“Estamos no controle das nossas emoções?”, pergunta Dan Ariely na Expert 2020

Para falar sobre Economia e as Emoções neste último dia de Expert, recebemos Dan Ariely, autoridade internacional em Economia Comportamental.


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Dan Ariely é um professor e autor israelo-americano que se dedica ao estudo de economia comportamental. Uma das maiores autoridades mundiais no assunto, ele já escreveu diversos best-sellers, dentre eles Previsivelmente Irracional (2008) e A mais pura verdade sobre a desonestidade (2012). Economia comportamental é o estudo da influência de fatores psicológicos, cognitivos e emocionais na tomada de decisões das pessoas e, consequentemente, de empresas. Esses fatores muitas vezes nos afetam sem ao menos percebermos e têm efeito, inclusive, nas decisões sobre investimentos. Por isso, é importante entender como esse conceito atua nas nossas vidas – confira todos os detalhes do painel abaixo.

A crise do covid-19 do ponto de vista das ciências sociais

Segundo Dan Ariely, o covid-19 começou como uma crise biológica e depois se tornou uma crise econômica também. Nesse sentido, ele acredita que as ciências sociais, especialmente a economia comportamental, podem ajudar a estuda-la. O coronavírus exige que as pessoas se comportem de maneira diferente e, para fazer isso, é preciso que entendamos como as pessoas se comportam em primeiro lugar. Por exemplo: dar instruções às pessoas não é tão simples quanto pode parecer à primeira vista. Ariely nos questiona: “E se violarmos as instruções? Se sairmos para encontrar duas pessoas, será que agora podemos sair para encontrar mais pessoas? Se deixarmos nossas casas uma vez, será que agora podemos visitar mais lugares? Transformar uma regra em algo que as pessoas realmente reconhecem e respeitam é bastante desafiador ”, ele comenta.

Outra questão que ganhou relevância durante a crise é a da educação. Segundo Ariely, “educação é basicamente uma questão de motivação”. Ele se pergunta, por exemplo, como motivar alunos quando eles não contam mais com uma sala de aula física, por exemplo. Na sala de aula, os professores podem monitorar as crianças; trata-se de um tipo de motivação muito diferente daquela necessária para manter as crianças aprendendo em casa. Para Ariely, poderíamos ter tido essa conversa sobre a motivação de crianças, professores e pais, há muito tempo. No entanto, agora, com a crise, fomos forçados a repensar o sistema educacional, e parece que estamos longe de criar um ambiente ideal. “Em um dia normal, não enxergamos todos os comportamentos que precisam mudar mas, durante uma crise, eles se tornam incrivelmente evidentes. É aí que precisamos especialmente das ciências sociais”, afirma.

“Em um dia normal, não enxergamos todos os comportamentos que precisam mudar mas, durante uma crise, eles se tornam incrivelmente evidentes. É aí que precisamos especialmente das ciências sociais.”

– Dan Ariely

Você prefere ter meia caixa de chocolates agora ou uma caixa inteira em uma semana?

Conforme explicado por Ariely, “desconto hiperbólico” é a ideia de que nos preocupamos muito com o presente, mas não tanto com o futuro. Para explicar isso, Ariely propõe o seguinte experimento: “Imagine que eu lhe dissesse: você prefere ter meia caixa de chocolates agora ou a caixa inteira em uma semana? A maioria das pessoas prefere meia caixa agora, demonstrando que, para elas, não vale a pena esperar uma semana inteira pela outra metade da caixa. Por outro lado, o que aconteceria se eu lhe dissesse: você prefere ter meia caixa de chocolates em um ano ou a caixa completa em um ano e uma semana? Nesse caso, a maioria das pessoas preferiria a caixa inteira em um ano e uma semana.”

Em ambas as situações, as pessoas esperariam uma semana pela outra metade da caixa de chocolate. O que esse experimento prova é que, quando se trata de uma escolha de longo prazo, as pessoas a processam de maneira diferente. De acordo com Ariely, “quando algo se aproxima de nós, perdemos a paciência e isso aparece de muitas e muitas maneiras, inclusive nossos hábitos dormir muito pouco, comer muito, fazer pouco exercício, etc.”. Portanto, é fundamental entender que o pensamento de curto prazo, também conhecido como pensamento míope, é uma enorme barreira ao comportamento humano, especialmente durante a atual crise.

