Bitcoin e ESG: Entenda os dois lados da moeda

Ao longo deste relatório temático, feito pelo time de Research ESG e Internacional da XP, buscamos entender qual o impacto do Bitcoin no meio ambiente e onde ele se encontra no relativo às demais atividades.


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Resumo

Depois de um grande rali em 2017, o Bitcoin saiu um pouco do holofote por alguns anos e voltou com força nos últimos meses. Por depender de computadores de alta potência para sua criação, o alto consumo de energia é intrínseco ao negócio. E é nesse contexto que as preocupações com o meio ambiente surgem.

Estima-se que o consumo de energia representa ~0,6% da produção global de eletricidade, ou o equivalente ao consumo anual total de energia do Paquistão. Na nossa visão, o maior problema do Bitcoin talvez não seja seu consumo massivo de energia, mas fontes de energia mais poluentes, com destaque para o carvão, principal fonte energética da China, país que possui o maior poder computacional de Bitcoin. No entanto, uma série de outras atividades ao redor do mundo e no nosso dia-a-dia são responsáveis por emissões bem maiores do que o Bitcoin, fazendo com que a sua pegada de carbono seja mínima quando comparada à dos carros, usinas de energia e fábricas.

A conclusão, com isso, é que a preocupação com os impactos ambientais advindos da mineração do Bitcoin é irrelevante? De forma alguma. A mineração não é o principal desafio frente aos obstáculos a serem enfrentados no combate às mudanças climáticas. Mas ela é um deles. Fato é que não existe uma bala de prata quando o tema é a redução das emissões de CO2. O caminho é longo e o tempo é curto – não será uma trajetória fácil, mas ela é extremamente necessária. Em nossa opinião, (i) a universalização da compreensão dos riscos impostos pela mudança climática; (ii) a conscientização social sobre o tema; e (iii) a cooperação; são primordiais para o enfrentamento de um dos maiores desafios para o mundo hoje: frear as emissões de gases de efeito estufa.

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Um contexto a cerca do porquê esses dois termos não saem dos holofotes

Depois de um grande rali em 2017, as criptomoedas saíram um pouco do holofote por alguns anos e voltaram com força nos últimos meses. Preocupações com a subida da inflação, a alta liquidez nos mercados globais, a entrada de investidores institucionais e, mais recentemente, a estreia da corretora Coinbase na Nasdaq, foram alguns dos fatores que impulsionaram os preços dos criptoativos para novas máximas históricas.

Nesse ano, o Bitcoin já chegou a acumular uma alta de mais de 1.000% em doze meses, antes de queda abrupta desses últimos dias. Com isso, o valor de mercado do Bitcoin já chegou a ultrapassar US$1 trilhão, valor este maior do que todas ações negociadas na B3. A principal razão para tamanho interesse desses investidores é a consolidação desta moeda como reserva de valor com grandes possibilidades de valorização devido à própria natureza da criptomoeda. O Bitcoin é uma moeda totalmente digital e descentralizada, ou seja, não é emitida nem supervisionada por um banco central.

Na verdade, sua criação depende dos chamados “mineradores”, cujos computadores de alta potência funcionam dia e noite competindo com outras máquinas para resolver algoritmos complexos. O primeiro que resolver um problema fica responsável por registrar uma transação no sistema descentralizado e é recompensado com Bitcoins – processo conhecido como “proof-of-work“. 

É nesse contexto que as preocupações com o meio ambiente surgem. Quando o Bitcoin foi criado em 2009, um computador normal podia facilmente minerar uma criptomoeda. Mas à medida que o Bitcoin se torna mais popular e se valoriza, mais mineradores entram no mercado, gerando um maior incentivo para eles investirem em equipamentos mais poderosos e, assim, obter mais moedas. O software responde a isso gerando problemas cada vez mais complexos a serem resolvidos. Hoje, um computador normal não consegue mais resolver os cálculos necessários, pois estes exigem processadores mais sofisticados que, consequentemente, consomem mais energia.

Apesar do consumo energético elevado, que é intrínseco ao negócio, o processo de mineração pode utilizar energias renováveis. Mas essa ainda não é a realidade, devido à motivação dos mineradores de buscarem as fontes mais baratas de energia – que tendem a ser as mais poluentes. E é isso que iremos abordar abaixo.

Para mais contexto sobre o Bitcoin e outras criptomoedas, veja esse relatório: O que são criptomoedas?


Um impacto ambiental existente, mas impreciso

Na quarta-feira passada, dia 13 de maio, Elon Musk anunciou, em nome da Tesla, que a empresa não aceitará mais Bitcoin para compra de carros elétricos, devido às preocupações ambientais que envolvem a mineração da criptomoeda. No cenário atual, parte dos investidores tem se mostrado cada vez mais críticos sobre a forma como o Bitcoin é “extraído”, principalmente devido à grande quantidade de energia consumida através de combustíveis fósseis.

