Por Maria Giulia Soares Figueiredo
A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México entre junho e julho, chega em condições macroeconômicas bastante distintas das de novembro de 2022, quando o Brasil entrou em campo no Qatar. Em termos de audiência, o engajamento do torcedor latino-americano tende a ser ainda maior — o estudo NielsenIQ (NIQ Industry Insights, Abril/2026) documenta que os fãs das Américas assistiram 8,3% mais horas de cobertura em 2022 do que em 2018, com o streaming surgindo como canal complementar à TV aberta.
Mas quem vai ao supermercado para montar a mesa do jogo vai perceber que a “cesta da Copa” ficou sensivelmente mais cara. Com base na composição revelada pelo estudo NIQ para o mercado brasileiro, selecionamos 10 itens para compor a cesta da copa do torcedor brasileiro. O resultado foi de um acúmulo de 32,5% entre o fechamento de 2022 e o fechamento de 2025, ante 21,0% do IPCA geral no mesmo período. O diferencial é de +11,5% pontos percentuais. O principal vilão da cesta é o chocolate em barra, cujo preço subiu 66,6% no período em função da crise global do cacau. Veja o resultado:
| Cesta da Copa | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | Acumulado 2022-2025 |
| IPCA Geral | +5,79% | +4,62% | +4,83% | +4,26% | +21,0% |
| Alimentação no domicílio | +13,23% | –0,52% | +8,23% | +1,43% | +23,7% |
| Carnes | +1,84% | –9,37% | +20,84% | +1,22% | +12,9% |
| Chocolate em barra e bombom | +13,57% | +3,05% | +11,99% | +27,12% | +66,6% |
| Cerveja | +9,37% | +5,29% | +4,50% | +5,97% | +27,5% |
| Biscoito | +24,04% | +0,17% | –0,40% | +8,32% | +34,1% |
| Refrigerante e água mineral | +12,35% | +6,74% | +6,92% | +5,65% | +35,5% |
| Suco de frutas | +14,17% | +6,13% | +11,26% | +0,63% | +35,7% |
| Leite condensado | +35,75% | –13,59% | +8,46% | +2,16% | +30,0% |
| Outras beb. alcoólicas | +15,59% | +11,41% | +8,78% | –2,88% | +36,1% |
| Sorvete | +20,10% | +11,26% | +4,43% | +3,82% | +44,9% |
| Carnes e peixes industrializados | +4,49% | –2,50% | +2,54% | +2,43% | +7,0% |
| Cesta da Copa | +15,15% | -2,23% | +9,65% | +7,35% | +32,5% |
Inflação, renda e orçamento comprimido
O relatório da 4intelligence (Abril/2026) apresenta um cenário de renda crescente, mas progressivamente comprimida por outras obrigações. A renda per capita cresceu em termos reais ao longo do período, com variações de +8,5% em 2022, +6,6% em 2023, +3,9% em 2024 e projeção de +4,3% para 2025. O desemprego caiu de 7,9% em 2022 para 5,6% em 2025.
O problema está em outro lugar. O comprometimento da renda familiar com pagamento de dívidas subiu para 29,3% em janeiro de 2026 — o nível mais elevado desde 2008. A dívida das famílias como proporção do PIB saiu de 33,7% no terceiro trimestre de 2022 para 36,5% no segundo trimestre de 2025. Há mais renda, mas ela chega mais dividida. Do lado dos preços, o IPCA geral acumulou, 21% no período entre 2022 e 2025.
A composição da cesta: o que o torcedor brasileiro consome
O estudo NIQ mapeou as categorias mais impulsionadas durante a semana de um jogo, com um boost médio de 13% em volume sobre a média trimestral (NIQ Industry Insights). Para a Copa 2022, o NIQ detalhou a composição da cesta Copa pelo critério de participação no faturamento do período (semanas 47 a 50, de 27/11 a 18/12/2022). A cesta respondeu por R$ 7,2 bilhões em receita, com crescimento de 19,1% em valor e 4,8% em volume. Os dez itens de maior contribuição foram:
Indústria de Carnes (19,2%), Chocolate (13,7%), Cervejas (12,5%), Salgadinhos (9,8%), Refrigerantes (8,4%), Carnes Congeladas (6,9%), Suco Pronto (5,3%), Leite Condensado (5,0%), Whisky (3,9%) e Água Mineral (3,1%).
Os demais itens — Batatas Congeladas, Sorvetes, Bebidas Energéticas, Vodca, Aguardente, Gin, Farofas, Pão de Alho, Misturas Alcoólicas e Água de Coco — completam os 100% dos produtos apresentados na pesquisa.
O que pesa na cesta do torcedor
Carnes: o item mais pesado ficou relativamente menos caro
A maior surpresa positiva para o orçamento do torcedor está no item de maior peso da cesta (19,2%): carnes. Com acumulado de apenas +12,9% em quatro anos — quase 8 pontos percentuais abaixo do IPCA geral, a carne ficou relativamente mais barata. 2023 foi um ano de correção intensa (–9,37%) após o pico de 2021 provocado por seca e exportações recordes para a China. Apesar da recuperação de 2024 (+20,84%) ter sido expressiva, o item permaneceu abaixo do índice geral. O torcedor que ainda faz churrasco para ver o jogo tem, o alimento central da mesa com menor pressão relativa. O mesmo vale para carnes e peixes industrializados, com apenas +7,0% acumulado, o menor da cesta, em função da queda no preço dos insumos em 2022.
