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Mercados reagem positivamente a cessar-fogo

Conheça os riscos que devem permanecer no radar dos investidores

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Na tarde do domingo, dia 15 de junho, Washington e Teerã anunciaram acordo para encerrar o conflito e reabrir o estreito de Ormuz a partir de sexta-feira (19 de junho), quando a assinatura do Memorandum of Understanding será assinado na Suíça. O acordo prevê cessar-fogo ampliado na região (incluindo o conflito Israel–Hezbollah), embora Israel não seja signatário do acordo.

Na segunda-feira após o anúncio, os mercados reagiram de forma amplamente positiva, com queda expressiva nos preços de petróleo (Brent: -4,6%, para US$ 83,36/barril), refletindo a redução do risco geopolítico; alta nas bolsas globais (ACWI: +1,0%; S&P 500: +1,8% e Nasdaq 100: +3,1%). A reação dos mercados de Treasuries foi mais limitada (Treasury de 2 anos: -2 bps; 10 anos: -1 bp), uma vez que apesar de expectativa de desinflação adiante com dissipação do choque de energia, o espaço limitado para queda dos preços de petróleo no curto prazo, assim como pressões de outras frentes, como a recomposição das tarifas, tenha limitado um movimento de “flight to safety”. Paralelamente, o dólar se enfraqueceu apenas marginalmente no dia (DXY: -0,1%), assim como outros ativos alternativo como ouro (-0,5%) e prata (-0,3%). O Bitcoin, por outro lado, apresentou alta de 1,3% no dia.

O principal driver da alta em equities não foi necessariamente a expectativa de ganhos adicionais diretos com o acordo, mas sim a remoção de um importante fator de risco, permitindo que os mercados voltem a focar nos fundamentos – em particular, o forte desempenho recente de lucros corporativos. Ainda assim, a menor reação das Treasuries, mesmo com a queda do petróleo, foi interpretada como um sinal de cautela na frente macroeconômica, enquanto o mercado ainda espera uma alta na taxa dos Fed Funds até o final de 2026 (ainda que com probabilidade levemente menor).

O acordo não foi uma surpresa completa para os mercados. Desde o cessar-fogo inicial implementado no início de abril, a narrativa vinha gradualmente incorporando a expectativa de um entendimento entre as partes, ainda que hostilidades pontuais também fizessem parte do noticiário, adicionando risco.

O governo americano já vinha demonstrando relutância em escalar militarmente o conflito e buscava uma estratégia de saída. Sinalizações recorrentes de progresso nas negociações já sustentavam parte da valorização dos ativos, ajudando a sustentar o rali observado em abril e maio. Dessa forma, o anúncio funcionou mais como um catalisador de consolidação do movimento do que como um choque positivo inesperado.

O acordo firmado entre EUA e Irã estabelece a extensão do cessar-fogo por 60 dias, com o objetivo de viabilizar negociações mais amplas. Ainda não são conhecidos todos os termos do acordo, uma vez que seu texto ainda não foi divulgado, e negociações nucleares seguem em curso. O Irã afirmou que permitiria a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz sem cobrança durante o período de negociação de 60 dias, embora pretenda cobrar depois, enquanto Trump afirmou que a passagem deveria permanecer permanentemente livre de tarifas.

No que ficar de olho de agora em diante? Apesar da reação inicial favorável dos mercados, ainda há uma série de fatores de risco para os quais os investidores precisam permanecer atentos:

(i) Petróleo: Apesar de continuidade da tendência de queda no curto prazo com a reabertura do Estreito de Ormuz e aumento potencial da oferta (incluindo Irã e OPEP+), o espaço para a queda é limitado, não devendo alcançar o nível anterior ao conflito. Choques de energia podem persistir devido a disrupções na cadeia de suprimentos e danos estruturais causados pelos ataques.

(ii) Ritmo da desinflação e política monetária: O impacto inflacionário do conflito não deve desaparecer rapidamente, o que pode manter bancos centrais com postura mais hawkish, com cautela diante da evolução dos efeitos do choque de energia sobre a economia.

(iii) Expectativas de inflação e juros: A ausência de um rali mais forte nas Treasuries sugere que o mercado ainda vê riscos inflacionários relevantes, inclusive provenientes de fatores como a volta das tarifas.

(iv) Câmbio: Apesar de reação inicial de leve enfraquecimento do dólar, sem movimento expressivo, a redução da percepção de risco global pode levar a moeda americana a retomar sua trajetória de queda. A evolução dependerá principalmente do diferencial de juros e da trajetória inflacionária.

(v) Excepcionalismo americano: Com a redução do risco geopolítico, o foco retorna aos fundamentos dos EUA, especialmente lucros corporativos e dinâmica do setor de tecnologia, e o fluxo de capital continua apoiando setores ligados à inteligência artificial, apesar de questionamentos sobre sustentabilidade de longo prazo.

(vi) Posição dos EUA no tabuleiro global: O acordo não restaura o status quo, podendo ter efeitos de longo prazo sobre fluxos de capital e enfraquecimento do status hegemônico dos EUA. O conflito já resultou em mudanças estruturais no balanço de poder global e na percepção sobre a presença americana no Oriente Médio, após ataques a bases americanas e infraestrutura de países aliados.

Por fim, ainda persistem dúvidas sobre a sustentabilidade do acordo, em função da baixa confiança entre EUA e Irã e pendências relevantes, como o programa nuclear e alívio das sanções. Adicionalmente, a não participação de Israel e a possibilidade de retomada de hostilidades reforçam o caráter ainda frágil da trégua.

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