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China reduz meta de crescimento e sinaliza maior disciplina fiscal

Anúncio do 15º Plano Quinquenal

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O premier Li Qiang sinalizou uma mudança relevante na orientação da política econômica chinesa para 2026, ao apresentar uma meta de crescimento do PIB na faixa de 4,5% a 5,0%, a menor desde 1991, além de combiná-la com uma postura fiscal mais conservadora e maior foco em ajustes estruturais. A justificativa oficial é “deixar espaço para ajustes, prevenção de riscos e reformas”, o que indica disposição de aceitar um crescimento um pouco menor em troca de maior sustentabilidade, em especial no tratamento da dívida de governos locais e na estabilidade do sistema financeiro. Ao mesmo tempo, o documento também trouxe a sinalização que se deve “esforçar-se por melhor desempenho na prática” sugerindo que o governo ainda mira do limite superior da banda. Vale destacar que essa foi a primeira vez em que a meta foi reduzida desde o corte para “cerca de 5%” em 2023.

No campo fiscal, o déficit orçamentário oficial permanece em 4% do PIB, com manutenção das quotas (limites máximos autorizados) de títulos especiais de governos locais (LGFVs) e de títulos especiais de longo prazo em níveis similares aos de 2025. Em termos de caixa, o déficit combinado dos principais orçamentos deve girar em torno de 9,5% do PIB, apenas 0,5 p.p. acima do observado no ano passado, o que representa um impulso fiscal sensivelmente menor que o de 2025. Considerando a tendência de baixa execução orçamentária dos últimos anos, há inclusive risco de que o impulso fiscal efetivo seja nulo ou ligeiramente contracionista, em linha com o discurso de maior disciplina, melhor coordenação de recursos e ajustes pontuais na tributação.

Apesar da retórica favorável à demanda interna, o apoio adicional direto ao consumo é limitado. Os programas sociais voltados às famílias e aposentados devem crescer em grande medida por inércia, sem grandes esforços novos, e o programa de substituição de bens de consumo terá recursos ligeiramente inferiores aos de 2025. A principal novidade é um fundo de coordenação fiscal-financeira de cerca de RMB 100 bi (USD 14,5 bi) para subsidiar o financiamento ao consumo, que tende a apoiar a demanda, ainda que de forma pontual. Por outro lado, o governo reforça instrumentos de crédito de política para investimentos, ampliando em RMB 800 bi (USD 116 bi) os “novos instrumentos de financiamento de políticas” e indicando maior uso de títulos especiais de governos locais para projetos, sempre com foco em setores considerados estratégicos. Adicionalmente, o gasto com defesa permanece como uma prioridade, com crescimento de 7% projetado para 2026 (contra 7,2% em 2025), à medida que o governo alerta contra a independência de Taiwan e destaca riscos geopolíticos crescentes ao redor do mundo.

Todos os anúncios ocorrem em um cenário ainda desafiador para a China, com a combinação de consumo fraco, crise prolongada no setor imobiliário, envelhecimento populacional e ambiente externo mais hostil limitando a capacidade de retomada orgânica do crescimento, ainda que o país tenha começado a acionar grandes pacotes de estímulos a partir do final do 3º trimestre de 2024.

O 15º Plano Quinquenal, cujos contornos começam a ser divulgados, reforça a intenção de reposicionar a economia em direção a maior intensidade tecnológica, com forte ênfase em inovação, inteligência artificial, transição energética e mais de cem grandes projetos em infraestrutura, ciência e energia. Ao mesmo tempo, a dependência de um grande superávit comercial permanece elevada, deixando a China mais exposta a choques externos, seja via tensões comerciais com os Estados Unidos, seja via um eventual ciclo prolongado de alta de preços de energia decorrente de conflito no Oriente Médio.

Com isso, vemos que os anúncios recentes se consolidam em três mensagens principais: (i) a redução da meta de crescimento e a calibragem do impulso fiscal refletem uma postura mais realista e disciplina, com o número mais importante (meta de PIB para 2026) em linha com as expectativas, mostrando um governo que aceita um crescimento um pouco menor hoje em troca de maior sustentabilidade fiscal e financeira adiante; (ii) o padrão de estímulo se torna mais seletivo, com investimentos direcionados em alta tecnologia, infraestrutura específica e energia verde, em detrimento de grandes pacotes horizontais de apoio ao consumo; e (iii) a estratégia mantém a economia chinesa fortemente dependente de fatores exógenos, em especial a evolução do comércio global e do mercado de energia, o que aumenta a incerteza em torno da trajetória de crescimento.

Em síntese, a mudança de metas e de configuração de políticas parece um passo gradual, ainda que relevante, para um modelo mais ancorado em produtividade, inovação e sustentabilidade fiscal, ainda que às custas de um crescimento menos acelerado e potencialmente mais volátil no curto prazo.

Como os mercados reagem?

Tanto o ETF de grandes empresas chinesas (Ticker: FXI) quanto o KWEB, ETF de empresas chinesas de tecnologia apresentam queda antes da abertura do mercado (ambos recuam cerca -2%), refletindo não apenas os números divulgados, mas também a escalada do conflito no Oriente Médio que leva ao país riscos de quebra nas cadeias de suprimentos. Em contraste, o ASHR, que possui menos peso em empresas chinesas de tecnologia, apresenta recuo mais moderado, de aproximadamente -0,2%. Paralelamente, bolsas americanas apresentam queda menos acentuada (os futuros do S&P recuam -0,3).

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