresenta qualquer atraso superior a 90 dias. Por fim, os NPLs das PMEs alcançaram 9,7% no trimestre.
As tarifas permanecem resilientes. As receitas de tarifas atingiram R$ 9,1 bilhões, alta de 3% T/T e em linha com nossas estimativas. O crescimento foi liderado por gestão de recursos (+6,3% T/T), serviços de conta corrente (+7,6%) e crédito e garantias (+4,7%), parcialmente compensado por seguros (-4,5%) e cartões (-2,5%). A linha de tarifas de cartões, porém, permaneceu estável frente a uma carteira 15% maior, enquanto o ecossistema mais amplo de pagamentos passou a apresentar uma perda gerencial de R$ 518 milhões no 1S26, ante lucro de R$ 2,0 bilhões no 1S25.
Ajudando a absorver a pressão do crédito. As despesas permaneceram bem controladas e continuam sendo um dos principais pontos fortes do perfil operacional. As despesas administrativas aumentaram 4,8% no 1S26, ante reajuste salarial coletivo de 5,7%, com índice de eficiência trimestral de 27,7%. As demais despesas administrativas, excluindo D&A, caíram em termos reais. Em um ambiente de maior necessidade de provisões, a disciplina de custos continua sendo um importante fator de compensação.
Um resultado claramente favorável. O lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões aumentou 14% T/T e 3% A/A, ficando 15% acima da nossa estimativa, com a surpresa positiva explicada principalmente pelo menor custo de crédito. Em relação ao guidance, considerando os R$ 7,3 bilhões entregues no 1S26, a faixa anual de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões implica R$ 10,7 bilhões a R$ 14,7 bilhões no 2S26, ou R$ 5,3 bilhões a R$ 7,3 bilhões por trimestre, ante um ritmo atual de R$ 3,9 bilhões. O custo de crédito anualizado do 1S26, de R$ 74,7 bilhões, já supera o teto do guidance de R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões, enquanto a carteira Corporativa opera a -6,4%, ante faixa de -3% a +1%. Apenas o NII, de 12,1% A/A, ante faixa de guidance de 7% a 11%, e a carteira sustentável estão acima da meta.
Pouca margem para erros. O índice CET1 caiu 32 p.b. T/T, para 11,27%, com os resultados contribuindo apenas com 22 p.b., ante impacto atuarial negativo de 18 p.b. e 37 p.b. de ajustes prudenciais. Um fator importante foi o reconhecimento de aproximadamente R$ 8,1 bilhões em ativos fiscais diferidos decorrentes de prejuízos fiscais no 1S26: esses ativos sustentam o lucro reportado, mas são integralmente deduzidos do capital regulatório. O patrimônio líquido caiu R$ 5,7 bilhões no trimestre, mais do que o lucro contábil, uma vez que a remensuração semestral da obrigação previdenciária reduziu o ativo atuarial da Previ de R$ 32,5 bilhões para R$ 22,3 bilhões, em função da queda da taxa real de desconto de 9,8% para 8,3%. Com a rentabilidade abaixo dos níveis históricos e payout mantido em 30%, o capital permanece uma variável importante a ser monitorada.
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