Na nossa visão, o maior problema do Bitcoin talvez não seja seu consumo massivo de energia, mas a motivação dos mineradores de buscarem as fontes mais baratas de energia que, por sua vez, tendem a ser as mais poluentes.

Estima-se que a maioria das instalações de mineração na rede do Bitcoin estão localizadas em regiões que dependem fortemente da energia à base de carvão, gerando grandes desafios quando o tema é o combate às mudanças climáticas. Em um levantamento de dados anônimos referentes às localizações dos mineradores feito pela CCAF, percebe-se que (i) a China tem o maior poder computacional por país, de acordo com os intervalos mensais desde setembro de 2019; e (ii) grande parte da energia utilizada para mineração de Bitcoin no continente da Ásia venha da queima de carvão.


Paralelamente, a Agência Internacional de Energia reitera que, mundialmente, o consumo dessa fonte de energia foi crescente no ano passado, quando comparado a 2019, principalmente na China, conforme mostra o gráfico abaixo.

Diversos são os estudos que buscam mensurar a quantidade de energia consumida e de emissões advindas da mineração da criptomoeda. Entretanto, como reflexo da natureza descentralizada do negócio, esse não é um número fácil de ser obtido.


Segundo o estudo feito pela Cambridge Center for Alternative Finance (CCAF), foi estimado que o consumo de energia saltou de 6,6 terawatts-hora no início de 2017 para 67 terawatts-hora em outubro de 2020. Em fevereiro deste ano, eles estimam que esse número subiu para 121,9 terawatts-hora. Mas o que esse valor significa?

Ele é aproximadamente 0,6% da produção global de eletricidade, ou o equivalente ao consumo anual de energia de pequenos países. Nesse caso, se o Bitcoin fosse um país, ele estaria classificado conforme ilustra o gráfico abaixo. Além da comparação anterior, também é possível comparar o consumo de energia do Bitcoin com algumas das maiores nações consumidoras de energia do mundo – veja no gráfico abaixo.

Mas, conforme mencionamos, o principal desafio é que, segundo o CCAF, somente 39% dos mineradores de bitcoin usam pelo menos alguma energia renovável como parte de seu fornecimento de energia – ou seja, mais de 60% depende de combustíveis fósseis. E a consequência disso é o alto volume de emissões de carbono atrelados à mineração da criptomoeda. Segundo um estudo do Digiconomist, as emissões anualizadas do Bitcoin são estimadas em 37 milhões de toneladas de dióxido de carbono, o mesmo nível emitido anualmente pela Nova Zelândia.


O outro lado da moeda

Que o processo de mineração de Bitcoin consome níveis elevados de energia e, consequentemente, colabora para as emissões de gás carbônico, os números acima mostram. No entanto, uma série de outras atividades presentes ao redor do mundo e no nosso dia-a-dia também colaboram, e muito, para as emissões. Dito isso, o principal ponto é entendermos onde se encontra o Bitcoin no relativo às demais atividades e é isso que iremos aprofundar abaixo.

Ainda no universo das criptomoedas, o Ethereum é a segunda criptomoeda mais popular depois do Bitcoin, e é vista como uma alternativa menos poluente. Da mesma forma que o Bitcoin, o processo de criação de novas moedas Ethereum começou pelo sistema “o vencedor leva tudo” do “proof-of-work”. Porém, o próprio criador do Ethereum mostrou preocupações com os gastos excessivos de energia, e migrou para um sistema chamado “proof-of-stake”.

Então, ao invés de inúmeros mineradores competirem entre si para validarem as transações e o “vencedor” receber novas criptomoedas como recompensa, o “proof-of-stake” seleciona aleatoriamente validadores de transações. Dessa maneira, os mineradores não competem entre si e computadores poderosos que consomem muita energia não garantem maior capacidade de minerar novas moedas.

Indo além do universo das criptomoedas, ainda que o Bitcoin seja responsável por consumir uma fração de aproxidamente 1% da eletricidade gerada em todo o mundo, sua pegada de carbono é mínima quando comparada à dos carros, usinas de energia e fábricas. Para fins de contexto, um estudo de Evan Mills, cientista sênior do Laboratório Nacional Lawrence Berkeleya feito em 2018 (“Green Gaming: Energy Efficiency without Performance Compromise”) estimou que os videogames apenas nos EUA respondem por cerca de 12 milhões de toneladas de CO2 por ano – um terço das emissões produzidas globalmente pelo Bitcoin.

