A Braskem comunicou, em fato relevante divulgado no dia 25 de junho de 2026, que protocolou pedido de tutela cautelar de urgência junto à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, com o objetivo de obter proteção temporária contra cobranças de credores financeiros. O pedido foi deferido no dia seguinte, dando início à suspensão de todas execuções e constrições por credores financeiros pelo prazo de 60 dias. A medida tem escopo restrito ao passivo financeiro.
Atualizaremos esta página de acordo com comunicados por parte da Companhia e seus agentes fiduciários.
Linha do tempo
- 25/06/26: Protocolo da tutela cautelar perante a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.
- 26/06/26: Deferimento judicial da tutela cautelar, dando início à suspensão de todas execuções e constrições por credores financeiros pelo prazo de 60 dias.
- 26/06/26: Fitch e S&P rebaixam Braskem para “C” e “D”, que indicam elevada probabilidade de default, após tutela que suspende pagamentos e marca início da reestruturação da dívida.
Próximos passos
Até o momento, a negociação da Braskem com um grupo de credores segue sem alinhamento sobre os principais parâmetros da reestruturação.
Será preciso aguardar a apresentação da proposta de reestruturação final, com a devida aprovação pelos principais credores (mínimo de 1/3), no caso de Recuperação Extrajudicial ou, através de uma Recuperação Judicial.
Pedido de tutela cautelar
Segundo o fato relevante, a medida tem escopo estritamente financeiro, abrangendo apenas credores dessa natureza, e busca assegurar uma proteção temporária contra cobranças durante as negociações.
O objetivo declarado é preservar um ambiente estável para a negociação com credores e avançar em uma solução consensual para a estrutura de capital, compatível com a posição de liquidez da companhia e com o contexto ainda desafiador da indústria petroquímica global. A Braskem destacou que a medida não afeta obrigações com fornecedores, clientes e demais stakeholders operacionais, que seguem sendo honradas normalmente – aspecto que ajuda a mitigar riscos de descontinuidade operacional no curto prazo.
Do ponto de vista de crédito, a iniciativa tende a caracterizar um estágio preliminar de uma reestruturação mais ampla (extrajudicial ou judicial), criando uma janela para condução ordenada das tratativas, sem ainda estabelecer os termos de eventual repactuação da dívida.
Adicionalmente, o conselho de administração aprovou a possibilidade de adoção de medidas protetivas no exterior, caso necessário. Embora não se trate de um pedido de recuperação judicial, a tutela cautelar busca suspender execuções e constrições de ativos por credores financeiros durante a renegociação do passivo. A medida é relevante considerando a estrutura de dívida da companhia, em que um eventual default pode acionar cross-defaults e execução de garantias, elevando o risco de um evento de crédito.
O movimento formaliza um cenário já antecipado desde abril, quando a companhia indicou à CVM estar avaliando alternativas para endereçar sua estrutura de capital. O pano de fundo é de pressão de liquidez: ao final do 1T26, a Braskem reportava aproximadamente US$ 1,06 bilhão em caixa frente a US$ 1,46 bilhão em vencimentos ao longo de 2026, em um ambiente de margens comprimidas e geração de caixa negativa. Nesse contexto, reportagens recentes mencionam, entre as alternativas em análise, o eventual diferimento de cupons de bonds com vencimento a partir de julho (cerca de US$ 154 milhões).
Em paralelo, a subsidiária Braskem Idesa conduz um processo de Chapter 11 nos Estados Unidos, com potencial de implicações via mecanismos de cross-default associados ao equity support agreement (ESA) – elemento adicional de atenção na avaliação consolidada de risco.
Andamento das negociações
Em fato relevante adicional divulgado no dia 25 de junho de 2026, a Braskem compartilhou materiais, até então não públicos e conduzidos sob acordos de confidencialidade, sobre discussões prévias com determinados credores financeiros para uma potencial reestruturação de capital.
Os materiais em questão incluíam (i) proposta inicial da companhia, (ii) contraproposta dos credores e (iii) resposta da Braskem às condições apresentadas.
Entretanto, até o momento, não houve convergência entre as partes, e a Braskem reforçou que segue engajada em busca de uma solução consensual para a estrutura de capital.
A ausência de acordo, combinada com a necessidade de curto prazo da companhia, ajuda a explicar o pedido de tutela cautelar como mecanismo para estabilizar o ambiente de negociação.
Como a Braskem chegou até aqui?
Histórico recente

Fontes: Companhia e XP Research.
Sob a ótica de crédito, a companhia já se encontrava em território distressed antes do anúncio da tutela cautelar, com ratings já pressionados pelas agências, os quais se deterioraram para o território de alta probabilidade de default e reestruturação de dívida após a suspensão de pagamentos aos credores.

