De tempos em tempos, especialmente quando a volatilidade e o nível de aversão a risco estão elevados, investidores se deparam com alguma bolsa entrando em circuit breaker.
Em momentos de alta instabilidade, esse mecanismo de proteção é usado no mercado de renda variável para neutralizar movimentos bruscos dentro do horário de negociação.
O que é o circuit breaker?
A lógica do circuit breaker é basicamente a mesma de um disjuntor para instalações elétricas. Imagine que o sistema elétrico de uma casa esteja prestes a ter um curto-circuito. O disjuntor entra em ação para conter a sobrecarga, desligando a energia automaticamente.
No mercado, o circuit breaker seria o disjuntor para não deixar que a Bolsa entre em colapso.
Como funciona o circuit breaker?
Se você acompanhou o mercado financeiro nos últimos anos, provavelmente deve ter se deparado com a notícia de que a B3, a Bolsa de Valores do Brasil, parou durante o auge da pandemia do coronavírus, em março de 2020.
O mecanismo foi acionado várias vezes naquele período, inclusive por dias consecutivos.
Quando o circuit breaker é acionado, os negócios realizados no pregão são interrompidos na hora. Nenhum ativo pode ser comprado ou vendido enquanto o mecanismo estiver funcionando.
Ok, mas quando é que o circuit breaker é acionado?
Cada país tem suas regras para ativar o mecanismo de proteção, com percentuais de ativação adaptados para as características de seu mercado. Na B3, a ferramenta é acionada em etapas – ou seja, isso pode ocorrer várias vezes em um dia se o desempenho negativo continuar.
A primeira etapa é quando o Ibovespa, índice de referência da Bolsa, atinge 10% de queda. As negociações são então interrompidas por 30 minutos.
Passado esse período, o mercado é reaberto. Se o Ibovespa voltar a cair, dessa vez mais de 15%, o circuit breaker é acionado novamente, e os negócios são suspensos por 1 hora.
Após 1 hora, o mercado volta às atividades. Se cair 20% depois da reabertura, a B3 pode definir um período para a suspensão das negociações.
Aqui, vale ressaltar que os estágios do circuit breaker não podem acontecer nos últimos 30 minutos do pregão.
Se a interrupção da negociação ocorrer na última hora da sessão de negociação, o horário de encerramento é prorrogado por, no máximo, 30 minutos para a reabertura e a negociação (ininterrupta) dos ativos.
Uma ação pode entrar em circuit breaker?
O exemplo mais claro de paralisação de negócios na Bolsa é a queda brusca e acentuada do Ibovespa. Como o índice engloba as principais companhias listadas do país, suas oscilações são consideradas um termômetro fiel do mercado.
Mas e as ações individuais? Elas também podem entrar em circuit breaker?
Assim como o Ibovespa, as ações podem ser temporariamente suspensas quando há grandes variações de preço. Quando isso acontece, dizemos que o ativo entrou em leilão.
O leilão extraordinário de ações também funciona como um mecanismo de proteção para o investidor, mas se difere do circuit breaker em alguns aspectos.
Ele acontece nos casos em que a ação tem a partir de 10% de alta ou baixa (isso pode ser tanto em relação ao preço de fechamento do dia anterior quanto ao preço de abertura do dia). O tempo de paralisação costuma ser de 5 minutos, mas, se necessário, esse intervalo pode se estender por igual período (caso o papel volte a oscilar entre 10% e 20% em relação ao último preço antes de entrar em leilão).
Quando a ação entra em leilão, as negociações de compra e venda ocorrem em um sistema fechado para que as fortes oscilações sejam minimizadas.
O que pode causar um circuit breaker?
Como discutimos acima, ambientes altamente voláteis e instáveis podem levar ao acionamento do circuit breaker nos mercados.
Crises econômicas, tensões geopolíticas, escândalos… Diversos motivos podem levar uma bolsa a suspender as negociações.
Na B3, o circuit breaker já foi acionado 23 vezes. O último caso aconteceu durante a pandemia de Covid-19, quando o mecanismo foi acionado seis vezes.