“Durante a crise do covid-19, ficou ainda mais claro que estamos todos juntos”, diz Ariely

Para Ariely, os experimentos relacionados a bens públicos são uma maneira interessante de entender como as pessoas se comportam coletivamente. “Digamos que selecionamos aleatoriamente 10 brasileiros e damos a eles 100 reais todos os dias. Em seguida, dizemos a eles que, se colocarem seu dinheiro em um pote coletivo, até o final do dia esse valor será multiplicado por cinco, e a soma será dividida entre todos os participantes. ” O que os dados mostram, de acordo com o cientista, é que, no primeiro dia, todos os 10 participantes colocam seus 100 reais no pote público. Os 1.000 reais se tornam 5.000 e cada um recebe 500 reais no final do dia. Isso continua acontecendo, até que um dia uma pessoa não coloca seu dinheiro no pote público. Desta vez, 9 pessoas colocam 100 reais. O valor total de 900 reais é multiplicado por 5 ao final do dia. Os 4.500 reais são então divididos entre os 10 participantes, o que significa que agora cada um recebe 450 em vez de 500, incluindo a pessoa que não colocou dinheiro no pote naquele dia.

No dia seguinte, segundo Ariely, o que acontece é que ninguém coloca dinheiro no pote coleitvo. Não há solução intermediária, não existe um equilíbrio estável no qual 5 pessoas colocam seu dinheiro e 5 pessoas não, por exemplo. Todo mundo contribui ou ninguém contribui, o que significa que o “equilíbrio bom” em que todos contribuem é muito frágil. Ariely acredita que, de certa forma, a crise do coronavírus é muito parecida com esse experimento de bem público e, por isso,  “precisamos pensar em como garantir que permaneçamos em um equilíbrio bom”. Ele também acrescenta que é importante levar em consideração como ajudar as pessoas que não podem parar de trabalhar, mesmo durante a quarentena, porque não têm outra fonte de renda.

Redução de confiança no governo pode ser um efeito colateral da crise do coronavírus

Segundo Ariely, durante a crise do coronavírus, níveis reduzidos de confiança no governo vem sendo observados como efeito colateral. Curiosamente, em países em que os níveis de confiança são mais altos, o PIB também costuma ser maior. Consequentemente, o cientista acredita que é importante se debruçar sobre o fenômeno da confiança e sugere fazê-lo através de um experimento. “Imagine que você está em um restaurante. Temos o garçom nº 1 e o garçom nº 2. Digamos que você tenha dito ao garçom nº 1 que quer peixe, mas ele respondeu que você deve comer o frango, porque é melhor e mais barato. Então você pede o frango e também aceita a recomendação de vinho do garçom. Agora, digamos que você diz ao garçom nº 2 que quer o peixe, ele diz que, em vez disso, você deve comer o bife, porque, embora seja três vezes mais caro, ele é maravilhoso. Quais são as chances de você aceitar a recomendação do segundo garçom? “

O argumento de Ariely é que o garçom nº 1 está disposto a se sacrificar um pouco para oferecer a melhor experiência, e por isso você tende a confiar mais nele. Afinal, o restaurante lucra menos com a escolha do frango em vez do peixe, mas o garçom nº 1 acredita que assim você ficaria mais satisfeito e por isso te indica o frango. Isso cria confiança, enquanto o comportamento do garçom nº 2 não. O que esse experimento indica sobre o comportamento de líderes em tempos de crise é que, possivelmente, eles precisam mostrar que se importam mais com a população do que somente consigo mesmos. Segundo Ariely, essa é a principal maneira de criar confiança e, durante a crise atual, os esforços nesse sentido parecem ter sido insuficientes até agora. “Pense quanto melhor todos nós poderíamos estar [combatendo à contaminação] se compartilhássemos nossos dados com o governo, por exemplo. Mas como não confiamos nele, estamos presos em um equilíbrio ruim”, diz Ariely.

Os setores de educação e saúde podem ter sido mudados para sempre, para melhor

“Essa crise ficará  conosco por muito tempo e, mesmo que conseguíssemos uma cura hoje, a crise financeira seguirá presente por um bom tempo. Então a pergunta é: como vamos sair dela? ”, afirma Ariely. Para conseguir isso, ele acredita que tentar voltar às maneiras anteriores de fazer as coisas não parece uma boa estratégia. Para ele, para sair desta crise no menor tempo possível, “precisamos, de alguma forma, trabalhar contra nossos instintos, contra o medo, a ansiedade e a solidão”. Um bom ponto de partida nessa jornada parece ser o estudo de fenômenos comportamentais, como descontos hiperbólicos, esforços para o bem público e geração de confiança.

Segundo Ariely, um dos pontos positivos da crise é que o sistema educacional parece estar evoluindo para melhor, agora que as pessoas perceberam que dar mais autonomia às crianças é uma estratégia vencedora. Ariely acredita que isso pode ter impactos de longo prazo para o sistema como um todo, permitindo que crianças e adolescentes passem a buscar suas verdadeiras paixões em termos de conhecimento. Outro aspecto positivo da crise são as mudanças pelas quais o sistema de saúde está passando, principalmente com o aumento do uso da telemedicina. Embora ainda não esteja claro se as pessoas terão sucesso em “trabalhar contra seus instintos” ou em confiar mais nos governos, segundo Ariely, pelo menos esses dois setores, Educação e Saúde, estão observando uma grande transformação para o melhor.

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