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Conflito no Oriente Médio completa duas semanas

Show, don’t tell: discursos voláteis, impactos persistentes

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O conflito no Oriente Médio seguiu dominando o noticiário e gerando volatilidade nos mercados pela segunda semana, especialmente após declarações contraditórias de Donald Trump. No último fim de semana, o presidente americano sugeriu que o conflito poderia ser encerrado relativamente rápido, o que levou investidores a interpretar que uma resolução estaria próxima. Assim, a reação na abertura dos mercados foi de pressão sobre os preços, fazendo com que o barril de petróleo, que chegou a negociar próximo a US$ 120, recuasse para abaixo dos US$ 90, enquanto os mercados recuperavam parte das perdas.

Ainda assim, as mensagens do governo americano permaneceram ambíguas, deixando dúvidas sobre os objetivos e a duração da campanha militar. Esse fator ganha ainda mais peso devido o atual cenário doméstico americano, com a aproximação das eleições midterms de novembro, o aumento do preço da gasolina e do custo de vida já aparecendo entre as principais preocupações do eleitorado, inclusive com pesquisas indicando resistência crescente da população ao envolvimento prolongado no conflito, e chance crescente de que o partido Democrata ganhe controle do Congresso.

O alívio nos preços do petróleo, no entanto, durou pouco. Em seu primeiro pronunciamento oficial, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que o Estreito de Ormuz deve permanecer fechado como forma de pressionar adversários, e respondeu diretamente à ofensiva liderada pelos EUA e Israel. A declaração ocorreu enquanto o tráfego marítimo na região já havia sido severamente afetado, com a passagem de navios petroleiros praticamente interrompida no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e GNL do mundo, gerando interrupções na cadeia de energia e logística.

Ao mesmo tempo, Trump voltou parcialmente atrás de seu tom conciliador, sugerindo que o conflito poderia durar semanas e reiterando que a campanha militar poderia se intensificar caso o Irã continue ameaçando petroleiros no Golfo. Com isso, os preços do petróleo voltaram a subir e, na quinta-feira, o barril (Brent) voltou a fechar acima de US$ 100 pela primeira vez desde agosto de 2022. Empresas de energia na região do Golfo declararam força maior, refinarias foram temporariamente paralisadas e o transporte de GNL praticamente cessou.

Caso o conflito se estenda por mais tempo, as implicações econômicas tendem a ser relevantes, particularmente para Ásia. Economias do Leste Asiático importam cerca de 60% do seu petróleo do Oriente Médio, o que torna a região altamente vulnerável a choques de oferta. Para países asiáticos altamente industrializados, como China, Japão e Coréia do Sul, a consequência direta é o aumento de custos de produção, transporte e energia, além de possíveis impactos sobre cadeias industriais e comércio global, e em casos extremos, até mesmo risco de desabastecimento. Por conta desses riscos, a China suspendeu a exportação de diesel refinado no país, e a IEA (organização da qual Japão e Coréia do Sul fazem parte) anunciou que seus membros irão realizar venda de petróleo das reservas estratégicas em nível recorde (400 milhões de barris, contra cerca de 182 milhões no início da guerra entre Rússia e Ucrânia).

No entanto, não são só perdedores. Um agente peculiar tem emergido como ganhador nesse conflito: a Rússia. Diante da escassez disseminada de petróleo e gás, parte das sanções às exportações energéticas do país foram removidas pelos EUA, o que provocou uma redução do desconto que vinha sendo praticado nos preços russos em relação à referência internacional, com o principal destino dessas exportações sendo a Índia e a China.

No longo prazo, o choque reforça um ponto central para os mercados globais: a assimetria entre países produtores e grandes economias consumidoras de energia. Enquanto EUA e Canadá produzem mais petróleo do que consomem, muitas das maiores economias industriais apresentam forte dependência externa, como Japão, Coréia do Sul, França e Alemanha. Essa dependência faz com que choques de oferta funcionem, na prática, como um imposto sobre essas economias, elevando inflação, reduzindo poder de compra e pressionando margens industriais. Se o conflito persistir por semanas ou meses, a consequência mais provável será um ambiente global de energia mais cara, maior volatilidade nos mercados, pressão inflacionária adicional e menos crescimento, tendendo a afetar de forma desproporcional as economias importadoras de petróleo.

Confira todos os relatórios já publicados sobre o conflito no Oriente Médio pelo Research XP

A aversão a risco segue forte, e isto, combinado a temores de inflação mais elevada e seu consequente efeito sobre a trajetória dos juros tem sido motivo pelo qual o dólar tem se fortalecido no período. Apesar de o ouro historicamente ser um ativo que se beneficia de momentos de incerteza, a perspectiva de uma inflação mais elevada devido ao choque de energia tem feito com que a commodity metálica tenha comportamento contrário.

Diante de ambiente que deve seguir desafiador, um portfólio diversificado entre regiões, setores e classes de ativos ganha importância ainda maior.

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