Relembre abaixo alguns momentos marcantes de circuit breaker no Brasil e no mundo:
1997 – Crise asiática: a forte desvalorização das moedas de países emergentes do Sudeste Asiático por conta de mudanças nas políticas monetárias daquela época rapidamente atingiu os mercados de ações. Em outubro, a bolsa de Hong Kong tombou mais de 10% e levou junto outras bolsas do mundo, inclusive do Brasil e EUA. Esse período de recessão econômica, que também ficou conhecido como a “Crise dos Tigres Asiáticos”, foi o que levou a B3 a adotar pela primeira vez o mecanismo de paralisação das negociações para controlar o pânico dos investidores e a volatilidade dos ativos.
1998 – Crise russa: o mercado financeiro na Rússia começou a dar sinais de estresse um ano após a crise asiática. O governo do país não conseguia pagar suas dívidas externas, ao mesmo tempo que não tinha recursos para manter a economia doméstica funcionando. Esses motivos levaram o governo a anunciar um pacote de medidas com o intuito de enfrentar a crise, culminando em moratória internacional e forte desvalorização do rublo.
1999 – Câmbio flutuante: a moeda real teve uma forte desvalorização durante a mudança de regime cambial no Brasil, com a adoção do câmbio livre. O impacto chegou à Bolsa, que enfrentou dois circuit breakers e teve suas atividades temporariamente suspensas.
2008 – Crise do subprime: um dos momentos que marcaram a história do mercado financeiro, a crise de 2008, ou crise do subprime nos EUA, rapidamente se alastrou, produzindo efeitos negativos pelo mundo. Na época, houve uma alta demanda por produtos de financiamento imobiliário nos EUA (as chamadas hipotecas). Isso fez com que os bancos ampliassem o fornecimento de hipotecas com riscos elevados de calote. Os tomadores de empréstimo, atraídos pelos rendimentos desses ativos, passaram a não cumprir com suas obrigações de pagamento, levando ao colapso do mercado e à falência de alguns bancos.
2020 – Pandemia do coronavírus: a dispersão da Covid-19 pelo mundo gerou muitas dúvidas e preocupações nos mercados. No pico da pandemia, investidores tentavam entender os efeitos do surto sobre as economias globais, o comércio internacional e, consequentemente, os investimentos. No mesmo período, o choque dos preços do petróleo agravou o cenário de incertezas, e a fuga dos ativos de risco se intensificou. Só na B3, o circuit breaker foi acionado seis vezes em março, com o Ibovespa chegando a atingir perdas acima de 14% durante algumas negociações intradia. Nos EUA, as bolsas americanas suspenderam negociações no pré-mercado, após perdas acima de 7% (primeira etapa para o acionamento do circuit breaker no país) nos contratos futuros.
2025 – Bolsa do Japão: em abril, as negociações da Bolsa de Valores de Tóquio foram suspensas após o índice Nikkei 225 sucumbir a uma queda de mais de 12%, em meio a temores de desaceleração econômica global e adoção, pelos bancos centrais do mundo, de políticas monetárias mais restritivas visando o controle da inflação alta daquele período.
2026 – Bolsa da Coreia do Sul: em março, o Kospi, principal índice acionário da Coreia do Sul, registrou queda acima de 12% em um único pregão (do dia 4), cravando seu pior desempenho diário da história. A forte desvalorização teve como principal motivo o agravamento do conflito no Oriente Médio, que culminou no fechamento do Estreito de Ormuz e vem pressionando a indústria de óleo e gás – confira nossa análise sobre a guerra no Irã nesse link. A bolsa sul-coreana voltou a entrar em circuit breaker no dia 9, após cair mais de 8% durante o pregão.
O que o investidor deve fazer quando acontece um circuit breaker?
Como abordamos, o pânico generalizado nos mercados é um dos fatores que podem acionar o circuit breaker. Nesses casos, o investidor pode se sentir meio desnorteado e sem saber para onde correr.
Movimentos de circuit breaker também geram dúvidas sobre como ficam os investimentos. Afinal, se está caindo tanto é porque não é o momento certo de se arriscar na Bolsa, certo?
Não é bem assim. Cenários como esse exigem calma e cautela, principalmente quando as operações de compra e venda dos ativos estão muito voláteis.
O mecanismo de circuit breaker foi pensado justamente para evitar que decisões repentinas, normalmente tomadas quando os nervos estão à flor da pele, “quebrem” o mercado.
O investidor pode usar o tempo de paralisação dos negócios a seu favor: é um momento oportuno para analisar o noticiário, recalcular rotas e reavaliar o portfólio.
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