Chocolate: o impacto do cacau distorce a cesta
O maior vilão é o chocolate, segundo item em peso da cesta da pesquisa NIQ (13,7%), que acumulou +66,6% em quatro anos, três vezes a inflação geral. O movimento é explicado por fatores externos, os preços internacionais do cacau, que oscilavam em torno de US$ 2.500 por tonelada em 2022, atingiram recordes próximos de US$ 10.000 por tonelada em 2024, pressionados por frustações de safra severas na Costa do Marfim e em Gana decorrentes de doenças das plantações e do El Niño. Em termos de inflação, o item Chocolate em barra e bombom registrou +13,57% em 2022, +11,99% em 2024 e +27,12% em 2025, o maior salto individual do período. Para 2026, podemos ver um movimento de alívio nos preços, diante de melhores safras do cacau, mas o nível de preços absolutos permanece historicamente elevado.
Refrigerantes, sucos e bebidas: pressão ampla e persistente
Refrigerante e água mineral acumularam +35,5%, também acima do IPCA geral. A pressão em 2022 veio de duas frentes: alta do açúcar no mercado internacional e encarecimento da embalagem PET (derivado do petróleo). Nos anos seguintes, a desaceleração foi moderada e os preços não reverteram. Suco de frutas acumulou +35,7%, com destaque para 2024 (+11,26%), pressionado pela queda de safra de frutas tropicais. Outras bebidas alcoólicas (whisky, gin, rum) acumularam +36,1% em 2022-2024, mas registraram queda em 2025 (–2,88%), parcialmente compensada pelo câmbio favorável em alguns segmentos de importados.
Cervejas: moderação relativa, mas acima do IPCA
Cervejas (12,5% de peso na cesta da pesquisa) acumularam +27,5%, acima do IPCA geral (+21,0%), mas abaixo de refrigerantes e chocolates. Em 2022, a inflação do item foi impulsionada pelos custos de malte e cevada e do alumínio para latas. Nos anos seguintes, a estabilização das commodities permitiu desaceleração. O estudo NIQ aponta, adicionalmente, uma tendência estrutural de crescimento das marcas mais caras (premium/gourmetização), o que significa que o preço médio real pago pelo torcedor pode ser ainda maior do que o índice de subitem sugere.
Sorvetes: alta expressiva pelo caminho dos laticínios e açúcar
Sorvete (2,6% da cesta) acumulou +44,9%, o segundo maior da cesta, depois do chocolate. A explicação passa por dois insumos: laticínios (que tiveram alta de 22,07% em 2022) e açúcares e derivados (subida persistente ao longo do período). Embora o peso na cesta seja pequeno, a velocidade da alta é um sinal de como a compra de itens de prazer imediato fica proporcionalmente mais cara em ambiente inflacionário.
Hábitos de consumo: o que o torcedor compra, onde e como
O estudo NIQ revela padrões de consumo comparativos entre países. Salgadinhos e bebidas alcoólicas são as categorias que se destacam em todos os mercados analisados — Argentina, Colômbia, Brasil e México (NIQ Industry Insights). Mas as hierarquias internas variam de forma relevante.
Na Argentina (Final Copa América 2024), o Fernet (licor) liderou com índice de sazonalidade, seguido de salgadinhos e chocolate. Na Colômbia, cervejas e drinks prontos lideraram. No México, chocolate e vinho surpreenderam pelo peso. No Brasil, o padrão é marcado por proteínas: batata congelada, salgadinhos e carnes congeladas e carnes in natura — reflexo cultural do churrasco, item que permanece no centro da mesa mesmo com a Copa sendo jogada no exterior.
Um ponto relevante levantado pelo NIQ é o impacto da Geração Z: o menor consumo de álcool por essa faixa pode modificar o padrão das próximas Copas, abrindo espaço para energéticos, sucos e versões zero álcool, categorias que tendem a crescer mesmo com preços mais altos.
Renda real vs. preços: a folga encolheu
A renda per capita cresceu mais do que a inflação geral no período (+27% em termos nominais acumulados segundo 4intelligence/IBGE, vs. +21,0% de IPCA geral). Mas a cesta Copa acumulou +32,5%, quase cinco pontos percentuais acima do ganho de renda nominal. Em outras palavras: a cesta Copa ultrapassa o ganho nominal de renda do período para o consumidor mediano.
Isso se agrava por dois fatores: (1) o comprometimento crescente com dívidas (29,3% da renda em jan/2026) subtrai poder de compra antes mesmo do torcedor chegar ao supermercado; (2) a inflação mais alta incide exatamente nos itens de maior prazer imediato e consumo coletivo, que têm elasticidade de demanda diferente dos itens básicos. O torcedor tende a consumir a cesta Copa independente do preço, o que explica por que o NIQ registra impulso médio de 13% em volume mesmo em contexto de preços elevados. A consequência prática é a substituição dentre as opções disponíveis: embalagens menores, marcas mais baratas, menos itens por mesa.
Torcer ficou mais caro?
A cesta da Copa ficou 32,5% mais cara entre o fechamento de 2022 e o fechamento de 2025, com o chocolate sendo o vilão mais expressivo (+66,6%).
Em contrapartida, o item de maior peso/consumo nessa época, a carne, teve um resultado mais benigno (+12,9%), funcionando como âncora relativa do orçamento do torcedor. A pressão concentrou-se em bebidas (alcoólicas e não alcoólicas), confeitaria e produtos processados, exatamente aqueles itens associados ao consumo coletivo e ao prazer imediato de assistir ao jogo.
Para quem vai curtir os jogos da copa, fazer escolhas inteligentes ajudam a não impactar o orçamento financeiro nesse período: a preparação antecipada para as compras permite encontrar preços mais competitivos, embalagens econômicas e promoções. O torcedor pode consumir, mas é importante calibrar o que coloca na mesa.
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