Recap Semanal (05/10): A dívida/PIB em ponto de ebulição?

Um olhar analítico dos impactos de cada cenário das eleições americanas



O que a barreira do 100% da relação entre a dívida e o PIB tem em comum com o 100 oC do ponto de ebulição da água?

Na física, o ponto de ebulição de uma substância é a temperatura na qual ela passa do estado líquido para o gasoso. Também pode ser entendido como o momento de transformação, o ponto onde há uma mudança de fase. Para a água fervente ao nível do mar, a 100 oC as condições se alteram, existe uma mudança de fase e, consequentemente, de estado. Na matemática contábil da relação dívida/PIB, a partir do nível de 100% as condições da trajetória futura também mudam de fase. Por essa razão, na formação de preço dos ativos domésticos, a variável risco fiscal tem afetado mais intensamente os preços nas últimas semanas.

A Emenda Constitucional do Teto dos Gastos Públicos limita as despesas do governo aos mesmos valores dos gastos no ano anterior corrigidos pela IPCA. Nesse sentido, qualquer aumento de gastos, mesmo que financiado por aumento de receita, ie, de impostos, estouraria o teto.

Mas, além do objetivo direto de conter o aumento dos gastos, a função do teto é conter o aumento do endividamento do Estado. E aqui voltamos para a barreira dos 100, ponto de mudança de fase da dívida pública brasileira.

Quando, na relação dívida/PIB, o numerador se iguala ao denominador, o que deve acontecer no final de 2021, existe uma mudança de fase na perspectiva da trajetória dessa relação. Para cada ponto de elevação no numerador (dívida), o denominador (PIB) tem que crescer também, pelo menos, um ponto percentual para a relação não crescer. Nessa matemática básica, a partir da barreira do 100 a dificuldade para conseguir trazer de volta a relação para baixo é muito maior. A barra para o Brasil, que tem problema crônico de baixo crescimento, está mais alta.

Fazendo algumas simulações, baseadas no histórico do resultado fiscal e do crescimento, entende-se o porquê da preocupação com a perspectiva da trajetória da dívida/PIB. De novo, usando matemática ginasial, a dívida (numerador) cresce com o juros mais o déficit e o PIB (denominador) varia de acordo com a expansão ou contração da economia.

Em média nos últimos anos, o setor público obteve déficit de ~2% e a perspectiva é que o resultado permaneça nesse nível médio ao longo dos próximos anos. A perspectiva atual é que o custo da dívida pública fique em torno de 4,5% e o PIB cresça próximo a 2,5% nos próximos anos, em linha com a média dos últimos 20 anos.

Com a dívida/PIB em 100%, usando o histórico como base, nos próximos 10 anos a relação ultrapassará 120%. Para piorar, com essa percepção sobre a trajetória, o comportamento dos agentes tem poder de piorar ainda mais as variáveis, deteriorando mais rapidamente essa trajetória. A partir daí, a percepção de insustentabilidade da dívida pública toma conta e antecipa o estrago. O mercado não esperará a dívida se tornar insustentável, basta ter a percepção de insustentabilidade.

Na construção da nossa árvore de probabilidades, aumentaram as chances do mercado perceber a trajetória da dívida pública como sendo insustentável. Mas, importante ressaltar que o cenário base ainda é que a trajetória se estabilizará e começará a cair logo depois. Todavia, na gestão de recursos tentamos estar preparados para diversos cenários. Nesse sentido, antecipar comportamentos, percepções e suas probabilidades nos ajudam nessa construção de cenários possíveis e, assim, nos antecipamos na montagem das proteções e adequações das posições. Se existe alguma chance, por menor que seja, dos agentes perceberem que a dívida pública pode mudar de estado e perder valor, temos que estar preparados.

Equipe XP Advisory

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