Fontes: Moody’s, Fitch e XP Research.
Em síntese, a tutela cautelar reforça a leitura de que a Braskem caminha para uma reestruturação de maior amplitude, ao mesmo tempo em que preserva, neste momento, a continuidade operacional ao limitar o escopo da medida ao passivo financeiro. Entre os principais pontos a monitorar, destacam-se o deferimento do pedido pela Justiça, a definição do perímetro de credores e instrumentos abrangidos e eventuais sinalizações sobre o tratamento dos cupons com vencimento no curto prazo.
A deterioração financeira da Braskem aconteceu por um combinado de fatores, dentre eles: (i) o ciclo do spread petroquímico em baixa por um longo período, sem precedentes; (ii) os desdobramentos do evento geológico em Alagoas, que já consumiu caixa ~R$ 14-15 bi em 6 anos; e (iii) a troca de controle, com a IG4 passando a liderar a reestruturação financeira.
1. Ciclo do spread petroquímico segue pressionado; conflito Oriente Médio trouxe vol positiva, mas cenário já se normalizou

Fontes: Bloomberg e XP Research.
Os spreads de resinas no Brasil em 2025 estão em US$ 358/t, 35% abaixo da média histórica de 2010–2025 (US$ 551/t), pressionados pela sobrecapacidade chinesa, que adicionou cerca de 20% à capacidade global.
As consultorias do setor projetam normalização apenas entre 2027 e 2029. Nesse ambiente, a Braskem enfrenta juros anuais de US$ 700–800 mi e capex de manutenção de cerca de R$ 2,5 bi, exigindo um nível de EBITDA que o ciclo atual não entrega.
Como resultado, a companhia vem registrando queima recorrente de caixa, de R$ 5,9 bi (~US$ 1,1 bi) em 2025 e mais R$ 4,6 bi apenas no primeiro trimestre de 2026.
As margens se deterioraram principalmente a partir de 2021, e a alavancagem atingiu o pico no 1T26.

Fontes: Companhia e XP Research.
2. Maceió: Evolução das provisões do evento geológico (acumulado desde 2019)

Fontes: Companhia e XP Research.
Saldo do acumulado (1T26), R$ 15,6bi, dos quais: (i) realocação/indenização R$ 5,07 bi;(ii) fechamento e monitoramento das 35 cavidades R$ 5,27 bi; (iii) medidas sócio-urbanísticas R$ 1,91 bi; (iv) medidas adicionais (acordos com Município e Estado etc.) R$ 5,85 bi.
Execução do PCF (mar/2026): 19.204 propostas apresentadas, 19.124 pagas (99,6% de aceitação); ~14,5 mil imóveis desocupados; >R$ 4,2 bi desembolsados no programa.
3. Alterações societárias
A entrada da IG4 na estrutura societária da Braskem foi consequência da reestruturação da dívida da Novonor. Após adquirir cerca de R$ 20 bilhões em créditos detidos por bancos e garantidos por ações da Braskem, a IG4 converteu essa posição credora em participação societária, assumindo o bloco de controle que até então estava nas mãos da Novonor.
Com isso, a Novonor perdeu protagonismo na companhia, enquanto a Petrobras manteve sua participação acionária inalterada e passou a dividir a governança com um novo acionista especializado em processos de turnaround e reestruturação.

Fontes: Companhia e XP Research.
IG4 Capital é uma gestora brasileira de private equity e special situations, focada principalmente em empresas em situação de estresse financeiro, reestruturações complexas e investimentos de controle na LatAm. Possui aprox. US$ 4,0 bilhões de AUM bruto total, sendo: ~US$ 1,0 bilhão em fundos de equity (private equity) e ~US$ 3,0 bilhões em fundos de crédito. Investimentos conhecidos são CCR, Oi, Invepar, além de e ativos industriais e de infraestrutura na região.
Endividamento da Braskem
A maior parte da dívida é offshore. Os bondholders¹ são pulverizados.


Fontes: Companhia, Bloomberg e XP Research. | Notas: (1) Soma dos Top 5 bondholders de cada bond.
Veja Mais
Fontes
Braskem, Fitch, S&P e XP Research.
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