Adicionalmente, segundo uma pesquisa da ARK Investment Management, da famosa investidora Cathie Wood, que inclusive investe em Tesla e ações relacionadas às criptomoedas, o ecossistema Bitcoin consome menos de 10% da energia necessária para o sistema bancário tradicional. Nesse tópico, é válido uma observação de que, enquanto o sistema financeiro atende a um número imenso de pessoas, possui milhares de funcionários e conta com um número considerável de escritórios para sustentar, a infraestrutura da indústria de criptomoedas ainda está sendo construída, e o número de indivíduos envolvidos neste ecossistema é consideravelmente menor.

Outra comparação também válida é a da criptomoeda, também chamada de “ouro digital”, com a extração do minério físico. Segundo a Digiconomist, todos os anos, cerca de 3,5mt de ouro são extraídas, com um total de emissões atingindo 81 milhões de toneladas métricas de CO2. Conforme mencionado anteriormente, a mesma pesquisa estima as emissões anualizadas do Bitcoin em 37 milhões de toneladas de dióxido de carbono, um número significativamente menor.

A conclusão, com isso, é que a preocupação com os impactos ambientais advindos da mineração do Bitcoin é irrelevante? De forma alguma. A mineração desta criptomoeda, considerando o cenário atual e no relativo, não se caracteriza como o principal desafio frente aos obstáculos a serem enfrentados no combate às mudanças climáticas. Mas ela é um deles, em conjunto com outros vários desafios que o mundo enfrenta.

Dito isso, retomando o anúncio recente de Elon Musk de que a Tesla não aceitará mais Bitcoin para a compra de carros elétricos, as principais críticas e ceticismo em relação ao posicionamento da empresa advém da potencial contradição de caminhar rumo ao combate às mudanças climáticas via carros elétricos, mas “financiar” tal movimento a partir da compra de Bitcoin, cujo processo envolve sim questões prejudiciais ao mesmo ambiente. Poderia ser pior? Sim, como por exemplo caso a opção fosse não eletrificar a frota e ter carros movidos à combustão. Mas, sem dúvida, poderia ser melhor.

Fato é que não existe uma bala de prata quando o tema é a redução das emissões de CO2 e o combate às mudanças climáticas. E é sobre isso que falaremos no próximo parágrafo.

Um dos maiores desafios do mundo

Em 2019, apenas o Brasil lançou na atmosfera 2,17 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e), um aumento de 9,6% A/A nas emissões brutas de gases de efeito estufa, de acordo com o Observatório do Clima. Do total de emissões, aproximadamente 19% vieram do consumo de energia no território nacional – veja o gráfico abaixo.

Olhando em uma perspectiva global, de acordo com o Global Energy Review 2021 da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), em 2020 as emissões de CO2 ao redor do mundo diminuíram 5,8% – o maior declínio de todos os tempos, cuja queda está relacionada às restrições de mobilidade durante a pandemia, enquanto as energias renováveis aumentaram. Apesar do declínio em 2020, as emissões globais de CO2 relacionadas à energia permaneceram praticamente no mesmo patamar que o ano anterior, o que contribuiu para que o CO2 atingisse sua maior concentração média anual na atmosfera.

A expectativa é que, em 2021, conforme a demanda por carvão, petróleo e gás se recuperam com a economia, as emissões globais de CO2 relacionadas à energia cresçam 4,8% – o equivalente a um aumento de mais de 1.500Mt de CO2, o maior aumento desde a recuperação econômica da crise financeira global de 2008.

O combate à alta das emissões de carbono e aos desafios climáticos como um todo tem sido uma das pautas mais discutidas entre lideranças empresariais e governamentais no cenário atual, dado o tamanho do desafio adiante. Na Cúpula de Líderes sobre o Clima, evento organizado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em 22 e 23 de maio, os representantes das principais economias desenvolvidas e em desenvolvimento se comprometeram com metas mais ambiciosas em relação à redução da emissão de gases de efeito estufa, com o objetivo de limitar o aumento da temperatura global em 1,5°C e cumprir os objetivos do Acordo de Paris.

O caminho é longo e o tempo é curto – não será uma trajetória fácil, mas ela é extremamente necessária. Em nossa opinião, (i) a universalização da compreensão dos riscos impostos pela mudança climática; (ii) a conscientização social sobre o tema; e (iii) a cooperação; são primordiais para o enfrentamento daquilo que é, hoje, um dos maiores desafios para o mundo: frear as emissões de gases de efeito estufa. E reforçamos nossa visão de que não existe uma bala de prata. É preciso unir esforços por parte dos governos, empresas e sociedade no combate à alta das emissões de carbono e aos desafios climáticos como um todo, inclusive dentro da indústria de criptomoedas.

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